EDUCAÇÃO MULTIDISCIPLINAR

Defendemos uma política educacional multidisciplinar integrando os conhecimentos científico, artístico, desportivo e técnico-profissional, capaz de identificar habilidade, talento, potencial e vocação. A Educação é uma bússola que orienta o caminho, minimiza dúvidas, reduz preocupações e fortalece a capacidade de conquistar oportunidades e autonomia, exercer cidadania e civismo e propiciar convivência social com qualidade, dignidade e segurança. O sucesso depende da autoridade da direção, do valor dado ao professor, do comprometimento da comunidade escolar e das condições oferecidas pelos gestores.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

PROGRAMA DE APERFEIÇOAMENTO DE PROFESSORES

MESTRES EM FORMAÇÃO. A receita de um bom professor - NILSON MARIANO, ZERO HORA 07/04/2011

O ministro da Educação, Fernando Haddad, estará hoje em Porto Alegre para lançar o programa de aperfeiçoamento de professores, numa parceria entre o Estado e o MEC
Os professores gaúchos serão convidados a estudar para melhorar o desempenho em sala de aula. O Ministério da Educação (MEC) e o governo estadual devem lançar hoje, em Porto Alegre, um programa de treinamento do magistério, que prevê formação e aperfeiçoamento continuado.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, chega hoje ao Estado para assinar o protocolo de intenções com o secretário estadual de Educação (SEC), Jose Clovis de Azevedo. O plano é qualificar os 75 mil educadores nos níveis de licenciatura, especialização, mestrado e por meio de cursos rotineiros.

– Quem ensina precisa estar permanentemente aprendendo. Queremos criar essa cultura – ressalta Azevedo.

A cooperação com o governo federal também deve se refletir na conservação das escolas, na modernização tecnológica e na gestão do ensino. A intenção é que a aliança gere o que Azevedo define como “compromisso mútuo”, abrangendo todas as dimensões do ensino.

O secretário espera encaminhar pelo menos boa parte dos projetos ao MEC até o início de maio. Eles serão necessários para se obter as verbas para a reforma de colégios, a compra de equipamentos e a realização dos cursos de aprimoramento. Azevedo entende que a situação dos professores oscila entre “altos e baixos”. Uns são excelentes, outros não tiveram a formação adequada.

– Mesmo os que fizeram os melhores cursos, se não continuarem estudando, podem ficar desatualizados – observa.

Independentemente da parceria federal, a SEC iniciou cursos e seminários de atualização nas regiões de Santo Ângelo, Santa Rosa e Ijuí, nas Missões e no Noroeste. Incluem teorias de aprendizagem, administração escolar e uso de novas tecnologias.

Melhorias no magistério não são um desafio exclusivo de gaúchos. Em março, em Nova York, foi realizado o 1º Encontro Internacional sobre Professores justamente para se repensar a profissão. Um dos coordenadores do evento e diretor para educação da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o alemão Andreas Schleicher diz que a qualidade do ensino está ligada à competência dos professores. Alerta que a eficiência dos educadores depende da seleção, da formação continuada, do plano de carreira e de avaliações constantes.

Recompensar bons, excluir maus

Schleicher é contundente sobre o papel dos educadores. Defende que é preciso recompensar os bons docentes e excluir os maus profissionais. É favorável à avaliação por mérito, método que gera controvérsias no Brasil.

– A meritocracia é um princípio muito importante. Manter a eficiência de um corpo docente implica não apenas dar aos professores oportunidade, apoio e incentivo para que continuem a fazer bem seu trabalho, mas também tirar da sala de aula aqueles que não são eficazes – afirma o diretor da OCDE, em entrevista repassada pelo site Mini Web Educação.

O Encontro de Nova York tratou de questões como baixa remuneração e falta de condições para o trabalho. Foram citados os exemplos do Japão e de Cingapura, onde os governos acompanham de perto as variações de mercado para se certificar de que os salários dos professores são competitivos. Na maioria dos países, no entanto, os vencimentos são inferiores aos de outros profissionais graduados.

