EDUCAÇÃO MULTIDISCIPLINAR

Defendemos uma política educacional multidisciplinar integrando os conhecimentos científico, artístico, desportivo e técnico-profissional, capaz de identificar habilidade, talento, potencial e vocação. A Educação é uma bússola que orienta o caminho, minimiza dúvidas, reduz preocupações e fortalece a capacidade de conquistar oportunidades e autonomia, exercer cidadania e civismo e propiciar convivência social com qualidade, dignidade e segurança. O sucesso depende da autoridade da direção, do valor dado ao professor, do comprometimento da comunidade escolar e das condições oferecidas pelos gestores.

domingo, 29 de setembro de 2013

O MAIOR PROBLEMA DA EDUCAÇÃO DO BRASIL

REVISTA ISTO É N° Edição: 2289 | 27.Set.13

Metade dos jovens entre 15 e 17 anos não está matriculada no ensino médio. Pesquisa inédita mostra que a proporção dos que abandonaram a escola nessa etapa saltou de 7,2% para 16,2% em 12 anos

João Loes




Não é sempre que apenas uma estatística basta para dar um bom panorama da realidade. O mais comum é que seja preciso esmiuçar diversos números e informações para realmente compreender o que está em jogo. Quem se debruça sobre o ensino médio brasileiro, porém, se depara com uma única estatística que parece sintetizar, de forma clara, a desastrosa situação desta etapa da educação: a taxa de evasão escolar. Uma nova pesquisa da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), com base em informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE, revela que apenas metade dos jovens com idade entre 15 anos e 17 anos está matriculada no ensino médio. Pior: entre 1999 e 2011, a taxa de evasão nesta faixa mais que dobrou, saltando de 7,2% para 16,2%. Ainda que o número absoluto de alunos venha aumentando, segundo o Ministério da Educação, dados de evasão como esses criam um senso de urgência que se sobrepõe a tudo. “Chama a atenção a dificuldade de enfrentamento da crise do ensino médio”, resume o estudo. “A despeito das reformas, os resultados das avaliações nacionais continuam surpreendendo negativamente os responsáveis pela condução da política educacional brasileira”, conclui.


ARREPENDIMENTO
A evasão é grande, mas a maioria pensa em voltar à escola

A evasão, nesse contexto, é menos causa que consequência dessa crise. Ela é a parte visível de um conjunto de problemas conhecidos há décadas, mas sobre os quais nenhum governo tem feito o suficiente. “A crise é inquestionável e não podemos mais adiar o enfrentamento de um problema tão grave”, diz Maria de Salete Silva, coordenadora do programa de educação do Fundo das Nações Unidas para a Infância, no Brasil (Unicef). “O ensino médio é o maior desafio da educação do País.” Currículo inchado, com disciplinas demais para tempo de menos, ausência de um programa de ensino técnico integrado a essa etapa escolar, baixa remuneração dos professores e, fundamentalmente, inadequação do ensino médio à vida, às expectativas e às necessidades dos jovens compõem o retrato das dificuldades. “Esperar cinco anos para agir é condenar uma geração que hoje tem entre 15 e 17 anos a não ter perspectivas de futuro”, resume Maria Salete.

O paulistano Mateus Oliveira, hoje com 19 anos, sabe bem quanto abrir mão da educação nessa fase crucial limita as perspectivas de futuro. Quando tinha 17 anos e cursava pela segunda vez o primeiro ano do ensino médio, ele resolveu largar a escola para tentar a carreira de jogador de futebol. “Era um sonho que já tinha me custado a sétima série, que também repeti”, diz. Confiante no talento com a bola, ele insistiu, mas menos de um ano depois percebeu que o caminho não renderia frutos. Com 18 anos e sem o ensino médio concluído, matriculou-se no programa de educação de jovens e adultos, onde um ano de ensino pode ser cumprido em seis meses, e rumou para a carreira militar. Atrasado, finalmente conseguiu concluir o ensino médio esse ano, mas viu e ainda vê oportunidades lhe escaparem por causa da formação atrasada. “Já era para eu ter concluído o curso técnico que acabei de começar, em informática”, diz. Com a capacitação, ele poderia estar ganhando mais no Exército – onde ainda recebe um salário de base, além de não ter segurança de carreira – ou trabalhando como técnico em informática em uma empresa da área. “Me arrependo das decisões que tomei”, diz.


