EDUCAÇÃO MULTIDISCIPLINAR

Defendemos uma política educacional multidisciplinar integrando os conhecimentos científico, artístico, desportivo e técnico-profissional, capaz de identificar habilidade, talento, potencial e vocação. A Educação é uma bússola que orienta o caminho, minimiza dúvidas, reduz preocupações e fortalece a capacidade de conquistar oportunidades e autonomia, exercer cidadania e civismo e propiciar convivência social com qualidade, dignidade e segurança. O sucesso depende da autoridade da direção, do valor dado ao professor, do comprometimento da comunidade escolar e das condições oferecidas pelos gestores.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A PEDAGOGIA DA MARQUETAGEM


ELIO GASPARI, CORREIO DO POVO, 28/12/2011

A compra de 300 mil tabuletas (equipamento também conhecido como tablet) para estudantes da rede de ensino público nacional poderá ser a última encrenca da gestão do ministro Fernando Haddad, ou a primeira de Aloizio Mercadante. O repórter Luciano Máximo informa que falta pouco para que o governo federal ponha na rua o edital de licitação para essa encomenda. Governos que pagam mal aos professores, que não têm programas sérios de capacitação dos mestres, onde escolas estão caindo aos pedaços, descobriram que a compra de equipamentos eletrônicos é um bálsamo da pedagogia da marquetagem. Cria-se a impressão de que se chegou ao futuro sem sair do passado.

O governo de Pernambuco licitou a compra de 170 mil tabuletas, num investimento global de R$ 17 milhões. A Prefeitura do Rio anunciou em outubro que tem um projeto para distribuir outras 25 mil. A de São Paulo contratou o aluguel de 10 mil ao preço de R$ 139 milhões. Felizmente, o negócio foi abatido em voo.

A rede pública de Nova Iorque, com 1,1 milhão de estudantes, investiu apenas US$ 1,3 milhão, numa experiência que colocou 2 mil iPads nas mãos de professores e de alunos de algumas escolas. Já a cidade mineira de Itabira (12 mil jovens na rede pública) comprou 3 mil laptops, num investimento de US$ 573 mil.

Na Índia, onde se fabricam tabuletas simples por US$ 35, existe um projeto piloto, para 100 mil alunos, num universo de 300 milhões de estudantes. Se tudo der certo, algum dia distribuirão 10 milhões de unidades. Na Coreia, o governo planeja colocar tabuletas nas mãos de todas as crianças do ensino fundamental. Lá, a garotada tem jornadas de estudo de 12 horas diárias. O projeto de Pindorama parece mais com o do Cazaquistão do companheiro Borat, onde se prevê a compra de 83 mil tabuletas até 2020.

Encomendas milionárias de computadores ou tabuletas para a rede pública são apenas compras milionárias, com tudo o que isso significa. Se a doutora Dilma quiser, pode pedir as avaliações técnicas que porventura existam do programa federal. Um Computador por Aluno. Com quatro anos de existência, o UCA tem muitos padrinhos e fornecedores (150 mil máquinas entregues e 450 mil encomendadas por estados e municípios). Nele, algumas coisas deram certo. Outras deram errado, ora por falta de treinamento dos professores, ora pela compra de equipamentos condenados à obsolescência.

Uma boa ideia não precisa desembocar em contratos megalomaníacos que terminam em escândalos. Se um cidadão que cuida do seu orçamento não sabe qual tabuleta deve comprar, o governo, que cuida da Bolsa da Viúva, deve ter a humildade de reconhecer que não se deve encomendar 300 mil tabuletas, atendendo a fabricantes que não conseguem produzir máquinas baratas como as indianas ou versáteis como as americanas, japonesas e coreanas.

Se esses equipamentos só desembarcarem em cidades e escolas onde houver banda larga e professores devidamente capacitados, tudo bem. Se o que se busca é propaganda, basta comprar 20 tabuletas, chamar a equipe de marqueteiros que faz filmes para as campanhas eleitorais e rodar o vídeo. Consegue-se o efeito e economiza-se uma montanha de dinheiro.

A PEDAGOGIA DA MARQUETAGEM

ELIO GASPARI, CORREIO DO POVO, 28/12/2011

A compra de 300 mil tabuletas (equipamento também conhecido como tablet) para estudantes da rede de ensino público nacional poderá ser a última encrenca da gestão do ministro Fernando Haddad, ou a primeira de Aloizio Mercadante. O repórter Luciano Máximo informa que falta pouco para que o governo federal ponha na rua o edital de licitação para essa encomenda. Governos que pagam mal aos professores, que não têm programas sérios de capacitação dos mestres, onde escolas estão caindo aos pedaços, descobriram que a compra de equipamentos eletrônicos é um bálsamo da pedagogia da marquetagem. Cria-se a impressão de que se chegou ao futuro sem sair do passado.

O governo de Pernambuco licitou a compra de 170 mil tabuletas, num investimento global de R$ 17 milhões. A Prefeitura do Rio anunciou em outubro que tem um projeto para distribuir outras 25 mil. A de São Paulo contratou o aluguel de 10 mil ao preço de R$ 139 milhões. Felizmente, o negócio foi abatido em voo.

A rede pública de Nova Iorque, com 1,1 milhão de estudantes, investiu apenas US$ 1,3 milhão, numa experiência que colocou 2 mil iPads nas mãos de professores e de alunos de algumas escolas. Já a cidade mineira de Itabira (12 mil jovens na rede pública) comprou 3 mil laptops, num investimento de US$ 573 mil.

Na Índia, onde se fabricam tabuletas simples por US$ 35, existe um projeto piloto, para 100 mil alunos, num universo de 300 milhões de estudantes. Se tudo der certo, algum dia distribuirão 10 milhões de unidades. Na Coreia, o governo planeja colocar tabuletas nas mãos de todas as crianças do ensino fundamental. Lá, a garotada tem jornadas de estudo de 12 horas diárias. O projeto de Pindorama parece mais com o do Cazaquistão do companheiro Borat, onde se prevê a compra de 83 mil tabuletas até 2020.

Encomendas milionárias de computadores ou tabuletas para a rede pública são apenas compras milionárias, com tudo o que isso significa. Se a doutora Dilma quiser, pode pedir as avaliações técnicas que porventura existam do programa federal. Um Computador por Aluno. Com quatro anos de existência, o UCA tem muitos padrinhos e fornecedores (150 mil máquinas entregues e 450 mil encomendadas por estados e municípios). Nele, algumas coisas deram certo. Outras deram errado, ora por falta de treinamento dos professores, ora pela compra de equipamentos condenados à obsolescência.

Uma boa ideia não precisa desembocar em contratos megalomaníacos que terminam em escândalos. Se um cidadão que cuida do seu orçamento não sabe qual tabuleta deve comprar, o governo, que cuida da Bolsa da Viúva, deve ter a humildade de reconhecer que não se deve encomendar 300 mil tabuletas, atendendo a fabricantes que não conseguem produzir máquinas baratas como as indianas ou versáteis como as americanas, japonesas e coreanas.

Se esses equipamentos só desembarcarem em cidades e escolas onde houver banda larga e professores devidamente capacitados, tudo bem. Se o que se busca é propaganda, basta comprar 20 tabuletas, chamar a equipe de marqueteiros que faz filmes para as campanhas eleitorais e rodar o vídeo. Consegue-se o efeito e economiza-se uma montanha de dinheiro.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O DILEMA DA EDUCAÇÃO

EDITORIAL INTERATIVO ZERO HORA 18/12/2011

O Brasil ficou diante de um falso dilema com a divulgação de estudos recentes sobre a situação da educação. A partir de uma conclusão do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea), de que o país precisa de mais dinheiro para melhorar o ensino público, ampliou-se o debate entre os que apoiam o apelo por mais verbas e os que entendem que a prioridade é a melhoria da gestão, com racionalização na utilização dos recursos, da formação dos professores e da atualização de currículos e da assimilação pelas escolas dos avanços da tecnologia. Os dois lados estão certos quando, ao discordarem no detalhe, convergem para a grande prioridade nacional: chegou o momento de investir com determinação na qualificação do ensino básico, desde a pré-escola, para recuperar o tempo perdido em décadas de omissão.

Pelos estudos do Ipea, o Brasil deveria aumentar os investimentos em educação de 5% para 7% do PIB. A dotação ideal provoca discussões intermináveis. Argumenta-se, por exemplo, que países desenvolvidos aplicam menos e conseguem melhores resultados. Contrapõe-se a esse raciocínio o de que nações ricas consolidaram suas estruturas de ensino, enquanto a educação pública brasileira ainda é precária. O debate avança então na direção das causas, para além da carência de verbas, e os diagnósticos e as soluções não têm como se desviar do fortalecimento do ensino para crianças e adolescentes. O próprio Ipea admite que esse é o caminho a seguir e tem o reforço de estudos como o realizado pelo Centro de Microeconomia Aplicada da Fundação Getulio Vargas, que analisou a importância dos primeiros anos de escola.

Segundo o Centro, o Brasil descuidado com a educação na pré-escola faz com que sejam subtraídos de muitas crianças mais de três anos de escolaridade. O estudo comprova que crianças em atividade pré-escolar a partir dos três anos terão, mais adiante, maior desenvoltura para aprender e são as menos vulneráveis à repetência e à evasão. Junte-se a esse estudo outras conclusões sobre o descaso também com os ensinos Fundamental e Médio e chegaremos ao consenso. A educação pode de fato precisar, em muitas áreas, de mais investimentos, mas necessita ao mesmo tempo de melhorias de gestão, para se dedicar a prioridades inadiáveis. E a prioridade número 1 agora, depois de anos de dedicação ao Ensino Superior, deve ser a educação básica.

Um dado do Banco Mundial denuncia nosso atraso: em países desenvolvidos, com modelos de ensino consolidados, as despesas com um estudante universitário é duas vezes superior às destinadas a um aluno do ciclo fundamental. No Brasil, a relação cresce para seis por um. Essa é a desigualdade a ser corrigida. Nos últimos anos, o país ampliou, com programas públicos, o acesso ao ensino universitário, enquanto a educação fundamental e média não acompanha o mesmo ritmo. Calcula-se que dois em cada 10 jovens de 15 a 17 anos estão fora da escola. É preciso melhorar as formas de acesso, atualizar currículos, conter evasões e valorizar o magistério, sempre com o foco no estudante e sem as dispersões provocadas por debates corporativos. O Plano Nacional de Educação, em debate no Congresso, com metas ambiciosas para até 2020, acena com a correção de rumos, mas somente será efetivo se não se transformar em apenas mais um documento de intenções. Depois da atenção ao ensino universitário, é inadiável a prioridade à educação básica, com foco no aluno, melhor gestão de recursos e sem os debates dispersivos das pressões corporativas.


A questão proposta aos leitores foi a seguinte: Você concorda com o editorial que defende prioridade ao ensino básico em relação à educação universitária?