Uma das necessidades, para qualificar o magistério público, é atrair jovens idealistas. A tarefa, porém, pode ser inglória no Brasil. No início deste ano, a Fundação Victor Civita (FVC) divulgou pesquisa revelando que apenas 2% dos alunos do Ensino Médio têm interesse em seguir a carreira docente. O levantamento ouviu 1,5 mil estudantes do terceiro ano, de 18 escolas públicas e privadas do país.

– O estudo mostrou que um terço dos jovens entrevistados chegou a cogitar a carreira de professor, mas desistiu em função da baixa atratividade – informa a diretora-executiva da FVC, Angela Dannemann.

Além de não fascinar os jovens, a carreira desestimula os veteranos. Levantamento do movimento Todos pela Educação aponta que professores com mais de 50 anos de idade são minoria na Educação Básica do país.

Uma das causas é a aposentadoria precoce, por falta de estímulo para se manter na ativa. Ao contrário, em países como a Finlândia, os Estados Unidos e a Alemanha, a proporção dos experientes é maior em sala de aula.

PACTO PELA EDUCAÇÃO NO RS

Lançado o Pacto Gaúcho pela Educação - ZERO HORA 07/04/2011

A qualificação de professores é uma das metas da Câmara Temática do Pacto Gaúcho pela Educação, lançada ontem pelo governo estadual. A iniciativa é do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), o Conselhão de Tarso Genro, que elegeu a educação como prioridade.

Um dos objetivos da Câmara pela Educação é criar uma rede no Ensino Superior e nos institutos federais para formar professores e servidores de escolas. Jovens e trabalhadores também serão beneficiados. A Unipampa e a Uergs estão cotadas, mas outras universidades, públicas e privadas, serão convidadas a participar do mutirão.

O presidente da câmara, secretário estadual de Educação Jose Clovis de Azevedo, anuncia que será apresentado um diagnóstico da situação em maio. Integrada por oito conselheiros executivos, a entidade terá a função de acumular propostas ao Conselhão, que, por sua vez, municiará o governo na área da educação.

Qualificar os educadores foi a primeira recomendação do comitê gestor do Conselhão, como diretriz para o desenvolvimento do Estado. Secretário-executivo da entidade, Marcelo Danéris diz que a capacitação será direcionada aos setores produtivos. Haverá programas no campo e nas cidades.

– Esta ação busca também promover o conhecimento, com incentivo à pesquisa e inovação tecnológica, vinculando a educação à realidade econômica, social e cultural das regiões e aos arranjos produtivos locais – destaca Danéris.

A câmara também deverá se bater pela universalização do acesso ao Ensino Médio, pelo aumento das vagas gratuitas no ensino técnico e pela ampliação profissional dos professores. Atualmente, há 75 mil professores na rede estadual, que atuam em mais de 2,5 mil escolas da educação básica e profissional.

A eficiência de professores começa pela formação inicial. Integrante do Núcleo de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), a cientista social Eunice Ribeiro Durham critica que os educadores estão saindo despreparados dos cursos de Pedagogia. Alerta que a deficiência se concentra principalmente entre os professores do primeiro ao quinto ano.

Eunice, do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, observa que os professores estão aprendendo a dar aula, mas não a alfabetizar. Lamenta que os educadores não dominam o português e a matemática, pouco sabem de ciências e geografia:

– Não sabem onde fica a Líbia, para explicar o que acontece no mundo árabe.

Mozart Neves Ramos, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ressalta que a qualificação dos professores é “o mais relevante” para se conseguir as metas na educação. Membro do Conselho Nacional de Educação, diz que o país está formando educadores distanciados da realidade das escolas.

VALORIZAÇÃO DOS PROFESSORES - SUPREMO CONFIRMA PISO NACIONAL

Supremo confirma piso nacional para professores. Decisão revigora pleito do Cpers, mas governo gaúcho diz que não poderá pagar R$ 1.187 de imediato - ZERO HORA 07/04/2011

Às vésperas da assembleia-geral convocada pelo Cpers-Sindicato para avaliar a proposta de reajuste de 10,91% do governo do Estado, os professores da rede pública obtiveram ontem uma dupla vitória no Supremo Tribunal Federal (STF). Por oito votos a um, o Supremo decidiu que é constitucional a lei federal que instituiu o piso nacional do magistério e que o valor se refere ao vencimento básico.