SONHO FRUSTRADO
Mateus Oliveira, 21 anos, abandonou o ensino médio aos 17 anos
para tentar ser jogador de futebol. Não deu certo e agora ele
quer se tornar técnico em informática

Tratar o caso de Oliveira como o de um garoto perdido que simplesmente preferia jogar bola a estudar é, além de reforçar preconceitos, desperdiçar uma grande oportunidade de entender de onde vem o gigantesco desinteresse do jovem pela escola. Afinal, Oliveira não deixou o estudo só porque o futebol o atraía, mas também porque o colégio não parecia relevante o suficiente para ele. E não são poucas as razões que fazem da escola algo sem importância aos alunos, como mostra a pesquisa do Seade.

O currículo é um dos maiores problemas. Reformado em 1998 e 2012, mas ainda inchado por 13 disciplinas obrigatórias, além de cinco complementares a serem ministradas em conjunto com as demais, ele tem sido considerado excessivamente extenso para os três anos de ensino médio. Recentemente, ganhou força a ideia de dividir as disciplinas em grandes áreas de interesse. Trata-se de uma contribuição vinda do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que surgiu com a única função de avaliar essa etapa educacional, mas que hoje acumula a tarefa de selecionar alunos para universidades federais do País. A proposta é reunir, como acontece no Enem, biologia, física e química sob o guarda-chuva das ciências da natureza; história, geografia, filosofia e sociologia, sob ciências humanas, e assim por diante. “Mas o projeto é de difícil implantação, exige forte interdisciplinariedade, o que não se faz de uma hora para outra”, diz Luis Márcio Barbosa, diretor-geral do Colégio Equipe, em São Paulo.


PROVEDOR
Hudson Silva, 22 anos, saiu da escola para poder trabalhar e ajudar em casa

Além das questões práticas, como o volume de disciplinas e o tempo disponível para cumpri-las, uma preocupação mais subjetiva com o currículo, mas não menos importante, tem ganhado cada vez mais espaço. Trata-se da distância abissal entre o conteúdo das disciplinas apresentado aos jovens e a realidade da vida que eles levam. “A escola continua muito tradicional, engessada diante da vida mutante do adolescente contemporâneo”, afirma o educador Barbosa. A chamada “integração do currículo às tecnologias educacionais”, meta no relatório do Seade, é um dos maiores gargalos. Hoje, segundo pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), 84,4% dos brasileiros com idade entre 15 e 19 anos usam a internet para estudar. Outros 25,9% recorrem a tablets e celulares. ­Enquanto isso, poucas escolas no País fazem uma integração real de conteúdo e tecnologia, embora 73,8% delas já contem com computador e internet. Este descompasso entre expectativas dos alunos e entrega da escola é forte gerador de desinteresse, mas não é o único.

A ausência de uma articulação mais eficiente entre ensino profissional e ensino médio também é tida como uma das razões para a evasão nesta fase. Reconhecer que nem todos, ao completar 18 anos, vão rumar para a universidade e oferecer a alternativa do aprendizado técnico durante o ensino médio pode ser um caminho para manter alunos na escola. Se essa opção estivesse disponível para o paulistano Hudson Laton da Silva, hoje com 21 anos, ele provavelmente teria terminado a educação básica. Morador da Brasilândia, na zona norte de São Paulo, Silva saiu do colégio para se dedicar integralmente ao trabalho quando cursava o primeiro ano do ensino médio. “Tinha que ajudar em casa”, conta. Ele trabalha como mecânico e, se um curso técnico nessa área tivesse sido oferecido na escola onde ele estudava, o jovem teria uma razão a mais para continuar frequentando a instituição. Hoje ele corre atrás do prejuízo. Mesmo empregado – ele é funcionário de uma grande concessionária na capital paulista –, Silva pretende fazer um supletivo e finalmente terminar o ensino médio. “Vou ser sincero: vontade de voltar a estudar eu não tenho, mas sei que é importante, então quero fazer o supletivo”, diz.