O leitor concorda

Concordo, porque já está provado que, sem uma base sólida, o aluno se forma na universidade e estaciona; considera-se aí a grande quantidade de cursos sem qualidade no país, principalmente, ensino à distância. Há deficiências no Ensino Fundamental que os alunos levam para o resto da vida, principalmente nos aspectos relativos à aquisição da linguagem; isso ocorre por falta de valorização dos professores e por um sistema de ensino que não exige e não reprova os alunos. Dirnei Bandeira Livramento (RS)

O nome já diz tudo: o ensino básico é básico. Básico significa aquilo que está na base, significa fundamento. Básico é o que dá sustentação àquilo que for construído por cima. Investir no Ensino Superior com um ensino básico pífio e jogado às traças é desperdício, é fazer uma construção que, cedo ou tarde, vai ruir. A situação que se vê hoje demonstra isso claramente: a educação básica é ignorada ao ponto de professores serem hostilizados por alunos. Não existe respeito e, muito menos, valorização do ensino. Qual a dúvida de que, apesar do grande aumento no número de vagas no Ensino Superior, os graduandos sejam cada vez menos preparados? Educação só demonstra resultado quando apresenta constância; é uma realidade que, se iniciada hoje, apresentará seus resultados daqui a 15, 20 anos. O fato é que educação não rende votos, quanto mais se fale em educação básica. Mesmo porque é essa mesma educação básica que ensina um povo a pensar e deixar de ser explorado. Renan Espinoza Porto Alegre (RS)

Concordo. Falta base aos estudantes em geral, o que acaba afetando o desempenho daqueles que chegam à universidade mais tarde. E sabemos que nem todos chegarão lá. Não é mais correto que o ensino básico, que é obrigatório a todos, tenha então todo o apoio? Beatriz Villanova Porto Alegre (RS)

Com certeza a prioridade ao ensino básico mudaria toda a estrutura da sociedade. Principalmente em exercer sua cidadania, onde muitos, por desconhecerem o que é ser cidadão, fazem parte dos excluídos sociais de hoje. A mudança de paradigma se faz necessária e urgente, para diminuirmos o caos que se encontra na sociedade. A educação básica é a salvação para um futuro melhor para o Brasil. Claudia Guiel Porto Alegre (RS)

Concordo, pois o Ensino Médio, se cursado com seriedade e principalmente se for profissionalizante, prepara o estudante para ser um bom profissional, que poderá depois cursar uma universidade com grande conhecimento, além de poder pagá-la e comprar os livros técnicos requeridos, não lendo apenas cópias xerox de alguns capítulos, exigidos pelos professores. Eloi Laufer

O leitor discorda

Com certeza é importantíssimo investir na educação básica. Mas não se pode sacrificar a educação universitária, que pode gerar inovação, indispensável para podermos crescer como nação. Devemos, sim, aumentar os investimentos na educação em todos os níveis, realocando os recursos que atualmente são distribuídos para apadrinhados políticos em todas as esferas e destinando-os para quem realmente precisa e, por lei, tem direito. Guilherme Napp – Porto Alegre (RS)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

GASTOS INSUFICIENTES


Gastos do Brasil com educação não são suficientes para atingir metas, diz Ipea. Relatório divulgado nesta quarta dá sustentação a protestos por mais investimento na área - O ESTADO DE SÃO PAULO, 14 de dezembro de 2011 | 9h 24


Apesar da ampliação dos últimos anos, os gastos do Brasil com educação (menos de 5% do PIB) não são suficientes para ampliar o acesso ou a qualidade, metas do novo Plano Nacional de Educação (PNE). A conclusão está em estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômia Aplicada) divulgado na manhã desta quarta-feira. "Este valor é distante daquele indispensável ao financiamento das necessidades", diz o comunicado Financiamento da educação: necessidades e possibilidades.

O estudo é divulgado no mesmo dia para o qual a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que coordena o movimento “PNE pra VALER!”, está convocando internautas para fazer um tuitaço, destinado a deputados federais, em favor da destinação de 10% do PIB para o ensino público no novo Plano Nacional de Educação, cujo relatório prevê 8%. Na semana passada, manifestantes começaram o 'Ocupe Brasília' com a mesma meta.

Pelos números do Ipea, houve uma ampliação real do gasto em educação realizado pelas três esferas de governo no período de 1995 a 2009, saindo de R$ 73,5 bilhões para R$ 161,2 bilhões - um crescimento real de 119,4% em 15 anos, equivalente a 5,9% ao ano. Também houve aumento dos gastos em comparação com o PIB, saindo de 4% para cerca de 5% no mesmo período.

Ainda asim, para alcançar as metas do PNE, será necessário buscar outras fontes de financiamento, afirma o Ipea. O estudo apresenta cinco possibilidades: incremento no financiamento tributário; usar recursos do pré-sal; usar a folga orçamentária proveniente da redução de despesas com juros; captar recursos; e a melhoria e recomposição do gasto público em educação.

Para o Ipea, a política de financiamento deveria ser precedida pelo planejamento de ações envolvendo a vasta comunidade engajada com educação. "O número escolas disponíveis no sistema chega próximo a 180 mil. Além disso, na educação básica estão empregados cerca de dois milhões de professores – dos quais 1,6 milhão na rede pública", diz o texto. "No ensino superior, são quase 340 mil docentes – 120 mil em instituições públicas. Este aparato físico e humano se faz acompanhar da distribuição de alimentos e refeições, livros e materiais didáticos, de serviços de transporte escolar e do acesso aos meios digitais de aprendizagem e à internet para alunos da rede pública da educação básica".

O estudo foi apresentado pelo presidente do Instituto, Marcio Pochmann, durante a abertura do seminário "Financiamento da educação pública no Plano Nacional de Educação (2011-2020)", que ocorre hoje em Brasília.

BULLYING - ORIGEM EM CASA


Pesquisa liga bullying à relação com os pais. Estudo da Unisinos mostra que conduta no ambiente escolar está vinculado ao tratamento no lar. FRANCISCO AMORIM, ZERO HORA 14/12/2011

Ao investigar o bullying na pré-adolescência, pesquisadoras da Unisinos descobriram uma relação entre a violência no ambiente escolar e o comportamento dos pais. O estudo apontou que há mais chances de uma criança ou adolescente ser vítima ou agressora quando seus pais são autoritários, punitivos ou distantes dos filhos.

Apesquisa foi feita com 221 crianças e adolescentes entre nove e 14 anos, estudantes de duas escolas da rede municipal de ensino de Novo Hamburgo, ao longo deste ano. Conforme a doutora em Psicologia Carolina Lisboa, orientadora do estudo apresentado na dissertação de mestrado da psicóloga Bruna Land, a investigação acadêmica revelou que a forma com que os pais educam seus filhos em casa tem relação com o envolvimento das crianças em casos de bullying.

– Adaptamos dois tipos de questionários que nos permitiram avaliar como os alunos viam seus colegas, pois o autorretrato é sempre mais difícil. Depois, qual era a percepção dessas crianças em relação aos seus pais – explica Carolina, à frente de um grupo de pesquisa sobre o tema, na Unisinos.

Defendida no dia 25 outubro, a dissertação aponta que crianças que percebem seus pais como pessoas não autoritárias, que negociam e têm bom diálogo com filhos, mostraram-se mais sociáveis do que as crianças que percebem seus pais com estilo negativo. E mais: crianças cujos pais não são autoritários tampouco permissivos são aquelas que têm menos chances de serem vítimas de bullying.

Pesquisa revelou meninas mais agressivas

A pesquisadora alerta poder se tratar de uma via dupla de causa e consequência. Ou seja, por não terem problemas com bullying, as crianças trazem menos problemas para casa. O que as leva a ter um mais comportamento tranquilo em relação à autoridade dos pais.

– A partir dessa pesquisa, pode-se promover ações contra o bullying que levem em consideração esses aspectos familiares – pontua a pesquisadora da Unisinos.

Para Carolina, a pesquisa ainda traz um dado surpreendente: médias mais altas de agressividade nas meninas do que nos meninos.

Conforme a pesquisadora, no entanto, não foi possível aferir se as meninas estão mais agressivas (em relação ao diagnóstico feito em outros estudos) ou se as técnicas usadas na pesquisa foram mais sensíveis às formas sutis de violência (indiretas) que são, em geral, atribuídas a meninas, como fofocas e intrigas.

– Os estudos nacionais e internacionais sempre evidenciavam os meninos como mais agressivos – comenta ela.

A pesquisa ainda revela que as meninas entrevistadas apresentaram uma tendência maior de se isolar do que os meninos. Segundo Carolina, não há teorias ou outros estudos que sinalizem os motivos. As meninas podem ser mais tímidas ou mais excluídas dos grupos.

– Pode-se pensar que por questões culturais, as meninas possam se sentir com menos liberdade de expressão. Ou então este dado pode ser explicado pela fase da vida (pré-adolescência) na qual é natural certo retraimento, por vezes até saudável – avalia ela.


Conclusões do estudo

O agressor - Percebem seus pais como pessoas autoritárias, que não dão atenção ou carinho e que as punem fisicamente. O fato da criança ser agressora também pode influenciar no comportamento dos pais que, sentindo-se impotentes, afastam-se. Outra conclusão é que crianças agressivas têm maior chance de se tornar vítimas de bullying em outra oportunidade.

A vítima - Negligência dos pais é a percepção mais forte das crianças vítimas de bullying, mas também há vítimas que percebem os pais como agressores. As demais conclusões são semelhantes às obtidas sobre crianças agressoras: ao perceberem o filho como vítima, os pais podem se afastar. A vítima de hoje também pode se tornar a agressora de amanhã.

O sociável - Um relacionamento saudável com os pais se reflete no ambiente escolar. Crianças que percebem seus pais como pessoas não autoritárias mostraram-se mais sociáveis com os colegas.

As crianças que não veem os pais como muito autoritários nem muito permissivos são aquelas que têm menos chances de serem vitimizadas.

Menina x Meninos - As meninas mostraram médias mais altas de agressividade do que os meninos. Frente ao bullying, as meninas apresentaram maior tendência a um comportamento de isolamento do que os meninos.

O estudo. Veja como funcionou a pesquisa da Unisinos:

- A pesquisa, realizada em duas escolas de Novo Hamburgo, fez parte da dissertação de mestrado da psicóloga Bruna Land.

- As 221 crianças e adolescentes entre nove e 14 anos foram entrevistadas sobre os seus colegas. Quem eles consideravam agressores ou vítimas de bullying, e também quem se relacionava bem com a turma.

- A partir dos tipos identificados, essas crianças responderam a um questionário sobre o comportamento dos seus pais.

- O cruzamento destas informações mostrou que há relação entre o ambiente familiar e o escolar. As pesquisadores ressaltam, no entanto, que o segundo também pode influenciar o primeiro, no sentido de que as crianças levam seus problemas para casa.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

MANOBRAS COM A EDUCAÇÃO


EDITORIAL ZERO HORA 12/12/2011

Repete-se no Congresso, agora com a educação, o que ocorreu na última semana com a saúde pública. Os parlamentares debatem, sob pressão de entidades de defesa do ensino público, o Plano Nacional de Educação, que definirá quanto o país investirá na área a partir do próximo ano. A intenção de elevar para o equivalente a 7% do Produto Interno Bruto (PIB) os recursos para a aprendizagem, defendida pelo governo, ou de 8%, pretendida pelo relator da proposta na Câmara, eleva significativamente o atual percentual, estimado em 5,7%. Só haverá ensino de qualidade, porém, se além das verbas necessárias, o setor contar com um projeto coerente e com metas claramente definidas num horizonte de médio e longo prazos.

Mais uma vez, como ocorreu no caso da saúde, debate-se a falta de clareza na destinação dos recursos. O projeto em discussão inclui entre as despesas verbas para entidades privadas, bolsas de estudo e até mesmo contribuições sociais de aposentadoria de trabalhadores da área. É mais uma versão dos truques contábeis, condenados pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação, entidade que articula a mobilização em defesa dos recursos.