Isso significa que todos os Estados e municípios terão de pagar o piso nacional, hoje fixado em R$ 1.187,14 para 40 horas semanais de trabalho. O vencimento básico hoje no Estado é de R$ 713,26 por 40 horas semanais.

O STF rejeitou uma ação direta de inconstitucionalidade movida, em 2008, por cinco Estados – Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Ceará.

Para os professores gaúchos, a notícia não poderia ser mais animadora. O Cpers sempre sustentou que o piso deveria ser considerado como o vencimento básico do magistério, sobre o qual incidem todas as vantagens. O governo de Yeda Crusius entendia que o piso era o valor do salário bruto, somados o básico e as gratificações. A alegação era de que os Estados e municípios não teriam recursos para arcar com o aumento. A presidente do Cpers, Rejane de Oliveira, comemorou a decisão do STF.

– É uma vitória para a nossa categoria e para o Cpers, especialmente, que foi o único sindicato do Brasil a fazer uma greve para garantir o piso nacional – disse Rejane.

O atual governo reconhece a existência do piso, mas diz que não tem dinheiro para implementá-lo de uma vez só. Propõe dar agora um reajuste de 10,91% e integralizar o piso até o fim do mandato. Cálculos preliminares indicam que a aplicação do piso elevaria os gastos com a folha de pagamento do magistério em mais de R$ 2 bilhões por ano.

– Não temos como pagar hoje, mas não abrimos mão disso. Estamos reafirmando nosso compromisso de pagar ao longo do nosso governo, aos poucos – disse o secretário estadual da Educação, Jose Clovis de Azevedo, que também afirmou estar satisfeito com a decisão do Supremo.

Ação questiona regra para atividades extraclasses

Somente o ministro Marco Aurélio Mello votou pela procedência da ação. Para a maioria dos ministros, o objetivo da lei considerada constitucional é valorizar os profissionais da educação.

– O piso está vinculado à melhoria da qualidade do ensino. Não há nenhuma inconstitucionalidade no fato de a União ter estabelecido por lei esse piso – afirmou durante o julgamento o ministro Ricardo Lewandowski.

A ação dos governadores questionava também a regra segundo a qual um terço da carga horária deve ser reservada para atividades extraclasses, como planejamento, correção de provas e atualização do professor. Sobre esse aspecto não houve decisão. Parte dos ministros considerou que há invasão da competência legislativa dos entes federativos (Estados e municípios) e, portanto, violação do pacto federativo previsto na Constituição. O assunto pode voltar à pauta amanhã. O julgamento de ontem durou mais de quatro horas.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

UNIFORME ESCOLAR

CLAÚDIO BRITO - JORNALISTA - ZERO HORA 04/04/2011

Primeiro, um recado no Twitter. Depois, no Facebook. Logo, eram mais de 200. O uso obrigatório do uniforme no Colégio Pedro Schneider, o famoso Pedrinho, de São Leopoldo, provocava o debate. Dois alunos foram barrados por não usarem a camiseta oficial da escola. Sem acesso à sala de aula, protestaram e mobilizaram outros colegas. Um comentário na Rádio Gaúcha, uma reportagem e uma enquete no Jornal do Almoço, da RBSTV confirmaram que o tema é polêmico.

Na televisão, maioria significativa de 80% aprovou a ideia de se impor aos estudantes das escolas estaduais o uso de uniformes. Os motivos são vários, desde a padronização que evitaria o desfile de moda diário da juventude, que expõe os mais pobres a uma comparação que os machuca, até a segurança. Dizem que uniformizados os alunos se protegem, pois estranhos não entrariam no colégio. Ingenuidade supormos que uma camiseta ou um abrigo estejam protegidos da clonagem, se até fardamento militar é copiado com sucesso por alguns assaltantes, como já aconteceu tantas vezes.