Boa parte dos que deixam de estudar pensa como ele e fala em retornar. Segundo dados da pesquisa do Cebrap, 61,8% dos jovens que abandonaram a escola nessa fase querem voltar para concluir o ensino médio, independentemente da razão que motivou a evasão. “Algumas decisões são tomadas de maneira impulsiva porque o adolescente já tem alguma autonomia, mas tem dificuldade para pensar a longo prazo”, diz Maria Cristina Figueiredo, coordenadora do Colégio Brasil Canadá, para quem, na adolescência, tudo é mais interessante que estudar. “Mas eles pensam no que fazem, refletem e costumam se arrepender quando veem que fizeram besteira.” Cabe à escola e aos pais dar subsídios ao aluno para que ele consiga administrar os impulsos da idade. Nem sempre, porém, é possível. A paranaense Andreia Tawlak, hoje com 21 anos, conhece, como poucos, as consequências da entrega às paixões adolescentes.



Dona de um histórico escolar conturbado – ela havia repetido a sétima série e cursava pela segunda vez o primeiro ano do ensino médio –, Andreia surpreendeu a todos quando, aos 17 anos, anunciou que estava de mudança para Balneário Camboriú, em Santa Catarina. Apaixonada pelo primeiro namorado, de 23 anos, ela diz ter sido convencida por ele a largar tudo e acompanhá-lo. “Foi coisa de idiota”, admite, hoje. O relacionamento durou um ano e meio, Andreia teve de retornar para Foz do Iguaçu, onde morava, e hoje está às voltas com um supletivo que não consegue terminar enquanto sonha com cursos de design e um emprego na área. “Os amigos do tempo de escola que continuaram estudando estão todos trabalhando. E eu? O que estou fazendo?”, questiona.

Embora muitos especialistas defendam que, mesmo em casos como o de Andreia, a escola tem responsabilidade por não ter mostrado à aluna a importância de permanecer em sala de aula, há visões contrárias a esta tese. A diretora do Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro-SP), Silvia Barbara, afirma que “jovens adultos” com seus 16, 17 anos devem assumir suas obrigações. “Nas análises dos problemas na educação, a escola e os professores são sempre os mais criticados e pouca ou nenhuma responsabilidade é legada ao adolescente e à família”, diz. Silvia diz ainda que a cruzada em favor de uma escola que privilegie ser agradável aos alunos antes de se preocupar em passar a eles o conhecimento acumulado da humanidade pode ter efeitos nocivos. “Vivemos em uma sociedade que valoriza demais o prazer e criminaliza demais o trabalho. E estudar sempre dará trabalho”, afirma.


FASE
Maria Cristina Figueiredo, coordenadora do Colégio Brasil Canadá:
"Na adolescência, tudo é mais interessante que estudar", diz ela

Quando um jovem abandona a escola, perdem todos. A exclusão pela educação cria um abismo social e inibe o surgimento de um cidadão com uma participação social mais efetiva. Perde também o Brasil. “O País deixa de ter um profissional de nível médio com formação geral e um potencial profissional de nível técnico pós-médio ou de nível superior, com formação específica”, alerta Priscilla Tavares, professora e pesquisadora da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) em São Paulo. “As consequências do abandono no ensino são severas para o crescimento econômico.” Já passou da hora de enfrentarmos esse desafio.







MENOS ALUNOS, MAIS GESTÃO

ZERO HORA  29 de setembro de 2013 | N° 17568

EDITORIAL INTERATIVO


A educação básica brasileira não precisa ficar à espera dos recursos dos royalties do pré-sal para, com reforço das dotações orçamentárias, superar deficiências injustificáveis. O país conta com estudos produzidos dentro e fora do ambiente escolar que apontam para as melhorias possíveis, e todas passam pelo investimento em gestão. Estudiosos dispõem agora de mais um dado como subsídio para a formulação de políticas públicas, representado pela redução constante do número de matrículas no ensino básico. Em dois anos, até 2012, a queda foi de 5,5% e pode chegar a 6,5% em 2013. Mudanças demográficas, efeitos da progressão automática e outras causas ainda sob análise explicam um fenômeno que pode contribuir, se acompanhado de racionalidade administrativa, para que a educação ganhe em qualidade.