Se governo e congressistas são capazes de estimular ou se omitir diante de manobras orçamentárias que envolvem a educação, é possível esperar comportamento adequado em relação a outras questões? Certamente, não, o que reforça a importância de um olhar atento e permanente por parte de instituições da área de ensino.

Entidades representativas da sociedade precisam continuar atentas à necessidade de fiscalização e de discussão do Plano Nacional de Educação. Não se pode permitir que se perpetuem na educação os mesmos erros de manipulação de recursos cometidos com a saúde pública.

ENTREVISTA. “O professor pode dar mais atenção aos alunos atrasados”. Jane Squires, uma das autoras do método de avaliação ASQ-3

Convidada pelo Planalto para apresentar no Brasil seu método de avaliação da primeira infância a educadores e agentes públicos, a professora da Universidade do Oregon (EUA) Jane Squires ouviu críticas dos especialistas brasileiros. A americana conversou com Zero Hora sobre a polêmica em torno de sua técnica.

Zero Hora – Como funciona seu método de avaliação?

Jane Squires – O método observa a criança e a cultura em que ela está inserida. Em uma sala de aula, por exemplo, é possível identificar as crianças que não conseguem recortar e escrever no mesmo ritmo dos colegas. Com esse mapa, o professor pode dar mais atenção aos alunos mais atrasados. Também podemos adaptar o currículo escolar para que as crianças exercitem suas deficiências.

ZH – Qual a vantagem da ferramenta?

Jane – É uma técnica naturalista. Você analisa a criança em seu ambiente, em meio às atividades do dia a dia. Você a avalia dentro do seu contexto, sem tirá-la da zona de conforto.

ZH – É viável adaptar esse método à realidade educacional brasileira?

Jane – Claro. Já adaptamos esse instrumento em vários países. Só é preciso conduzir o processo com cuidado e com muita reflexão. No Brasil, haverá um estudo para verificar como irá funcionar, qual deve ser o ponto de partida e quais são seus resultados para uma determinada população.

ZH – Como a senhora encara as críticas contra seu instrumento de avaliação?

Jane – É uma questão política em que, felizmente, não preciso me envolver. As discussões são boas, pois a utilização desse método deve ser feita com bastante consideração e cuidado.

ENTREVISTA. “Não dá para generalizar a evolução da primeira infância”. Carmem Maria Craidy, professora de Educação Infantil da UFRGS

Especialista em Educação Infantil, a professora da UFRGS Carmem Maria Craidy é cética sobre os supostos benefícios do método americano de avaliação da primeira infância. Para ela, os testes propostos pelo governo federal podem ser altamente prejudiciais para as crianças. A seguir, a síntese da entrevista:

Zero Hora – A aplicação desta técnica pode ajudar no desenvolvimento infantil?

Carmem Maria Craidy – O fundamento desta proposta de testar crianças está totalmente superado pelas teorias contemporâneas de desenvolvimento infantil. Essa visão já era criticada lá na década de 1950 e, atualmente, não é mais considerada com seriedade. Uma criança pode se desenvolver mais durante uma fase da vida e menos em outra. Não dá para generalizar a evolução da primeira infância.

ZH – Há risco de prejuízos à primeira infância?

Carmem – Sem dúvida. Essa técnica traz o risco da estigmatização. Os testes serão aplicados por pessoas sem nenhuma qualificação técnica. Além do mais, se a criança não apresenta um desempenho idêntico aos resultados do questionário, ela já é considerada problemática. Esses diagnósticos podem gerar preconceito, levando a criança a ser discriminada.

ZH – Somente o meio acadêmico tem restrições a esse método?

Carmem – Não vi ninguém do MEC no encontro que discutiu o tema com a autora do ASQ-3. Na mesma reunião, o Ministério da Saúde afirmou que recém está tomando conhecimento da ferramenta. Se os ministérios da Educação e da Saúde não estão alinhados com essa metodologia, me pergunto: de quem é essa proposta? Por que os órgãos responsáveis pela educação no país não estão envolvidos?

sábado, 10 de dezembro de 2011

A FAÍCA DO RADICALISMO


EDITORIAL ZERO HORA 10/12/2011


A decisão de um grupo de representantes do Cpers de queimar na rua cartilhas elaboradas pela Secretaria de Educação (SEC) destinadas a esclarecer mudanças pretendidas no Ensino Médio resultou, na prática, numa inaceitável aula de intolerância protagonizada justamente por parte de quem deveria dar bons exemplos. A iniciativa só pode ser vista com estupefação, mesmo partindo de um sindicato que não hesitou em deflagrar uma greve inconveniente e destinada ao fracasso, na reta final do ano letivo. De alguma forma, esse tipo de radicalismo guarda algum paralelo com outra intenção equivocada: a pretensão de vereadores do PSOL de alterar a denominação para Avenida da Legalidade da atual Castelo Branco, buscando retirar dessa importante via pública qualquer vínculo com regimes de exceção.

No que diz respeito à mudança de denominação de logradouro, as consequências são menos graves. Mesmo na hipótese de a troca vir a ser aprovada pela Câmara, a alteração dificilmente teria qualquer impacto no cotidiano da população, que resiste em aceitar imposições desse tipo. Mas a sociedade tem razões de sobra para questionar se a tentativa é realmente uma questão prioritária para quem vive ou transita numa capital com tantos problemas, como é o caso de Porto Alegre.

O que impressiona no caso da fogueira de material impresso é o fato de a iniciativa partir justamente de quem tem a missão de formar crianças e jovens. O desafio inclui a transmissão de conhecimento, mas também o exercício corriqueiro de ensinar o enfrentamento de debates polêmicos, como é o caso das pretendidas mudanças no ensino, com a contraposição de argumentos, não com atitudes marcadas pelo radicalismo.

Queimar impressos e tentar apagar a história lembram atitudes totalitárias pretéritas, incompatíveis com a democracia. Não é esse, certamente, o tipo de atitude que se espera ver ensinado, dentro e fora da sala de aula, a cidadãos em fase de aprendizagem.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A BANDEIRA DA EDUCAÇÃO

Ensino superior privado, desigualdade e homicídios. Luiz Flávio Gomes. Revista Consultor Jurídico, 24 de novembro de 2011


O Censo da Educação Superior 2010 divulgou recentemente o aumento significativo no número de matrículas em cursos de graduação de 2001 a 2010, uma expressiva taxa de crescimento de 110,1%.

Este aumento deveu-se principalmente às matrículas em universidades privadas, já que enquanto seu crescimento entre 2001 e 2010 foi de 126%, o percentual para as instituições públicas, durante a mesma década, foi de 74% (evolução calculada pelo Instituto de Pesquisa e Cultura Luiz Flavio Gomes – IPC-LFG).

Se analisarmos o número de matrículas isoladamente para cada ano, temos que em 2001 o ensino superior privado detinha 68,9% do total das matrículas (ou seja, 2.091.529); já em 2010, com 4.736.001 matrículas, representou 74,2%. Em contrapartida, o ensino superior público, que registrava 944.584 de matrículas em 2001 (representando 31,1%), passou a 1.643.298, em 2010, um percentual de 25,8% do total.

O ensino privado é ainda o principal responsável pelo aumento no número de matrículas no país, seja pela maior facilidade de acesso quando comparado às universidades públicas, seja pela difusão dos cursos a distância que representaram 14,6% do total de matrículas em 2010.

Se existe uma bandeira que deveria merecer a mobilização de toda população nacional, ela reside na área da educação. Uma melhor educação contribui ativamente para a diminuição da violência (diferentemente do que pensa a maioria da população entrevistada no CNI-IBOPE 2011, que a coloca em 5º lugar nesta contribuição), combate a alienação, a manipulação e o conformismo. Diminui os conflitos litigiosos desnecessários e favorece o crescimento do país.

Quanto mais se investe em educação menos desigualdade existe. E quanto menos desigualdade menos homicídios (como demonstraremos num estudo que estamos preparando, com base em números da ONU). Com mais educação o Brasil não teria sido, em 2009, o campeão mundial em assassinatos (intencionais), totalizando 51 mil mortes



Luiz Flávio Gomes é doutor em Direito penal pela Universidade Complutense de Madri e mestre em Direito Penal pela USP. Foi Promotor de Justiça (1980 a 1983), juiz de Direito (1983 a 1998) e advogado (1999 a 2001). É autor do Blog do Professor Luiz Flávio Gomes.

*Com a colaboração de Mariana Cury Bunduky, advogada e pesquisadora do Instituto de Pesquisa e Cultura Luiz Flávio Gomes

GARANTINDO O FUTURO DO RS

RICARDO FELIZZOLA, EMPRESÁRIO, PRESIDENTE DO CONSELHO DIRETOR DO PGQP - ZERO HORA 09/12/2011

ORio Grande do Sul vive um momento importante: as contas públicas são um desafio permanente, a competição e as oportunidades batem à porta e o Brasil se desenvolve a passos largos em outras regiões. Que futuro está reservado para nós, gaúchos? Como estaremos daqui a 20 anos?

Uma grande oportunidade no mundo moderno é saber competir. E poder ganhar! Está ganhando quem é capaz de inovar, de usar o conhecimento para criar mais valor em seus produtos, seus serviços e nos processos de produção. Esses povos estão ficando ricos. A base para o conhecimento é o capital humano, em outras palavras, o cidadão educado. Os coreanos nos ensinam repetindo: “... ao fim da guerra, tínhamos somente nossas pessoas...”. Hoje, eles são um país rico, desenvolvido. Tudo baseado na educação, no processo de ensinar seu povo. Lá, as famílias têm paixão pela educação dos filhos, pois sabem que é ela que vai determinar o futuro de todos.

O maior responsável pela educação dos gaúchos é o Estado. Para isto, conta com uma das maiores organizações aqui existentes, que é Secretaria de Educação. Ali, a escola é planejada e através dela o ensino chega à criança. O agente é o professor, nobre cidadão funcionário do Estado. Lamentavelmente, há o desentendimento continuado entre a organização e os professores e para discutir isto, que é um problema do presente, fruto de um passado de pouca solução, compromete-se o futuro de todos nós através de greves.

Está comprovado que o dia perdido por uma criança sem nada aprender nunca mais pode ser recuperado... Cada hora de aprendizado perdida é definitiva e compromete o futuro daquele cidadão e o de nossa sociedade. Enquanto paramos, nossos competidores em outros países continuam, cada vez aprendendo mais, melhorando continuamente.

Assim sendo, precisamos entender que a discussão do investimento obrigatório e prioritário na educação não pode ser pautada pela simples necessidade corporativa, que quase sempre passa a ser a prioridade de curto prazo e compromete a discussão estratégica do assunto. Nossas crianças merecem muito mais. Nós, gaúchos, merecemos muito mais! Ninguém é dono da educação. Devemos ser todos comprometidos com ela. É questão de sobrevivência.

O processo público de educação precisa de melhor gestão e de liderança inconteste. Precisa atingir metas para os problemas de capacitação dos docentes, no seu reconhecimento e remuneração. Atingir metas para o aproveitamento dos alunos, para o controle da evasão e para o uso dos recursos aplicados na formação completa de cidadãos de futuro.