Sobre o tema da segurança, por sinal, uma senhora me alertou. Contou-me que, impedidos de ingressar em um estabelecimento de ensino da Grande Porto Alegre, meninos foram deixados na rua. Seus pais só viriam buscá-los horas depois. Encontraram os filhos sentados na calçada, diante do portão fechado da casa que deveria ser a extensão do lar. O motivo era outro, o atraso na chegada. Pois bem, que o atrasado aguarde um intervalo ou fique em uma sala de orientação pedagógica, por exemplo. Dentro da escola, no entanto. Em segurança. Na rua, jamais.

Indisciplina ou atraso podem justificar o afastamento da sala de aula. Mandar o aluno sair do prédio é violência. Os pais estão no trabalho, imaginando os filhos resguardados. Não se pode admitir tal exposição ao perigo. E o que dizer se a causa for a roupa vestida pelo guri? E quem disse que todos podem comprar camisetas ou uniformes de várias peças? Como obrigar ao uso do que não se tem? Usar a ideia da padronização para que, igualados, estejam livres de discriminação ou comparações dolorosas? O que foi então que fizeram ao dizer que “sem camiseta não vai entrar”? Toda a comunidade da escola ficou sabendo que aqueles jovens não tinham condições de adquirir a bendita camiseta.

Uniforme em escola pública? Ainda que se respeite a autonomia de cada colégio, ainda que se admita que pais e mestres resolvam adotar fardamento, ninguém poderá ser obrigado a gastar com isso. Que se organizem e arrecadem recursos para comprar uniformes para todos, ou que o Estado banque a despesa. Nada poderá ser exigido individualmente dos estudantes. Inadmissível e até revoltante que educadores cogitem proibição às aulas por falta de uniforme. Nada pode impedir que o aluno viva o momento sagrado de avistar-se com seu professor ou professora na tão nobre relação ensino-aprendizagem.

domingo, 3 de abril de 2011

BULLYING - ESPANCADA APÓS DIZER QUE ERA VÍTIMA

Estudante é espancada após dizer que era vítima de bullying - ARARIPE CASTILHO DE RIBEIRÃO PRETO - FOLHA ON LIN E, 02/04/2011

Uma aluna de enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá, em Ribeirão Preto (313 km de São Paulo), foi espancada e teve o nariz quebrado por golpes de capacete após denunciar à coordenação de seu curso que vinha sendo vítima de bullying na instituição.

Ana Cláudia Karen Lauer, 20, foi agredida no início da tarde desta sexta-feira. Uma aluna, disse, discutiu com ela na saída e outras duas a abordaram enquanto pegava sua moto, do lado de fora da Barão, para ir embora.

A vítima contou ter sido agredida com seu próprio capacete por uma das alunas que a abordaram. "Quando ela me bateu, eu cai no chão dizendo 'você quebrou meu nariz' e mesmo assim a garota não parou", relatou.

Ela disse ter ficado indignada também porque alguns funcionários da instituição não a ajudaram. "Enquanto eu apanhava, ficaram todos só olhando, inclusive os seguranças. Até que veio outra menina, que não sei quem é, e me tirou dali", disse.

A estudante de enfermagem afirmou ainda que a Barão se recusou a fornecer o nome completo da garota que a agrediu para a queixa na polícia. "Disseram que era antiético."

Mãe de Ana, Cláudia Karen Lauer, afirmou acreditar que a filha podia estar sofrendo preconceito porque foi transferida de outra faculdade para a Barão há três meses e, como já conhecia algumas matérias, se destacava nas aulas.

A jovem contou ter procurado a coordenação do curso para se queixar de bullying porque, além de ser ignorada na maior parte do tempo, era rejeitada em uma das classes até na hora de fazer trabalhos em grupo.

"Quando isso começou a atrapalhar nos estudos, ela procurou ajuda da instituição", afirmou a mãe.

O Centro Universitário Barão de Mauá informou via assessoria de imprensa que uma comissão foi formada para apurar o caso e ouvir todos os envolvidos. A instituição negou ter recusado socorro à vítima, já que o atendimento foi feito por uma unidade médica contratada pela Barão.