Há consenso de que, além do acesso, a escola brasileira precisa assegurar aprendizado efetivo. Mas os ensinos Fundamental e Médio estão longe de acompanhar a evolução da educação de terceiro grau. A desculpa de que faltam recursos consumiu-se na própria repetição como explicação para tanto atraso. Um estudo de técnicos do Tesouro Nacional, divulgado neste ano, estima que pelo menos 40% das verbas destinadas pelas prefeituras à educação são desperdiçadas. O desleixo administrativo e a omissão das estruturas de controle jogam dinheiro fora e, como consequência, acabam por favorecer desvios e corrupção.

O mesmo estudo indica que é possível fazer mais com menos e enumera exemplos de municípios em que a aplicação per capita em educação não está entre as maiores do país, mas os resultados, apontados pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), são satisfatórios. É claro que União, Estados e municípios devem aplicar o mínimo necessário em áreas essenciais e que o governo federal faz bem ao perseguir a meta de destinar 10% do orçamento à educação. Mas é também evidente que as três esferas – e em especial Estados e prefeituras, responsáveis pela rede básica – já poderiam estar fazendo mais com o que dispõem.

A superação da precariedade na educação formal do país passa pela atualização pedagógica e pela valorização dos professores, mas o esforço será incompleto se ignorar o melhor aproveitamento dos recursos orçamentários – um desafio ampliado pela lei que torna obrigatória, a partir de 2016, a matrícula na pré-escola de crianças de até cinco anos. A educação infantil, cujos índices de acesso no Rio Grande do Sul estão entre os piores do país, vai exigir dos prefeitos a racionalização de recursos financeiros e humanos. Se atacarem o desperdício, estarão no caminho do atendimento dessa e de outras demandas ainda negligenciadas.

A surrada desculpa da falta de recursos é uma camuflagem para as deficiências administrativas que degradam a educação básica brasileira.

sábado, 28 de setembro de 2013

OS INACEITÁVEIS

COLUNA NO GLOBO 28.9.2013 |  9h00m

Míriam Leitão


A cada Pnad o Brasil tem um sentimento misto: há avanços a comemorar e velhos atrasos de que se envergonhar. Desta vez, foi pior: o Brasil retrocedeu em alguns pontos. Na educação, o quadro é sempre ruim, mas o país estava melhorando um pouco a cada ano. Agora, houve um aumento do analfabetismo. Havia 300 mil analfabetos a mais no Brasil em 2012 em relação a 2011.

E não é estoque, é fluxo. O Brasil tem um estoque, como dizem os economistas, muito alto de analfabetos. São as pessoas mais velhas que, em décadas anteriores, foram vítimas da pouca preocupação que a educação sempre teve no país. Mas, nos últimos 20 anos, o país fez um esforço de ampliar a escolarização, programa que foi seguido ano após anos. Esse esforço tardio, mas meritório, de universalização da educação do primeiro grau foi muito bem sucedido.

O aumento do percentual e do número absoluto de analfabetos mostra descuido recente. Há analfabetismo em jovens, que foram vítimas de desatenção nos últimos anos. E isso é inaceitável. A taxa de analfabetismo vinha caindo lentamente, mas era ainda uma fonte da nossa vergonha. De 2011 para 2012 aumentou de 12,9 milhões para 13,2 milhões o número absoluto de analfabetos. O analfabetismo no Nordeste aumentou de 16,9% para 17,4%. O aumento de 0,5 ponto percentual no Nordeste foi considerado pelo IBGE como “estatisticamente pouco significativo”. Discordo inteiramente. Qualquer piora no analfabetismo é significativa. Até por razões vegetativas o número tende a melhorar. Se há piora é porque estão entrando jovens no grupo dos analfabetos. No país, como um todo, o aumento foi de 8,6% para 8,7%. Mas esse é um índice em que estamos obrigados a melhorar. A demografia ajuda a reduzir o estoque. Não podemos permitir que o fluxo de analfabetos continue sendo alimentado.