A agenda 2020 aponta alguns caminhos há algum tempo para a discussão estratégica. As lideranças corporativas, sempre convidadas a participar, nunca foram capazes de se apresentar. O mundo sabe que o professor é muito mais do que um nobre trabalhador, ele tem de ser reconhecido como mestre e não precisa de ações violentas para buscar seus interesses. Os professores são heróis em toda parte onde se entende de competição, inovação e conhecimento. Assim devem ser no Brasil e em nossa terra.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

INSEGURANÇA - COLÉGIO DE CANOAS ADOTA IDENTIFICAÇÃO POR DIGITAIS



SEGURANÇA NA PONTA DO DEDO. Além de barrar acesso de estranhos, mecanismo comunicará pais de faltas e atrasos dos estudantes - MARCELO GONZATTO, zero hora 08/12/2011

A partir de hoje, estudantes de um colégio particular de Canoas, na Região Metropolitana, vão usar o dedo para entrar na escola. A implantação de um sistema biométrico de identificação, que libera catracas de acesso ao reconhecer a impressão digital, ilustra o avanço da tecnologia de segurança nos colégios privados e a preocupação de pais e diretores com o fantasma da violência.

OColégio Espírito Santo, localizado no bairro Nossa Senhora das Graças, vai colocar em teste o sistema composto por quatro catracas com leitores ópticos conectadas. Quando um dos mais de mil alunos repousar o polegar sobre o leitor, o mecanismo vai varrer um banco de dados informatizado para conferir se uma marca idêntica está cadastrada. Só então a catraca é liberada.

Conforme a diretora, irmã Maria Sônia Müller, a medida atende a um anseio dos pais por maior segurança e controle de acesso. A tecnologia deverá servir ainda para propósitos pedagógicos. Quando um aluno acumular atrasos ou faltas, verificados pelo porteiro digital, automaticamente será disparado um e-mail para os pais. Para a mãe de dois alunos Salete Dequi Malabarba, 50 anos, o controle tecnológico é um alívio a mais:

– A gente sempre tem medo de que entre alguém que não deve. Isso nos dá uma tranquilidade maior.

A escola conta ainda com 36 câmeras de vídeo que registram a movimentação em corredores, pátio e até em metade das salas de aula – o que também ajuda a inibir brigas ou atos de vandalismo.

Pedagoga e mestre em Educação, Denise Arina Francisco recomenda bom senso no uso destas ferramentas de vigilância.

– A criança e o adolescente precisam aprender a ter um comportamento adequado, mas não só porque estão sendo monitorados. É importante deixar claro que é um compromisso ético e moral – sustenta.

Como funciona

- Nos últimos meses, professores e alunos cadastraram no sistema informatizado as suas impressões digitais;

- Para entrar na escola, o polegar será colocado sobre o leitor óptico instalado em cada catraca;

- O leitor identificará a impressão digital e irá compará-la com aquelas cadastradas previamente no banco de dados digital;

- Se a impressão digital for reconhecida, a catraca será automaticamente liberada. Se não for encontrada equivalente no sistema, a entrada permanecerá bloqueada;

- O sistema vale para alunos e funcionários da escola. Os pais devem se apresentar à recepção;

- Além do equipamento, a escola vai manter um funcionário controlando a movimentação de alunos, pais e visitantes;

- Acúmulos de atrasos ou faltas serão detectados pelo sistema, que poderá enviar e-mails aos pais alertando para o problema.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A POLITÉCNICA COMO POÇÃO MÁGICA

JORGE BARCELOS, DOUTORANDO EM EDUCAÇÃO/UFRGS - ZERO HORA 30/11/2011

Gosto muito do Jose Clovis. Sua história está inscrita na DS: como na história de Asterix, que habita o último reduto não ocupado pelos romanos na Gália, Jose Clovis habita o último reduto petista não entregue ao jogo da política tradicional. Para resistir aos romanos, na história de Goscinny e Uderzo, os aldeões contavam com uma poção mágica preparada pelo druida Panoramix. Só Obelix não precisa da poção, já que caiu no caldeirão dela quando era criança. A poção mágica de Jose Clovis se chama politecnia. A proposta de Ensino Médio politécnico é, na realidade, o sonho de todo militante de esquerda: ela é o outro nome da educação socialista, educação crítica do sistema capitalista inspirada nos estudos de Marx, Engels e Lênin incorporados ao pensamento educacional brasileiro de esquerda através do GT Trabalho e Educação da Anped e o termo dominante do pensamento dos educadores durante a década de 90.

Precisamos de uma educação de esquerda? É claro que sim, urgentemente. A proposta de Jose Clovis é boa, mas ainda tem a avançar neste sentido. Primeiro, a SEC precisa mostrar capacidade de organização dos debates; segundo, precisa manter a posição de abertura, porque é uma construção coletiva, e, terceiro, precisa enfrentar a contradição de base do projeto: como efetivar uma proposta educacional socialista no interior do capitalismo? Socialista, a grosso modo, porque a proposta quer “desenvolver consciências críticas capazes de compreender a nova realidade” ao mesmo tempo em que quer “atender às demandas do mundo do trabalho para a educação”. É aí que mostra sua fragilidade. Ela coloca a educação “no espaço de lutas sociais pela emancipação do ser humano” (p. 18), mas como fazer isso no interior do capitalismo, justamente o regime no qual a educação é vista como um “custo morto” (Kurz) e em que, quanto maior a oferta de mão de obra qualificada, maior a desvalorização da força de trabalho?

A questão é fornecer ao aluno os instrumentos que lhe permitam construir coletivamente um projeto de mudança social – e é isso, justamente, o que não está em questão, já que a proposta prevê no Anexo 3 que a implantação de novos cursos atenderá aos critérios dos Arranjos Produtivos Locais (APL), numa palavra, as empresas das regiões. Quer dizer, a proposta de politecnia é um avanço frente ao taylorismo, mas é um avanço relativo, já que subentende que o monopólio do poder sobre as condições de trabalho permanece com o Capital. Para ser uma proposta radical, desejo que bate oculto no coração da DS, seu foco deve voltar-se não para o imediatismo do mercado de trabalho, mas para o desenvolvimento das potencialidades libertárias pelo trabalho contra a exploração do capital.

Isso não significa negar a possibilidade da educação socialista ou da proposta apresentada, ao contrário. Acontece com a proposta da SEC algo semelhante à publicidade: uma parte da proposta atinge o alvo, mas não se sabe qual é. A politecnia pode ser uma boa poção mágica, mas ela só funcionará se for como a poção de Asterix, radical na sua forma e capaz de transformar os alunos em seres indestrutíveis frente às forças do capital. Aliás, melhor seria se os alunos caíssem de inteiro no caldeirão de suas ideias. Mas isto é outra história.

O DESAFIO DO ENSINO MÉDIO

JOSÉ CLOVIS DE AZEVEDO, SECRETÁRIO DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DO RS - ZERO HORA 30/11/2011

O Ensino Médio concentra os problemas mais graves da Educação Básica. Desde os anos 1930 que a então denominada educação secundária foi dividida em ensino propedêutico, formação geral voltada ao prosseguimento dos estudos, e educação técnica, com afunilamento profissional. Estabeleceu-se, na prática, o chamado sistema dual. O ensino profissional para os alunos das classes menos favorecidas, e o ensino das letras e das ciências para os socialmente bem situados. Em 1971, a Lei 5.692 tentou quebrar essa dualidade, implantando compulsoriamente o ensino profissionalizante para todos. O caráter impositivo da medida e a ausência de condições materiais e intelectuais para a sua implantação determinaram seu insucesso. Desde então, o Ensino Médio perdeu a sua identidade, com resultados danosos para a juventude.

O diagnóstico desse nível de ensino revela-nos um quadro insustentável, com resultados que agridem a ética e os padrões mínimos de qualidade que se esperam de uma atividade pública financiada pelo esforço do conjunto da sociedade. Temos hoje na rede pública do Estado um índice de reprovação e abandono que reproduz a situação nacional, superior a 30%. Ou seja, de cada mil alunos que ingressam, 300 são reprovados ou abandonam a escola. Significa que, dos aproximadamente R$ 2 bilhões que o Estado investe a cada ano no Ensino Médio, um terço perde-se no “ralo” do abandono e da reprovação. Mas mais grave que a perda material é a perda humana – os milhares de jovens que veem frustrados os sonhos de conquista de uma vida melhor pela educação.

Em tempo, o Conselho Nacional de Educação emitiu as novas diretrizes para o Ensino Médio, que irá orientar-se pelos eixos – Trabalho, Ciência, Cultura e Tecnologia – que deverão estruturar o currículo em quatro áreas: Linguagens e suas tecnologias; Ciências Humanas e suas tecnologias; Ciências da Natureza e suas tecnologias e Matemática e suas tecnologias. Seguindo estas diretrizes, o governo do Estado colocou em discussão, desde setembro, uma ampla reforma curricular propondo um Ensino Médio que dialogue com o mundo do trabalho, embora não profissionalizante, e o Ensino Médio profissionalizante, com a educação profissional integrada à educação geral. Esta proposta será implantada em três anos, oportunizando o amplo debate com comunidades escolares, entidades educacionais e, sobretudo, com o protagonismo dos educadores. O nosso objetivo é superar a desmotivação da nossa juventude e resgatar a identidade deste nível de ensino, possibilitando a formação de cidadãos globais humanizados e tecnicamente competentes.

domingo, 27 de novembro de 2011

A REFORMA DO ENSINO MÉDIO

DANILO GANDIN, PROFESSOR, ESCRITOR E CONFERENCISTA - ZERO HORA 27/11/2011

O 4º Congresso Internacional de Inovação, realizado na Fiergs nos dias 16 e 17 de novembro, começou com um painel chamado “Educação: Novos Fluxos de Conhecimento”. Durante toda a manhã, falaram seis excelentes painelistas: dois pesquisadores da educação, uma da Alemanha e outro dos Estados Unidos, o criador da Escola da Ponte, de Portugal, o presidente do Instituto Alfa e Beto, o diretor regional da Abimaq e a representante da Secretaria de Educação do RS.

Todos convergiram em duas direções fundamentais: a primeira sobre a necessidade de mudanças profundas nas escolas, para acompanhar as exigências feitas pelas realidades atuais; a segunda sobre as principais características dessas mudanças.

Nesta segunda linha de reflexão, há uma concordância entre o que eles disseram e aquilo a que chegam os estudos mundiais e brasileiros desde a década de 70. Tomo como paradigma, porque representam muitas outras propostas, as conclusões da conferência mundial sobre Ensino Superior da Unesco, especialmente dirigidas ao século 21 e publicadas em As Demandas do Mundo do Trabalho, de Ulrich Teichler, Centro para a Pesquisa sobre Ensino Superior da Universidade de Kassel, Alemanha.

Embora essas conclusões refiram-se ao Ensino Superior, elas concordam com tudo que os teóricos pensam para o Ensino Médio. Lembro-me de uma reunião entre empresários gaúchos e o então Departamento de Educação Média da SEC/RS, nos primeiros anos da década de 70, em que os empresários disseram aos educadores: “Ensinem filosofia, o resto da profissionalização nós fazemos”.

São como 10 mandamentos que reproduzo a seguir. Seja flexível, isto é, não se especialize demais. Invista na criatividade, não só no conhecimento. Aprenda a lidar com incertezas (o mundo está assim). Prepare-se para estudar durante toda a vida. Tenha habilidades sociais e capacidade de expressão. Saiba trabalhar em grupo, bons empregos exigem isto. Esteja pronto para assumir responsabilidades. Busque ser empreendedor, talvez você crie seu emprego. Entenda as diferenças culturais (o trabalho se globalizou). Adquira intimidade com novas tecnologias, como a internet.

