EDUCAÇÃO EM XEQUE - CARLOS ETCHICHURY E MARCELO GONZATTO, zero hora 04/06/2012
Relatório
do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) aponta que a
proporção das receitas do Rio Grande do Sul destinadas à educação, em
comparação ao que arrecada, foi a menor do Brasil de 2005 a 2010. No
último ano do levantamento, ao lado de Rio Grande do Norte, o
investimento gaúcho chegou a ficar abaixo dos 25%, índice de aplicação
mínimo determinado pela Constituição
O
Rio Grande do Sul é o Estado brasileiro que menos investe em educação
no país em comparação ao que arrecada, conforme indica um levantamento
do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).
Os
gaúchos aplicaram, na média de 2005 a 2010, o menor índice de receitas
próprias no sistema de ensino. Enquanto o governo federal determina a
aplicação de pelo menos 25% desses recursos para educar a população,
descontados gastos com inativos, os rio-grandenses investiram um
percentual médio de 18,79% no período.
O relatório comparativo,
elaborado pelo Sistema de Informações Sobre Orçamentos Públicos em
Educação (Siope) do FNDE, mostra que a proporção das receitas do Rio
Grande do Sul destinadas à educação foi a menor do Brasil em 2007, 2008,
2009 e 2010 – ano em que apenas o Estado e o Rio Grande do Norte
ficaram abaixo do patamar de 25%. Em 2005 e 2006, os gaúchos ficaram na
penúltima posição, à frente apenas do Distrito Federal, que,
posteriormente, quase dobrou o seu índice.
Para especialistas e
trabalhadores da educação, o baixo índice das receitas gaúchas
direcionado para melhorar a aprendizagem tem reflexo negativo na
qualidade das escolas do Rio Grande do Sul.
– Nós temos
diagnosticado vários problemas na educação, como altos índices de
repetência e evasão, o baixo rendimento dos alunos no Ensino
Fundamental, violência nas escolas, e, mesmo assim, não conseguimos
encaminhar soluções consistentes. A educação tem sido relegada ao
segundo plano no Estado – interpreta Helena Sporleder Côrtes, professora
da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul (PUCRS).
Aposentadorias entram na contaPesquisador
e professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS), Juca Gil acredita que, se os gastos com os
inativos e pensionistas fossem transferidos para educação, seria
possível investir em reformas das escolas, aquisição de equipamentos,
contratação de novos professores.
– A gestão dos recursos também é
importante, mas, neste momento, é secundária. No Estado, para se ter
ideia, pais que querem escolas privadas de qualidade para os seus filhos
no Ensino Médio gastam quatro vezes mais que o governo investe por
aluno nas escolas públicas – complementa o pesquisador.
A
diretora do Cpers Neiva Lazzarotto acredita que a escassez de recursos
explica por que o Rio Grande do Sul estaria perdendo posições para
outros Estados, recentemente, na comparação da qualidade de ensino.
–
Nos últimos anos nós lideramos a reprovação no Ensino Médio, temos o
pior piso salarial do país. Estamos ficando para trás nos rankings da
educação. Isso tem relação direta com o baixo investimento – afirma.
O
secretário estadual da Educação, Jose Clovis de Azevedo, reconhece que o
Estado não consegue investir o que seria ideal, mas sustenta que o
percentual acanhado de verbas em comparação ao praticado pelos demais
Estados não é sinônimo de decadência da qualidade de ensino.
– É
preciso que os investimentos sejam dirigidos para a melhoria da
qualidade pedagógica, da capacidade de ensinar dos professores. Também
temos tido aportes importantes do governo federal em áreas físicas, como
bibliotecas, que não são do nosso orçamento – observa Jose Clovis.
A
avaliação sobre se o Rio Grande do Sul cumpre ou não a Constituição –
que determina a aplicação de 25% das receitas em educação – não é
unânime. Ocorre que o Siope, sistema ligado ao Ministério da Educação,
entende que nesse percentual não devem ser computados os gastos com
servidores inativos. Porém, alguns tribunais de contas, como o
rio-grandense, tendem a aceitar a inclusão dos valores aplicados em
aposentadorias e pensões na rubrica “manutenção e desenvolvimento da
educação”.
Dessa forma, embora as contas estaduais sejam
legalmente aprovadas, não atendem aos patamares de investimento mínimos
estabelecidos pelo governo federal.
A questão dos inativos
- O Estado tem 78.537 professores inativos, 900 a mais do que o número de docentes ativos.
- Entre os educadores em atuação, 58.227 são nomeados e 19.410 estão contratados.
- Dos R$ 6,64 bilhões destinados para a educação no Estado, R$ 2,14 bilhões vão para o pagamento de inativos.
Fontes: Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação e Secretaria Estadual da Educação