Não foi o único resultado ruim dessa Pnad, mas é o mais escandaloso. Houve um ligeiro aumento da desigualdade. Ela vinha caindo um pouco a cada ano: um fenômeno recente e alvissareiro. Mesmo assim, o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo. Desta vez, a desigualdade parou de cair e começou a subir ligeiramente. Há na área social alguns bons dados para compensar, como a queda do desemprego, aumento da renda, aumento do acesso a bens de consumo duráveis. Há fatos a comemorar. E há as vergonhas de sempre: 42,9% dos domicílios sem esgoto no Brasil. O saneamento continua sendo uma das marcas do nosso atraso.

O trabalho infantil caiu, mas ainda assim o Brasil tem 3,5 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos trabalhando. De 5 a 9 anos há 81 mil crianças trabalhando; de 10 a 13 anos são 473 mil. O número reduziu mas é sempre um espanto que permaneça sendo assim.

Aumentou a desigualdade de salários entre homens e mulheres, outro item em que temos que reduzir o hiato um pouco a cada ano. Só a melhora constante é aceitável. O rendimento médio da mulher saiu de 73,7% do salário do homem para 72,9% em um ano. O normal seria que a redução continuasse até pelo fato de as mulheres terem maior escolaridade e serem maioria no ensino universitário.

A Pnad é apenas um retrato que o país tem a cada ano do seu quadro social e já nos acostumamos com a lista de mazelas e de avanços, mas o que aconteceu nessa Pnad foi grave. O país estagnou em áreas em que estava avançando e piorou onde tudo já está atrasado demais. Os indicadores educacionais têm que melhorar porque são todos muito ruins. É natural que o Brasil melhore nos indicadores sociais; o antinatural, o inaceitável é qualquer retrocesso.

RS VAI MAL NAS ESCOLAS E BEM NO TRABALHO



ZERO HORA 28 de setembro de 2013 | N° 17567

ITAMAR MELO

RETRATO DO RS. Mal nas escolas, bem no trabalho

Pesquisa do IBGE mostra que Rio Grande do Sul tem proporção menor de crianças e adolescentes na escola na comparação com a média nacional



A rotina de estatísticas preocupantes sobre a situação do ensino no Rio Grande do Sul ganhou novo capítulo ontem, com a divulgação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). O levantamento do IBGE, com dados de 2012, mostra que o Estado apresenta proporção de crianças e adolescentes na escola inferior à média do país.

A Pnad vem se somar a uma série de estudos, indicadores e avaliações que, nos últimos anos, diagnosticaram o fraco desempenho do Rio Grande do Sul. Na pesquisa publicada ontem, os resultados modestos apareceram em várias áreas. Entre as 27 unidades da federação, o Rio Grande do Sul é o 23º colocado em proporção de crianças de quatro ou cinco anos na escola, o 15º na faixa dos 6 aos 14 anos e o 16º dos 15 aos 17 anos. Essa última fatia, correspondente ao Ensino Médio, é a mais preocupante. O índice de adolescentes matriculados caiu no Estado. Era de 85,3% em 2009. Foi de 83,1% no ano passado.

A Pnad também permite vislumbrar o percentual de brasileiros com mais de 10 anos de idade que têm baixa ou alta escolaridade. Ainda que esse universo inclua crianças e adolescentes em plena formação, trata-se de um indicador capaz de mostrar em que Estados a população passa mais anos em sala de aula. Também aí o Rio Grande do Sul se destaca negativamente. Entre os gaúchos, 51,46% têm oito ou mais anos de estudo, ante 53,3% da média nacional. Isso coloca o Estado na 12ª posição nacional. Em 2001, era o oitavo.

Ao mesmo tempo em que caiu no ranking dos que estudam mais, o Rio Grande do Sul subiu no dos que estudam menos. No Estado, 48% da população acima de 10 anos tem no máximo sete anos de escolaridade, índice pior do que o nacional, de 46%. Os gaúchos ocupam a 15ª posição entre os que estudam menos.

O professor da Faculdade de Educação da UFRGS Fernando Becker entende que a educação decai, em comparação com outros Estados, porque não existe um projeto:

– O Estado sempre nadou na fama de ser um dos melhores e acabou ficando para trás. Qual é o projeto para o ensino? Quais as diretrizes? Para onde vai a educação? Não temos isso. O que temos é cada novo governo fazendo suas aprontações.