O Ensino Médio nunca teve uma identidade própria; sempre representou um hiato entre o Ensino Fundamental e o Ensino Superior, suportando os “conhecimentos” formalizados do vestibular. Julgo serem estes 10 mandamentos um referencial suficiente para dar-lhe uma direção. Uma proposta deste tipo será, também, uma vacina contra a ideia de profissionalização universal no Ensino Médio; sabemos que isto aprofundaria a diferença entre escolas para ricos e escolas para pobres. Uma proposta assim também evitará o erro da década de 70; vivemos uma situação parecida, com um crescimento econômico importante, com a consequente falta de mão de obra especializada. Não é hora de fazer do Ensino Médio o lugar da profissionalização, mas de ter escolas técnicas, não muitas, mas de qualidade, de dar a todos um ensino transdisciplinar (não interdisciplinar), de retomar a vocação dos cursos mais rápidos do Senac, Senai, Senar... e de abrir facilidades para que empresas ofereçam cursos de preparação de profissionais, com rapidez e com destino já determinado.

ZEROHORA.COM. Você concorda que o Ensino Médio não deve ser profissionalizado?

NÃO HÁ GREVE, DIZ GOVERNADOR TARSO

Tarso diz que não há greve de professores no Estado. Segundo governador, houve apenas faltas ao serviço - CORREIO DO POVO, 26/11/2011 19:27

O governador do Estado Tarso Genro falou, na tarde deste sábado, sobre a paralisação dos professores da rede pública de ensino estadual, que teve início após assembleia convocada pelo Cpers na semana passada. “Nossa avaliação é de que não teve greve, teve algumas faltas ao serviço. Isso não nos tira o respeito pelo movimento, mas greve não houve”, disse, durante lançamento da nova corrente do PT, em evento no Cais do Porto, na Capital.

Tarso não quis comentar se os servidores serão chamados para conversar. "Não há nenhuma discussão interna. Recebemos o pedido do Cpers para uma audiência e estamos analisando.”

Acampados em frente ao Palácio Piratini, os grevistas pressionam por uma reunião com a Casa Civil. Na última quinta-feira, eles ratificaram a decisão de paralisar as atividades. No dia seguinte, Tarso sinalizou que poderia receber representantes do Cpers se essa fosse uma exigência para as negociações do fim da paralisação do Magistério. A Secretaria da Educação calcula que cerca de 5% dos servidores aderiram à greve.

Gratificações na Secretaria da Fazenda

Sobre o Projeto de Lei encaminhado em regime de urgência à Assembleia Legislativa e que garante aumento nas gratificações de servidores da Secretaria da Fazenda, Tarso disse que há uma determinação do próprio Ministério Público sobre o tema. “Estamos renovando os salários. Eles (servidores da Fazenda) tiveram um aumento salarial real de 6%, não chega a um terço do que demos para os soldados. O Ministério Público tinha nos comunicado que a gratificação tal qual estava sendo paga não podia continuar”, afirmou.

O projeto incorpora 45% das gratificações aos salários básicos. A partir de 2013, o impacto financeiro para o reajuste, que vai beneficiar mais de três mil servidores da Fazenda, chegará próximo dos R$ 90 milhões.

Nova corrente do PT

A nova tendência política no PT, Socialismo XXI, nasce como a segunda maior do partido no Estado. O grupo é encabeçado pelo prefeito de Canoas, Jairo Jorge, e apoia a pré-candidatura do presidente da Assembleia Legislativa, Adão Villaverde, à prefeitura da Capital.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

BM APOIA CAMPANHA CONTRA BULLYING

Coronel Mello (C) recebeu convite do TF Teen de Ana, Angélica e Canal - CORREIO DO POVO, 23/11/2011

Para disseminar a importância da boa convivência entre os jovens e combater o bullying, ocorrerá sábado o 1 Encontro TF Teen: Todos Juntos contra o Bullying, às 14h30min, na Câmara Municipal. O vereador Waldir Canal (PRB), um dos apoiadores do evento, acompanhado da coordenadora do TF Teen, Angélica Guedes, e da coordenadora auxiliar da Escola Bíblica Infantil de Porto Alegre, Ana Oliveira, convidou o chefe do Estado Maior da Brigada Militar, coronel Valmor Araújo de Mello, que destacou a importância da realização de campanhas socioeducativas e deu apoio ao evento. "A Brigada também tem desenvolvido projetos de prevenção ao bullying e às drogas nas escolas, como o Proerd", salientou.

Angélica explicou que o evento buscará discutir o bullying nas escolas, em clubes e no convívio social. Em reconhecimento ao trabalho com adolescentes, Canal entregará uma homenagem do Legislativo ao projeto TF Teen, que conta com mais de 800 jovens em Porto Alegre.

A RECEITA CATARINENSE

Como SC paga o piso ao magistério. Após greve, mudança no plano de carreira permitiu que governo do Estado vizinho pagasse os R$ 1.187 a professores desde julho - MARCELO GONZATTO, zero hora, 23/11/2011

Os professores catarinenses conquistaram, este ano, o piso salarial pelo qual o magistério gaúcho faz greve. Para garanti-lo, porém, aceitaram o que os colegas gaúchos recusam e o próprio governo descarta fazer: mudanças no plano de carreira. O exemplo do Estado ajuda a ilustrar os desafios para o cumprimento da meta. Agravados, no caso rio-grandense, por uma grande diferença entre os níveis salariais e uma proporção de inativos que supera a de educadores em atividade.

Assim como o Cpers, o sindicato de Santa Catarina deflagrou greve para forçar a concessão do piso nacional. Ainda que o Estado vizinho tenha uma situação estrutural mais favorável, foram feitos ajustes de impacto para alcançar o piso de R$ 1.187, em julho. A principal medida foi reduzir a diferença entre os vencimentos mais altos (de quem tem nível superior) e os mais baixos (nível médio), a fim de evitar que o reajuste aumentasse muito os salários mais elevados. Uma diferença de 64% foi reduzida para 16%, conforme o secretário-adjunto da Educação em Santa Catarina, Eduardo Deschamps:

– Se não fizéssemos isso, todo o orçamento para a educação seria destinado ao pagamento de pessoal.

Foi estabelecida uma trégua entre governo e o sindicato, que aceitou a mudança como solução temporária. Um grupo de trabalho estuda, agora, como aumentar novamente a diferença entre os salários. Porém, o secretário gaúcho da Educação, Jose Clovis de Azevedo, afirma que o Piratini não cogita diminuir a diferença de 85% no plano de carreira.

– A diferença é justa. Um professor com 35 anos de trabalho, nível superior, com todas as promoções, se aposenta com R$ 3,7 mil. Se mexer, rebaixaria o salário – sustenta.

Inativos e cálculo do reajuste dificultam pagamento no RS

Para a ex-secretária da Educação Mariza Abreu, essa diferença torna difícil para o Rio Grande do Sul atingir o piso – mesmo até 2014. Um dos motivos é a fórmula atual de cálculo dos reajustes do vencimento mínimo nacional, que leva em conta a variação anual do valor do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) correspondente a cada aluno das séries iniciais do Ensino Fundamental.

– Como o número de alunos nessa faixa etária é cada vez menor, o valor do Fundeb por aluno aumenta muito todos os anos. Isso resulta em um índice de reajuste do piso nacional superior à inflação – argumenta Mariza.

Outro complicador é a proporção de inativos, que superam em 2 mil o número de educadores na ativa – o que leva a SEC a aplicar 87% de sua verba em pessoal. Em Santa Catarina, mesmo depois da aplicação do piso, esse índice fica em 65%. Por isso, apenas o Rio Grande do Sul e outros cinco Estados ainda não pagam os R$ 1.187 exigidos em lei – Bahia, Goiás, Minas Gerais, Pará e Rondônia.

– Onde há um número maior de professores, naturalmente há uma dificuldade maior. Mas é preciso fazer um esforço para pagar bem os educadores – afirma o sociólogo do movimento Todos Pela Educação Cesar Callegari.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

IMPUNIDADE - COM HISTÓRICO AGRESSIVO, ALUNO ESFAQUEIA COLEGA

Estudante fere colega a facadas em Passo Fundo. Adolescente de 13 anos justificou a agressão como reação a constantes investidas de bullying do colega de 14 anos - Marielise Ferreira - ZERO HORA 22/11/2011

Um estudante de 13 anos feriu um colega de 14 anos na manhã desta terça-feira em Passo Fundo, no norte do Estado. Depois de ser detido pela Brigada Militar, o jovem justificou a agressão como reação a constantes investidas de bullying sofridas ao longo do ano. Ele levou uma faca para a escola e atingiu o colega nas costas, na orelha e no pescoço.

Pouco antes do início das aulas na manhã desta terça-feira, os dois alunos da Escola Municipal Arno Otto Kiel, no loteamento Primeiro Centenário, se enfrentaram. O aluno mais velho, que estuda no 8º ano do Ensino Fundamental, foi atingido por golpes de faca. Alunos e professores interferiram na briga, para que cessassem as agressões.

O estudante foi socorrido por policiais militares e está internado no Hospital São Vicente de Paulo, mas não corre risco de morte. Levado para a Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), o aluno de 13 anos que cursa o 6º ano na mesma escola contou, em depoimento, que era perseguido na escola após as aulas pelo colega e que não suportava mais as agressões. Por isso, teria decidido se vingar. Conforme a direção da escola, os dois alunos haviam brigado alguns dias atrás.

O adolescente foi apreendido e vai responder por tentativa de homicídio, pois declarou à polícia que tinha intenção de matar o colega. O caso será investigado pela Delegacia de Proteção a Criança e ao Adolescente.


Agressão em Passo Fundo. Aluno que esfaqueou colega já havia sido afastado da escola por comportamento agressivo. Adolescente foi suspenso por dois dias após agressões verbais e ameaças no mês passado - Guilherme Mergen, ZERO HORA ONLINE, 22/11/2011 | 18h34

O estudante de 13 anos que feriu um colega a facadas nesta terça-feira em Passo Fundo, no Norte do Estado, já havia sido afastado da Escola Municipal Arno Otto Kiel por causa do comportamento agressivo. No mês passado, após agressões verbais e ameaças, o colégio aplicou uma suspensão de dois dias ao aluno. A informação é da diretora do estabelecimento de ensino, professora Deonice da Silva Gomes.

A agressão ocorreu no início da manhã, antes do início das aulas. Usando uma máscara, o estudante atingiu o colega de 14 anos com facadas nas costas a cerca de uma quadra da escola, no loteamento Primeiro Centenário. A vítima está internada em um hospital do município em estado regular, sem risco de morrer.

De acordo com a educadora, desde que entrou no colégio, entre maio e junho deste ano, o adolescente era agressivo com colegas e professores em sala de aula. Em várias ocasiões, a direção acionou a família do estudante por problemas.

— Ele tem dificuldade de relacionamento, com comportamento agressivo e atitudes dissimuladas. Seguidamente, chamávamos a mãe dele para colocarmos os fatos, explicar o que vinha ocorrendo — explica.

Mesmo com o histórico de ameaças, a diretora disse estar surpresa com o desfecho. Em 20 anos de trabalho no colégio — quatro deles no comando —, a diretora nunca enfrentou situação semelhante.