Becker entende que a educação pública gaúcha sofre há décadas com um clima de briga política entre governo do Estado e professores, que emperra melhorias.

– Não sobra energia para melhorar o cotidiano escolar.

RETRATO DO RS

“Não sei explicar”




ZH encaminhou à Secretaria de Educação os dados da Pnad. A secretaria designou a diretora-adjunta do departamento pedagógico, Rosa Mosna, para comentar a pesquisa.

ZH – Os dados indicam que a proporção de gaúchos na escola em diferentes faixas etárias está abaixo da média nacional. Qual a explicação?

Rosa Mosna – Não saberia explicar que fenômeno está acontecendo.

ZH – E com relação à faixa dos 15 aos 17 anos, equivalente ao Ensino Médio, em que a proporção de gaúchos matriculados caiu nos últimos anos?

Rosa – Em alguns outros Estados também diminuiu. É um fenômeno que não consigo entender. A gente está com as crianças na escola, a gente está melhorando o fluxo, há demanda por Ensino Médio. Como é que o Ensino Médio cai? Não sei explicar. É estranho. Alguém tem de pesquisar isso.

ZH – Os dados apontam que os gaúchos que passam mais de oito anos na escola são proporcionalmente menos numerosos que os brasileiros. A posição do Estado nesse ranking piorou nos últimos anos. Há uma razão para isso?

Rosa – Teria dificuldade de dizer neste momento. Para nós, essas análises não são importantes. No departamento pedagógico, essa não é nossa principal idade. A nossa preocupação é garantir que tenha vagas. Também fazemos um trabalho agressivo de combate à infrequência. Estamos fazendo esse trabalho, e é estranho que venham esses dados do estudo. Tem coisas que são difíceis de entender. Não tenho como explicar.


Dificuldade na hora de contratar


CADU CALDAS

Os trabalhadores gaúchos têm uma renda mensal média 16% acima da brasileira. Mas essa diferença – que era de 19% um ano antes – vem caindo de forma sistemática há algum tempo, mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O número chama atenção porque Porto Alegre tem registrado as menores taxas de desemprego entre as regiões metropolitanas. Em agosto passado, a capital gaúcha teve a menor taxa para o mês em 11 anos, 3,4%. Mais vagas, no entanto, não representaram melhorias na remuneração dos trabalhadores.

Professor de economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Giácomo Balbinotto Neto explica que isso ocorre porque os setores em que há maior oferta de empregos são aqueles que não exigem muita qualificação.

– Esse é o motivo de ter mais gente trabalhando e a média de salários não crescer. A lei da oferta e da procura não se cumpre plenamente porque os profissionais não têm exatamente o mesmo perfil. Uma coisa é ter opção de emprego para operários da construção civil e comerciários. Outra é ter geração de vagas para especialistas, como engenheiros ou cientistas. Porto Alegre vai muito bem na primeira, mas não tem dado grandes saltos na segunda categoria – afirma.

O levantamento do IBGE mostra que, em 2012, mais de 70% da população gaúcha ganhava até R$ 1.356, equivalente a dois salários mínimos. No Brasil, a média chega a 75%. As dificuldades em contratar aumentam quando há vagas com salários mais atrativos e que exigem mais preparação dos candidatos. José Zortea, diretor regional do Senai, conta que está cada vez mais difícil admitir instrutores para ministrar aulas. Das 30 vagas oferecidas em 2012, apenas 17 foram preenchidas, apesar de o números de candidatos chegar a 600. Este ano, o cenário foi ainda pior. Das 30 vagas, apenas 12 acabaram ocupadas.

– As dificuldades também são grandes para selecionar os alunos. Nos cursos técnicos, antes de começar a ensinar uma profissão, os professores precisam ensinar português, matemática, geografia. E não é minoria. Cerca de 75% dos alunos que chegam precisam de aulas de reforço. A baixa atenção dos governos à educação básica vai cobrar seu preço daqui alguns anos – afirma Zortea.

Alta rotatividade afeta qualificação

Motivo de comemoração, o baixo desemprego no Estado também pode trazer efeitos indesejados para o mercado de trabalho. O professor Giácomo explica que, como a oferta de trabalho se dá em grande parte em empregos com baixos salários, a rotatividade entre os profissionais é alta:

– Os empresários se adaptam a essa movimentação contínua e acabam não investindo em capacitação. Ninguém quer investir em um funcionário que vai embora daqui a seis meses. Acabam pagando pouco por isso e cria-se um círculo vicioso.

A economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE) Bruna Kasprzak Borges tem uma avaliação parecida:

– Com mais oportunidades, o empregado sente menos necessidade de procurar especialização. Pode gerar uma certa acomodação. Por isso, é importante que os indicadores de educação também avancem. Caso contrário, a produtividade ficará cada vez menor, e o desemprego vai voltar a subir.



ÂNGELA RAVAZZOLO
Alerta estatístico

Os números divulgados ontem pelo IBGE colocam o Rio Grande do Sul em uma posição, no mínimo, incômoda: estamos abaixo da média nacional no percentual da população com oito anos de estudos ou mais e também no grupo com 11 anos ou mais. As estatísticas certamente não dão conta de explicar e contextualizar o complexo cenário educacional do país e do Estado, mas é preciso prestar atenção nos números, como uma sirene.

Recentemente, em Brasília, durante congresso promovido pelo movimento Todos pela Educação, especialistas de diferentes áreas concordaram que o Brasil chegou a um momento em que os debates, as pesquisas, as ideias, mesmo fundamentais, precisam se transformar em práticas de transformação.

Esse alerta estatístico da Pnad deve provocar os gestores, aqueles que estão à frente das políticas públicas da educação, mas pouco adianta se não tirar o sono também de toda a sociedade, pais, estudantes, professores, diretores. O aprendizado dos estudantes, razão de ser da escola, depende desse envolvimento conjunto. Mais do que um incômodo que se transforma em notícia, os números precisam provocar uma reação prática, concreta, que se reflita no dia a dia da sala de aula e consiga reverter o quadro de estagnação.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Enquanto tivermos uma educação voltada apenas ao ensino científico sem foco no futuro (ensino técnico, esportivo, artístico) capaz de identificar habilidade, talento, potencial e vocação dos alunos, sem disciplina, destituído da autoridade dos diretores e professores, sem investimentos em escolas e desvalorizando o potencial docente, o Brasil continuará com uma educação precária, desmotivadora e fomentadora de evasão e violência.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O DILEMA DA INCLUSÃO


ZERO HORA 26 de setembro de 2013 | N° 17565

ARTIGOS

 Ana Affonso*



A política de educação inclusiva adotada pelo Ministério da Educação orienta os sistemas de ensino para a garantia do ingresso dos estudantes com surdez nas escolas regulares, mediante a oferta da educação bilíngue, dos serviços de tradução e de interpretação de libras/língua portuguesa e do ensino de libras.

Ocorre que, ao enfrentar a discriminação, corre-se o risco de incidir em outro tipo de violência: a negação das diferenças, prejudicando a riqueza inerente a cada cultura e pessoa. É isso que a comunidade surda brasileira, composta por surdos, familiares, profissionais de diferentes áreas, pesquisadores e simpatizantes surdos e não surdos, com o apoio da comunidade surda internacional, aponta como equívoco da atual política federal.

A luta é contra o fechamento de escolas de surdos e pela ampliação da rede de educação bilíngue no país. Lembramos desta luta na semana em que é comemorado o Dia Nacional do Surdo, em 26 de setembro, e no momento em que debatemos o tema na Assembleia Legislativa. Segundo o censo do IBGE de 2010, cerca 5% da população brasileira apresenta deficiência auditiva, sendo cerca de 2 milhões de pessoas com deficiência considerada severa e 344,2 mil pessoas surdas.

As pessoas surdas não precisam apenas de educação especial inclusiva. Elas necessitam, sobretudo, de educação bilíngue que leve em conta sua cultura e identidade na comunidade escolar. Isso requer a interação com professores sinalizadores fluentes e em meio a uma comunidade linguística sinalizadora, que inclui colegas sinalizadores. A inclusão de alunos surdos em escolas da rede de ensino regular limita essa possibilidade, favorecendo a interação com colegas e professores ouvintes, mas, por outro lado, fragilizando sua própria cultura e identidade.