— Estamos apavorados com o que aconteceu. Eu nunca tinha presenciado nada assim, nem com fatos parecidos, com agressões físicas — afirma Deonice.

"Serviço incompleto"

Em conversa com a diretora da escola, enquanto aguardava a chegada da Brigada Militar, o estudante revelou que sua intenção era realmente matar o colega. Disse que queria agredir a vítima no pescoço, e não nas costas.

— Ele deu a facada mascarado, fez a volta na quadra e entrou na escola. Não negou e nem tentou fugir. Pelo contrário, falou que ainda não tinha completado o serviço.

Na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), o aluno do 6° ano do Ensino Fundamental disse que a atitude foi uma vingança ao bullying sofrido no colégio. Ele disse ser perseguido após as aulas pelo colega. À direção, colegas contaram que os dois haviam brigado há alguns dias.

O adolescente foi apreendido e vai responder por tentativa de homicídio — porque declarou à polícia que tinha intenção de matar o colega. O caso será investigado pela Delegacia de Proteção a Criança e ao Adolescente de Passo Fundo.

Correria e desespero

Com 420 alunos, a escola viveu um dia atípico. A agressão pouco antes do início das aulas fez os pais entrarem em contato com o colégio em busca de informações sobre os filhos. Alguns preferiram buscá-los imediatamente após a notícia ser divulgada por rádios locais.

O clima era "tenso", segundo a diretora. Em meio a correria, o estabelecimento optou por liberar os estudantes.

— Liberamos porque não tínhamos como fazer diferente. Os pais ouviram pelo rádio e ligavam pra escola pra ver como estão os filhos, outros vinham buscar — conta Deonice.

À tarde, as aulas transcorreram normalmente.

MAIS EDUCAÇÃO, MENOS BUROCRACIA


RECEITA PARA O BRASIL. Estrangeiros destacam modelo adotado pela Arábia Saudita, que passou da 156ª para a 10ª posição em ambiente de negócios - ERIK FARINA, 22/11/2011

Nem China, nem EUA. O modelo de competitividade desenvolvido pela Arábia Saudita atraiu os holofotes no primeiro dia da 2ª Reunião Anual da Federação Global de Conselhos de Competitividade (GFCC, na sigla em inglês), que prossegue hoje no Hotel Plaza São Rafael, em Porto Alegre, com a participação de autoridades e executivos de 14 países.

Promovido desde 2006, o chamado Programa 10 x 10 reuniu os empresários sauditas com os organismos governamentais ligados à economia e ao desenvolvimento para estudar formas de melhorar o ambiente interno de negócios. Tomando como parâmetro modelos eficientes ao redor do mundo, a Arábia Saudita criou uma série de mecanismos para facilitar a atividade empresarial, reduzindo a burocracia e estimulando a agregação de valor aos produtos.

– Foi um programa ambicioso. Avaliamos o que as 10 nações de melhor desempenho competitivo faziam em cada área – explicou o príncipe Saud K. Al-Faisal, presidente do Centro de Competitividade da Arábia Saudita.

Em três anos, o país saltou da 156ª posição na lista das nações com melhor ambiente de negócios, na avaliação do Banco Mundial, para o 10º lugar. De acordo com Al-Faisal, o programa ajudou seu país a ampliar a pauta de produção para além do petróleo.

Facilitar a atuação empresarial é elementar para buscar desenvolvimento econômico e social em um mercado de alta competitividade, avaliou Deborah L. Wince-Smith, presidente da GFCC. Para a especialista, o Brasil ainda vive uma situação que os Estados Unidos conseguiram superar há algumas décadas, de excesso de regulamentos públicos.

– O Brasil precisa fazer as contas para ver o que custa a sua burocracia e de suas empresas – afirmou Deborah.

Reconhecido calcanhar de aquiles para o desenvolvimento econômico brasileiro, educação e qualificação de mão de obra precisam seguir modelos bem sucedidos internacionalmente, apontaram especialistas. Na opinião de Tae-Shin Kwon, presidente do Conselho de Competitividade da Coreia do Sul, o Brasil tem um futuro brilhante e pode se beneficiar caso absorva parte do trabalho desenvolvido por sua nação na formação de pessoas.

– Na Coreia do Sul, não temos petróleo e nem diamantes. Então, colocamos nossos esforços em qualificar e motivar as pessoas – explica.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

PROFESSORES PARADOS - GREVE ENFRENTARÁ PAIS E ALUNOS

Estudantes do Ensino Médio e entidade de pais prometem fazer campanha para esvaziar paralisação do Magistério no Estado - MARCELO GONZATTO, zero hora 21/11/2011

Além de enfrentar o governo estadual, tradicional adversário em períodos de greve, a partir de hoje o Cpers dará início a uma paralisação em que medirá forças contra dois outros oponentes. Associações de pais e de alunos do Ensino Médio, que já apoiaram mobilizações anteriores do magistério, desta vez se insurgem contra a ameaça ao término do ano letivo e fazem pressão pública para que as escolas continuem funcionando. Hoje e amanhã, representantes dos grevistas vão visitar colégios em todo o Estado em busca de apoio para o movimento.

Reunidos na tarde de sábado em Canoas, alunos vinculados à União Gaúcha dos Estudantes Secundaristas (Uges) decidiram romper uma tradicional parceria com o sindicato de trabalhadores na educação. Durante o seu 56º Congresso Estadual, realizado na Escola Estadual de Ensino Médio Bento Gonçalves, em Canoas, os participantes votaram pela aprovação de um documento contrário à paralisação dos educadores.

O texto produzido pelos alunos diz que “é preciso combater o sectarismo e a falta de diálogo presentes no processo conduzido por um segmento dos professores e construir uma ampla e massiva jornada de mobilização, agregando estudantes, professores e o conjunto dos movimentos sociais pela valorização da educação e a garantia do piso nacional”.

Essa posição contraria o apoio dado às últimas duas greves do magistério, que também ocorreram em finais de ano, durante o governo Yeda. Segundo o presidente da Uges, Thalisson Silva, a mudança de postura não tem razão partidária.

– Nas últimas greves, nos manifestamos favoráveis porque se buscava solução para um problema grave de falta de diálogo. É bastante diferente do que está acontecendo agora, em que houve um rompimento por parte dos professores – sustenta.

A 1ª vice-presidente do Cpers, Neida de Oliveira, afirma que o sindicato “respeita a posição de todas as entidades”. Mas observa:

– Essas entidades já há algum tempo estão muito afastadas do debate da escola pública, com os alunos e os professores.

Federação quer estudantes nas escolas

Os estudantes secundaristas prometem fazer apelos nos próximos dias pelo encerramento da paralisação e pela volta da negociação com o Piratini. Para isso, também vão procurar apoio político com deputados estaduais na Assembleia.

Os pais de alunos, da mesma forma, adotaram uma posição incisiva contra a decisão da assembleia do Cpers e pretendem fazer campanha para esvaziar o movimento.

O presidente da Federação das Associações e Círculos de Pais e Mestres do Rio Grande do Sul (ACPM-Federação), Robison Minuzzi, mostrou-se claramente contrariado com a ameaça aos planos de férias das famílias e à participação nos vestibulares de verão.

Na greve anterior, a entidade já havia manifestado preocupação com os possíveis prejuízos para os estudantes. Agora, porém, o desconforto aumentou de tom.

– Não concordamos com a greve neste momento e recomendamos que os pais levem os filhos às escolas para mostrar a força dos pais, que jamais foram consultados – observou Minuzzi, quando os professores deflagraram o movimento.

Nova assembleia do Cpers será realizada na quinta-feira

O Cpers deverá realizar uma nova assembleia na quinta-feira, diante do Palácio Piratini, para definir os rumos da mobilização. A definição da pauta da assembleia, porém, segundo a direção do Cpers dependerá de alguma eventual manifestação do governo em relação às reivindicações da categoria. Enquanto isso não ocorre, a partir de hoje professores deverão permanecer em vigília diante da sede do governo a fim de reforçar a pressão sobre Tarso.

– Ainda é cedo para sabermos que tipo de decisão vamos tomar na próxima assembleia. Precisamos aguardar o governo, que até agora (ontem) não nos enviou qualquer tipo de manifestação – afirma a 1ª vice-presidente do Cpers, Neida de Oliveira.

Além das manifestações diante do Piratini, representantes dos grevistas deverão percorrer escolas de todo o Estado para tentar convencer mais colegas a cruzar os braços e explicar as razões da paralisação a pais e alunos.

– Sabemos que a greve ocorre em um momento difícil, mas tinha de sair agora em razão dos ataques preparados pelo governo do Estado à educação pública no Estado – sustenta a sindicalista.

Ela se refere às propostas de reforma no ensino alinhavadas pela Secretaria Estadual da Educação. A SEC afirma que os projetos não deverão ser retirados de pauta, e têm como objetivo melhorar a educação no Estado.

Depois de decretada a greve do magistério, o secretário estadual da Educação, Jose Clovis de Azevedo, reafirmou que o governo não tem a intenção, até o momento, de reverter as mudanças no sistema de ensino planejadas para entrarem em prática já no próximo ano. Uma delas – e um dos alvos preferenciais do Cpers – é aproximar o Ensino Médio do mercado de trabalho.

– O Ensino Médio desperta pouco interesse entre os jovens. Não prepara adequadamente para o vestibular nem para a profissionalização. Temos quase 40% de abandono e reprovação – argumenta o titular da pasta.

Azevedo afirma ainda que a paralisação deflagrada pelo magistério não tem condição de forçar o pagamento imediato do piso nacional de R$ 1.187 pela falta de condições financeiras por parte do Piratini.

Segundo os cálculos das secretarias da Educação e da Fazenda, implantar o novo patamar salarial imediatamente exigiria uma disponibilidade de caixa de R$ 1,6 bilhão para serem aplicados em 2012 – o que representaria um acréscimo de 38% sobre a folha atual de R$ 4,2 bilhões da Educação.


domingo, 20 de novembro de 2011

POR QUE O PROFESSOR GANHA MENOS QUE EXECUTIVO?


Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial- O ESTADO DE SÃO PAULO, 19 de novembro de 2011 | 3h 08

As críticas ao capitalismo aumentaram muito nos últimos meses. Movimentos de protesto, como o "Occupy Wall Street", expressam indignação com os excessos dos banqueiros, que, segundo os manifestantes, são os principais culpados pela atual crise econômica - mas, aparentemente, não estão sendo responsabilizados.

Crescente número de vozes, de várias esferas da sociedade, está demonstrando a sua solidariedade às atividades contra o capitalismo, um reflexo da frustração generalizada dos cidadãos. E por boas razões: porque até agora foi o contribuinte - o cidadão médio - que teve de pagar pela crise econômica e pelas dívidas nos Estados Unidos e na Europa. Aumento do desemprego, mais impostos e cortes nos sistemas de bem-estar e de saúde nos trouxeram à beira de uma crise social.

Sem dúvida, esses protestos contra o capitalismo conseguiram captar a essência dos nossos tempos. Mas não basta simplesmente condená-lo por seus inegáveis excessos. Precisamos fazer uma análise mais profunda do sistema capitalista e por que, em sua atual forma, ele não se encaixa mais no mundo ao nosso redor.

Quando a crise começou, em janeiro de 2009, durante minha palestra de abertura em Davos, eu disse: "Hoje, as pessoas ao redor do mundo estão me perguntando como foi possível tomar decisões - baseadas em ganância ou incompetência e sem nenhuma fiscalização efetiva - que tiveram consequências terríveis, não somente para a economia global, mas também para pessoas reais, que perderam suas aposentadorias, suas casas e seus empregos. Essas pessoas estão desnorteadas, confusas e com medo e raiva".