O Ministério da Educação está trabalhando para a superação da discriminação na educação, mediante a política de inclusão com garantia de apoio pedagógico de acordo com as necessidades de cada um. Melhor seria se essa medida não fosse uma obrigatoriedade, garantindo o direito fundamental à liberdade individual, sem prejudicar o direito à educação para todos e todas e, muito menos, a inclusão social. A luta da comunidade surda também é pelo combate à discriminação, mas mediante o reforço da identidade cultural das pessoas com surdez.

*Deputada estadual (PT), presidente da Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa do RS



COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Terá o Estado uma estrutura capaz de atender as diferenças dentro de cada sala de aula? Como fará isto se não consegue evitar o bulling e atender os casos de déficit de atenção, dislexia e dislalia?




quarta-feira, 25 de setembro de 2013

VIOLÊNCIA CONTRA ESTUDANTES



ZERO HORA 25 de setembro de 2013 | N° 17564

EDITORIAIS



Começam a se tornar rotineiros em Porto Alegre os assaltos a estudantes de escolas privadas, com os quais os delinquentes sabem que terão mais chance de encontrar aparelhos eletrônicos como celulares, tablets e computadores pessoais. A tendência, cada vez mais disseminada, exige uma estratégia especial da parte de organismos de segurança que, em conjunto com representantes das comunidades escolares e da sociedade, precisam encontrar saídas eficazes. Criminalidade não combina com ensino e, além de prejuízos materiais, os criminosos vêm provocando traumas em muitos alunos, que, algumas vezes, têm seu processo de aprendizagem prejudicado.

Desde que os casos de roubos a estudantes se intensificaram, dentro e nas proximidades das escolas, os organismos de segurança têm sido cobrados a agir com mais rigor, particularmente por parte de dirigentes de instituições de ensino. A resposta nos meios oficiais é a mesma fornecida a instituições públicas, nas quais os alunos também são vítimas frequentes de assaltos e ainda convivem com um cotidiano de constante depredação no ambiente escolar, com furto de ingredientes da merenda e até de material didático: não há como colocar um brigadiano em cada estabelecimento.

Se faltam policiais, é óbvio que os responsáveis pela segurança pública têm o dever de encontrar saídas eficazes, que contribuam realmente para reduzir a sensação de insegurança e o número de ocorrências. Os estabelecimentos de ensino precisam também fazer sua parte, investindo mais em mecanismos de segurança no interior das instituições e nos arredores.

O inadmissível é que seres humanos ainda em fase de formação psicológica se tornem reféns constantes do medo e vítimas preferenciais de desajustados. Os brasileiros, incluindo os gaúchos, já enfrentam problemas demais na área educacional para se conformarem com mais este.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

PROFESSORES PROTESTAM EM FRENTE À CASA DO GOVERNADOR DO RS

ZERO HORA 10 de setembro de 2013 | N° 17549


PISO NACIONAL DOS PROFESSORES

Cerca de cem manifestantes ligados ao Cpers/Sindicato protestaram em frente à casa do governador Tarso Genro, no bairro Rio Branco, em Porto Alegre, na manhã de ontem. Com megafones e gritos de ordem, o grupo pediu a presença do chefe do governo para reivindicar a implantação do piso nacional dos professores.

Em greve, os manifestantes foram ao local por volta das 6h. A Brigada Militar isolou a área em dois cordões. Moradores contaram ter ouvido barulho de explosão de bombas de efeito moral.

Pouco depois das 7h, o grupo saiu em marcha pela Rua Dona Laura, passou por Goethe e Protásio Alves e chegou ao Túnel da Conceição. Antes disso, parou em frente ao Instituto de Educação General Flores da Cunha, na Osvaldo Aranha, para chamar mais professores a se juntarem ao ato. Por volta das 8h30min, o protesto foi encerrado na Rua Alberto Bins, em frente à sede do Cpers.

Em entrevista, o governador pediu que os trabalhadores não fizessem mais este tipo de manifestação em frente a sua casa, pois incomoda os moradores da região. Tarso disse que, quando houver assuntos urgentes, que peçam para ele ir ao Palácio Piratini.