Naquela época, o mundo esperava que a crise fosse produzir uma reavaliação básica do comportamento de executivos de alto escalão no mundo dos negócios, em especial no setor de serviços financeiros. Depois de praticamente três anos, ainda não aprendemos com os erros do passado. O sistema que nos levou até essa crise é obsoleto, e não é de hoje. A crise não será superada no longo prazo se continuarmos renegando a necessidade de revisar o sistema. O capitalismo precisa ser reformulado, por três motivos:

O capitalismo é desequilibrado. O uso do capital virtual para especular aumentou muito e de maneira desproporcional comparado com o capital real, e está fora de controle. Precisamos de transações financeiras para equilibrar os riscos, mas não transações especulando sobre a própria especulação.

O sistema original capitalista apresentava uma divisão clara: entre o empreendedor, que suportava o risco do investimento, cuja recompensa é o lucro; e o executivo, cuja tarefa profissional é garantir o futuro da empresa no longo prazo e proteger os interesses de todas as partes interessadas. Com um sistema de bônus excessivo, o executivo alia-se aos interesses dos proprietários do capital, desvirtuando o sistema. Este é o problema fundamental da situação hoje: os salários excessivos corroeram a ética empresarial dos executivos.

O capital deixou de ser um fator decisivo para a produção, na atual economia global. Ideias inovadoras ou serviços intangíveis estão ocupando o espaço das vantagens competitivas, reduzindo a importância do capital. Além disso, com padrões de vida em ascensão, o foco geral está mudando de quantidade para qualidade. O sucesso econômico, no futuro, não será mais decidido pelo capital, mas pelo "talento" como fator de produção. Então, nesse sentido, estamos migrando do capitalismo para o "talentismo".

As demonstrações que estão ocorrendo ao redor do mundo são perigosas quando usadas como meio de iniciar uma guerra entre as classes sociais. Precisamos de novos impulsos que nos levem a reavaliar a situação e implementar as ações corretivas necessárias para remediar o sistema. Devemos converter o capitalismo de volta a uma economia de mercado social. Como o passado demonstrou claramente, outros sistemas econômicos, como o socialismo doutrinário, não oferecem alternativas viáveis. Ponto-chave de uma tal reforma precisa ser a redução dos excessos de produtos financeiros e da participação de executivos nos lucros.

Acima de tudo, o trabalho do executivo deve voltar a ser um posto profissional. Algumas empresas justificam o pagamento de salários e prêmios estratosféricos pelo fato de o talento ser frequentemente o principal fator de sucesso. Porém o talento não é importante apenas na profissão do executivo, mas em qualquer emprego.

Por que um professor excelente deveria ganhar menos que um executivo? Por que um cirurgião reconhecido mundialmente deveria ganhar menos que o CEO de uma empresa global?

Num mundo ideal, todos devem ganhar de acordo com sua responsabilidade e seu desempenho. A maior motivação profissional deve ser a vocação - não somente o desejo de lucrar. Medidas para diferenciar executivos de pessoas que correm riscos também devem reprimir transações financeiras em que os lucros beneficiem apenas os indivíduos envolvidos, enquanto os riscos são coletivos e o contribuinte acaba pagando a conta quando tudo der errado.

Outro princípio orientador importante na reforma do nosso sistema econômico é o conceito de partes interessadas, que defini pela primeira vez há mais de 40 anos. O conceito de partes interessadas assume que a empresa é uma comunidade social de muitas partes diferentes - ou seja, diferentes grupos sociais que estão ligados direta ou indiretamente pela empresa. O objetivo de uma liderança responsável é garantir o sucesso no longo prazo e a viabilidade da companhia e, assim, atender a todos os intervenientes, não somente aos interesses de curto prazo dos acionistas.

Em suma, precisamos avançar do capitalismo excessivo para uma economia de mercado em que a responsabilidade e as obrigações sociais não sejam palavras vazias.

POR UMA EDUCAÇÃO POLÍTICA

JULIANA SALBEGO, PROFESSORA DO CURSO DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAMPA – CAMPUS SÃO BORJA - ZERO HORA 20/11/2011

– Não sei o que estou fazendo aqui! – disse uma aluna da disciplina de marketing político, no semestre passado, acerca de seu desagrado quanto ao tema da política tratado em aula naquele dia. – Achas que o tema não tem nada a ver com a tua vida? – perguntei, na esperança de que repensasse tal afirmação. – Isso mesmo, professora! Não tem nada a ver comigo! – respondeu.

Inúmeras situações como essa fazem com que surjam questionamentos, não apenas na condição de docente, mas também como cidadã, sobre a crescente desvalorização que assola a política atual- mente. Talvez tal desinteresse tenha origem na incompreensão, ou na compreensão um tanto quanto restrita, do que pode significar a práxis “política”.

A política à qual me refiro não está apenas ligada às atividades dos governantes de nossas cidades, Estados e/ou nação, conforme comumente se pensa. Refiro-me, de outra maneira, à política que surge a partir da atividade social desenvolvida pelos homens da chamada pólis – a cidade-Estado grega, tida como o cimento ou a união da vida social. Ali, a política se referia à atividade cotidiana de discussão exercida pelos cidadãos sobre os problemas daquela sociedade, fossem eles, ou não, parte do governo. A partir desta acepção, o político é todo aquele sujeito que enxerga, discute e busca soluções para as questões sociais.

Quase que em oposição a esta perspectiva, vigora a ideia, no mínimo equivocada, de que a atividade política é exclusivamente da responsabilidade de vereadores, prefeitos, deputados e demais cargos representativos. Outrossim, prevalece a perspectiva de que a atividade política dos demais “cidadãos” se resume ao voto para a eleição destes cargos. Tal discernimento nos leva à renúncia também do direito, mas, especialmente, do dever de participação nas discussões dos problemas sociais e acompanhamento do trabalho desenvolvido pelos nossos representantes eleitos.

Somos todos políticos. Todo e qualquer sujeito atribui às suas atitudes cotidianas um significado político quando suas lutas pessoais e de grupo assumem um sentido coletivo. É importante salientar que, antes de repudiarmos o termo “política”, faz-se necessária uma compreensão mais ampla sobre o seu significado em nossas vidas. Ela se constitui em uma dimensão inseparável do cotidiano e sua negação é um ato, senão de desprezo, de ignorância.

Grande parte do sistema político institucional de nosso país configura-se em uma luta pela ocupação e condução dos cargos do Estado, ou seja, uma infindável disputa pelo poder, em detrimento da preocupação com as necessidades sociais. Assevera Leo Maar que a atividade política passa a se deslocar das “coisas públicas” – da República – para a própria instituição em que se realiza, ou seja, o governo. Desta forma, a política institucionaliza-se em uma esfera autônoma, que passa a ser paralela às atividades sociais. É preciso lutar contra esta tendência.

Se a política é uma necessidade imperiosa para a vida humana, como aponta Hannah Arendt, somos todos responsáveis pela sua efetivação. Nesse sentido, é necessário que todos possam ter certeza e reflitam, sejam nossos alunos ou aqueles que depredam o patrimônio público de outras universidades, acerca do que estamos fazendo aqui.


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sábado, 19 de novembro de 2011

MAGISTÉRIO DO RS DEFLAGRE NOVA GREVE A POUCOS DIAS DAS FÉRIAS

A 35 DIAS DAS FÉRIAS. Magistério deflagra nova greve. Decisão foi acertada ontem em assembleia na Capital e lança preocupações sobre o futuro do ano letivo na rede estadual - MARCELO GONZATTO, ZERO HORA 19/11/2011

A 35 dias do final do ano letivo, o magistério estadual deflagrou pela terceira vez seguida uma greve às vésperas das férias de verão. Em uma assembleia com presença modesta de professores, no ginásio Gigantinho, em Porto Alegre, a decisão de cruzar os braços lança dúvidas e preocupação a famílias de 1,1 milhão de alunos em relação à programação das férias e à participação em concursos vestibulares. A Secretaria Estadual da Educação (SEC), porém, orienta os pais a mandarem os filhos para o colégio na segunda-feira.

No final da tarde, a estudante de Direito Caroline Kherrmann, 22 anos, dirigia-se até uma escola pública do bairro Menino Deus para buscar a filha Maria Eduarda, seis anos, quando topou com a caminhada dos professores em direção ao Palácio Piratini depois da votação pela paralisação por tempo indeterminado.

– Quando vi a movimentação, fiquei preocupada – conta.

Ao chegar no colégio, já não sabia se a viagem marcada para depois do Natal rumo a Balneário Camboriú (SC) vai mesmo sair. Todos os anos, a família ruma para o Estado vizinho a fim de aproveitar o período de descanso junto ao mar na casa de uma irmã. A mobilização do magistério, porém, colocou em suspense a programação.

– Vamos ter de ver o que vai acontecer – lamenta a mãe.

Quem está prestes a deixar o colégio e tentar o vestibular, como a aluna do 3º ano do Ensino Médio Sheila Loureiro da Rosa, 21 anos, também tem dúvidas sobre como terminará o ano. Sheila apoia a decisão dos professores, mas acredita que a adesão ao movimento será parcial.

– Na minha escola, a direção é contrária à greve. Alguns professores vão continuar dando aula – avalia.

A exemplo de Sheila, 75 mil estudantes da rede estadual cursam o último ano do Ensino Médio e deverão comprovar, na segunda-feira, o grau de adesão da categoria à convocação. O secretário estadual da Educação, Jose Clovis de Azevedo, diz acreditar que “uma grande parcela” dos professores optará por continuar suas atividades nas escolas.

– Não há nenhuma possibilidade de o Cpers ter êxito com esta paralisação. O governo não vai pagar o piso em 2011, porque não tem dinheiro para pagar – afirmou.

Círculo de pais recomenda levar os alunos à escola

O secretário também determinou que os dias parados devem ser registrados no ponto e descontados do salário dos grevistas. Para a presidente do Cpers, Rejane de Oliveira, os professores têm razões suficientes para cruzar os braços e enfrentar o governo:

– O que estão em jogo é a história de luta do sindicato, o piso nacional e nosso plano de carreira – sustentou.

A categoria exige que o governo pague o piso nacional, estabelecido em R$ 1.187, e retire da pauta propostas de alterações no sistema de promoções da categoria, na avaliação do magistério e de reforma do Ensino Médio. O piso estadual para 40 horas está em torno de R$ 800.

A SEC e o presidente da Federação das Associações e Círculos de Pais e Mestres do RS, Robison Minuzzi, afirmam que os pais devem encaminhar os filhos para os colégios.

– Não concordamos com o período da greve. Como não fomos consultados, agora é a hora de mostrar a força dos pais – afirma Minuzzi.

Possíveis prejuízos

PLANOS DE FÉRIAS - Os dias sem aula deverão ser recuperados após o fim da greve, o que deve prolongar o ano letivo para o prazo inicialmente previsto de 23 de dezembro e comprometer férias das famílias.

VESTIBULAR - Para a federação que reúne pais de alunos da escola pública, a greve às vésperas do vestibular compromete o ritmo de estudo, e a qualidade das aulas recuperadas não é a mesma. Outro possível problema, é a falta do certificado de conclusão do Ensino Médio para matrícula na universidade.

COMO LIDAR COM A GREVE - A SEC orienta os pais a mandarem os filhos para as escolas. Veja algumas dicas para reduzir transtornos:

- Antes de cancelar em definitivo planos de viagem, verifique qual será a adesão da greve na escola do seu filho;

- Antes de deixar o filho na escola, veja se ela está em condições de receber o aluno – principalmente no caso de crianças pequenas;

- Pais que trabalham, por precaução, devem procurar uma alternativa para deixar os filhos, caso a escola paralise.

GREVE DOCENTE É DESAFIO PARA O GOVERNO DO RS

EDITORIAL CORREIO DO POVO, 19/11/2011

Os professores da rede pública de ensino decretaram greve a partir desta segunda-feira. Entre suas reivindicações estão o pagamento do piso salarial unificado, reavaliação da implantação de políticas com fundamentos na meritocracia, não alteração de pontos considerados fundamentais no plano de carreira e interrupção de mudanças anunciadas no ensino médio. A categoria reuniu-se em assembleia em Porto Alegre nesta sexta-feira.

A definição pela paralisação das atividades docentes transformou o final de ano numa incógnita. Muitos alunos já estavam se preparando para prestar vestibular e só ingressarão nas universidades se estiverem com o certificado de conclusão do terceiro ano em mãos. Também o final de ano das famílias fica em aberto, além de implicar reestruturação para o período de veraneio, o que acaba acarretando apreensão para todos os que dependem do veraneio no Litoral, seja para tirar férias, seja para amealhar uma renda já esperada, como fazem hotéis e restaurantes.

De sua parte, os professores estão reivindicando um direito que já lhes foi integralmente ratificado pelo Supremo Tribunal Federal, que considerou constitucional a norma votada pelo Congresso. Todos sabemos que os mestres, dentre os profissionais de nível superior, são os mais mal remunerados, implicando, com isso, atrasos no crescimento econômico do país pela repercussão que tem na formação técnica dos brasileiros a baixa qualidade do ensino, que não vive só de salários, mas também de condições dignas de trabalho e de tecnologia e equipamentos modernos.

O desafio do governo estadual agora é o de abrir diálogo com a categoria em greve para que se possa chegar a um denominador comum, pois a população assim espera. Despesa com salários de professores não é despesa, mas investimento, pois sem este profissional em sala de aula não existe aprendizado nem desenvolvimento.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O PISO E A GREVE


EDITORIAL ZERO HORA 18/11/2011


Um confronto que se repete com frequência no Estado põe em risco mais uma vez, num final de ano, a situação de milhares de estudantes de escolas públicas. Os professores da rede estadual decidem nesta sexta-feira se paralisam atividades, na tentativa de receber o piso nacional do magistério. Não há como ignorar as demandas salariais do magistério, até porque a defasagem nos vencimentos vem se acumulando há décadas. Exatamente por isso é de se perguntar se o recurso da greve terá o poder de contribuir para a solução do impasse com o governo.

O piso nacional de R$ 1.187 foi aprovado há mais de três anos envolto em controvérsias, porque a categoria exige sua imediata aplicação e os Estados argumentam com a incapacidade financeira. Tanto que 17 das 27 unidades da federação não pagam o mínimo estabelecido, entre as quais o Rio Grande do Sul. O governo gaúcho já assumiu o compromisso de pagar o piso até o final do mandato do senhor Tarso Genro. O Cpers insiste que o pagamento já deveria estar sendo feito e articula a paralisação.

É um impasse de difícil solução, pois nenhum governo conseguiu corresponder às justas expectativas do magistério. O Estado enfrenta dificuldades de caixa, que podem fazer com que o ano seja fechado com um déficit de R$ 400 milhões. Previsões indicam que a diferença entre despesas e receitas corre o risco de triplicar em 2012, em boa parte devido a compromissos salariais que o governo está assumindo com os servidores. Ontem, o governador afirmou que R$ 400 milhões foram reservados pelo Estado para reajustes de salários dos professores no ano que vem e criticou uma provável paralisação.

O Cpers, por sua vez, insiste que os salários são parte das questões em debate e repetiu, por seus dirigentes, que a categoria chegou à exaustão. Um dos desfechos desse desencontro é previsível. Uma paralisação no fim de ano desestrutura o ensino, abala planejamentos e, principalmente, adia o projeto e os sonhos dos estudantes que esperam se formar e enfrentar o vestibular. Assim é que não se sabe ao certo quem ganharia com uma greve, mas são identificáveis, por antecipação, os maiores perdedores.

LAÇOS QUE SE ROMPEM

PÁGINA 10 | ROSANE DE OLIVEIRA, ZERO HORA, 18/11/2011

Pelas relações que o PT cultivou ao longo dos últimos anos com o Cpers, ninguém no governo esperava que o sindicato encaminhasse os professores para uma greve às vésperas do final do ano letivo e que tratasse o governador Tarso Genro da forma como tratou seus antecessores. A imagem do governador Tarso Genro com nariz de Pinóquio é tão forte quanto as alegorias usadas pelo Cpers para fustigar os governadores Germano Rigotto e Yeda Crusius.

Se a greve for aprovada na assembleia geral de hoje à tarde, o desgaste para o governo será inevitável. Isso explica os últimos movimentos do Palácio Piratini, tentando virar o jogo desenhado nos núcleos do Cpers, que, majoritariamente, aprovaram o indicativo de greve. O primeiro ato do governo foi anunciar, em um documento assinado pelos deputados da base aliada, um acréscimo de R$ 100 milhões aos R$ 400 milhões já previstos na proposta de orçamento do ano que vem, para reajustar os salários dos professores e se aproximar do cumprimento da lei do piso, prometida para 2014.

O magistério não quer esperar até 2014, quando o governo promete integralizar o cumprimento da lei. Hoje, para adotar o piso como salário básico dos professores são necessários R$ 1,5 bilhão por ano nos gastos com a folha de pagamento. Até 2014, a conta será maior, porque o piso nacional tem reajuste anual para manter o poder de compra da época em que foi criado.

Na mesma carta em que se comprometeram a aumentar o valor destinado aos salários dos professores, os deputados manifestaram apoio às ações desenvolvidas pelo governo na área da educação e divulgaram uma lista das políticas adotadas pelo governo Tarso. A greve foi criticada por deputados aliados e pelo governador, que contestou os argumentos usados pelo Cpers e apelou para que os professores desistam da greve já engatilhada. No dia anterior, o secretário Jose Clovis Azevedo, que sempre cultivou boas relações com o Cpers, já havia advertido que a greve seria interpretada como um rompimento com o governo.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

TRABALHO NO FUTURO


Governo e especialistas divergem sobre educação. Representante estadual do ensino ressalta, em evento, obstáculos na adesão às exigências do mercado - ZERO HORA 17/11/2011

Enquanto especialistas e empresários pedem mudanças na formação escolar para atender às necessidades da economia do conhecimento, a Secretaria da Educação do Estado indicou que não vai conduzir as alterações na educação por esse caminho. O debate ocorreu ontem durante o painel Educação: Novos Fluxos de Conhecimento, realizado na abertura do Congresso Internacional da Inovação, em Porto Alegre.

No impasse de qual é a educação necessária para sustentar crescimento econômico em cerca de 5% ao ano, Mathias Elter, diretor regional da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, enfatizou que a indústria é o principal cliente do sistema educacional.

– Precisamos agregar valor ao nosso produto, e isso não se consegue sem pessoas qualificadas no sistema educacional forte – alertou Elter.

O governo do Estado já vem discutindo mudanças no Ensino Médio, que direcionem a formação de estudantes também para o mercado e não só a formação clássica para o Ensino Superior. Mas Nancy Cardoso Pereira, assessora técnica da Secretaria de Educação que representou o secretário José Clóvis de Azevedo no evento, destacou que o governo enxerga obstáculos na adesão às exigências do mercado para formar profissionais pelo ensino público.

– Não vamos formar os jovens para responder à demanda do mercado de trabalho atual, porque as demandas mudam – justificou Nancy.

Pesquisadora alemã defende novo modelo na sala de aula

A fala vai na contramão da opinião de outros painelistas. Hanna Dumont, pesquisadora alemã do Centro de Ciências da Educação e Psicologia da Universidade de Tübingen, destacou que, em uma sociedade que tem o conhecimento como força central, é preciso desenvolver a habilidade de pensamento. E isso passa necessariamente por um novo modelo de ensino, que abandone a fórmula do professor como transmissor da informação, defendeu.

– Precisamos aprender como aprender – explicou Hanna.

Para Ricardo Felizzola, fundador e presidente do conselho de administração da Altus, a indústria está mudando e os desafios econômicos são outros.

– Necessitamos fazer melhor o que estamos fazendo e saber também as tendências mundiais. Precisamos de inovação na própria educação – avaliou Felizzola.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Mais uma prova que este blog está no caminho certo. Ao defendermos uma educação multidisciplinar estamos visando um futuro onde o jovem deve estar preparado e capacitado para evoluir culturalmente e obter a autonomia necessária à sua sobrevivência no mercado de trabalho e às suas relações interpessoais. Por este motivo, o ensino deveria envolver, além do conhecimento científico, conhecimentos técnicos, artísticos e desportivos. Com isto, os professores podem ajudar estes jovens na identificação de habilidades, talentos, vocação e orientação cultural e profissional. Descobrindo a área de seu interesse de acordo com o seu perfil, o jovem tem facilitada a escolha das oportunidades, sem passar pelo estresse, pela desorientação e pelas escolhas erradas.

DESCOMPASSO ESCOLAR

EDITORIAL ZERO HORA 17/11/2011


O alerta da pesquisadora alemã Hanna Dumont no 4º Congresso Internacional de Inovação, na Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), encaixa-se perfeitamente na realidade da economia gaúcha. A pesquisadora argumentou que a educação ministrada nas escolas não está adequada à indústria do conhecimento do século 21, pois tende a reproduzir muito mais a que os pais tiveram e imaginam ser a melhor para seus filhos. Este é justamente um dos aspectos que explicam o fato de muitos segmentos do setor produtivo, como a indústria metalmecânica da serra gaúcha, estarem enfrentando hoje dificuldades para preencher vagas disponíveis por falta de profissionais devidamente capacitados.

Em muitos países, a começar pelos Estados Unidos e incluindo obviamente o Brasil, a deterioração gradativa da qualidade da educação é apontada como uma das razões para dificuldades enfrentadas hoje, em diferentes graus, na área econômica. O problema se deve ao fato de que, cada vez mais, o desenvolvimento é associado à capacidade de inovar. E essa é uma característica que tende a ser facilitada quando a população conquista padrões razoáveis de bem-estar em geral, o que inclui alimentação adequada, atendimento de qualidade na área de saúde e uma educação preocupada não apenas em ensinar a ler, a escrever e a fazer contas, mas sobretudo a pensar.

A questão é que o Brasil e o Estado mudaram de patamar econômico de forma muito acelerada, sem se preocupar em fazer sua educação andar no mesmo ritmo. Outros países basearam sua expansão justamente num ensino de qualidade, preparando crianças e jovens para enfrentarem as exigências que o mercado impõe.

O desafio, agora, é recuperar o atraso nesta área, com investimentos continuados e políticas adequadas, que levem em conta principalmente as facilidades colocadas à disposição pelas novas tecnologias. Sem isso, nem o país, nem o Estado ficarão em condições de avançar numa área essencial para o crescimento, como a inovação.