COMO VENCER O BULLYING



Um terço dos adolescentes brasileiros diz sofrer agressões e intimidações na escola. Conheça alguns projetos para combater o problema que estão dando certo no Brasil e no Exterior. Claudia Jordão - Revista Isto É, 2160 - 03/04/2011

Isolado pelo grupo, o aluno não participa dos jogos e brincadeiras. Está sempre sozinho, é alvo de piadinhas jocosas, apelidos maldosos e, às vezes, apanha mesmo. Não é difícil reconhecer uma vítima de bullying, a criança ou adolescente que sofre violência física ou psicológica de forma constante e intencional por parte dos colegas. A prática está disseminada nas escolas, tanto no Exterior quanto no Brasil, e causa grande sofrimento para os alunos – gera ansiedade, pânico, insônia, cefaleia, entre outros – e para seus pais. Cerca de um terço dos estudantes do nono ano do ensino fundamental de 6.780 escolas do País, ouvidos para uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano passado, declarou sofrer bullying. O grande desafio de educadores, escolas e famílias é vencê-lo. Alguns projetos pioneiros indicam possíveis caminhos. Estudos científicos e experiências bem-sucedidas sugerem três vertentes a serem trabalhadas com os jovens: a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro, a resiliência, a habilidade de reagir positivamente a uma situação adversa, e a criatividade, uma forma de canalizar o impulso agressivo para algum talento.

O primeiro passo, porém, é reconhecer que o fenômeno existe. “Pais e educadores não sabem diferenciá-lo de outros conflitos, não entendem que cada criança lida de maneira diferente com a violência e que muitas precisam de ajuda”, diz o psicólogo escolar e estudioso de bullying David Hornblas. Uma discussão aqui, um empurrão ali nem sempre são sinais do problema. O que faz a diferença é a intenção e a repetição das agressões. “Hoje em dia, tudo virou bullying, qualquer briguinha com um colega é justificada dessa forma”, diz Miriam Tricate, diretora do colégio Magno, em São Paulo. Para separar o joio do trigo, a escola promove encontros do corpo docente com psicólogos para que os episódios de bullying sejam identificados. Segundo Miriam, de cada dez casos trazidos pelos pais, apenas dois configuram a prática. Uma vez identificado o problema, parte-se para a ação. “Procuramos dar espaço para aquele aluno tímido que vive isolado mostrar o seu talento naquilo que gosta, por exemplo. Dessa forma, melhoramos a sua autoestima e a imagem dele para o grupo”, diz a diretora.

Ironicamente, no Brasil, as escolas públicas parecem estar mais bem preparadas para enfrentar o problema do que as particulares. A opinião é da psiquiatra e autora do livro “Bullying – Mentes Perigosas nas Escolas”, Ana Beatriz Barbosa Silva. “As públicas seguem o protocolo do Ministério da Educação”, diz Ana. “Casos de violência são registrados e encaminhados para o Conselho Tutelar, que vai até lá, apura e envolve educadores, pais e vítima na solução do problema.” Enquanto isso, muitas particulares ainda acreditam que admitir a existência de bullying é fazer marketing negativo. Além disso, quando reconhecem o problema e resolvem agir, nem sempre encontram apoio dos pais do aluno agressor – e, com medo de perdê-lo, têm dificuldade de agir. “Sempre recomendo aos pais: na hora de definir a escola do filho, não escolha a que não tem bullying, porque isso não existe. Escolha aquela que admite a existência e que mantém algum programa de prevenção e combate”, diz Ana, autora de uma cartilha anti-bullying recém-lançada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

A Escola Estadual Melvin Jones, em Caxias do Sul (RS), usa a informação e o conhecimento como estratégia. No ano passado, as alunas do segundo ano do ensino médio, Edilene Antonelo Claudino, 17 anos, e Maruska Guarda da Silva, 16, desenvolveram um programa anti-bullying para ser aplicado aos alunos do quinto ano do ensino fundamental, baseado em palestras informativas e encontros entre pais e professores. “Os casos de bullying caíram pela metade só pelo fato de o discutirmos e mostrarmos que é errado”, diz a professora Jordana Montanari, orientadora do projeto das jovens. Edilene e Maruska sofriam com apelidos pejorativos – a primeira por ser baixa e a segunda por estar acima do peso. “Escolhemos crianças do quinto ano porque é nessa fase que as meninas engordam e os meninos ficam com a voz grossa, o que aumenta os conflitos”, diz Edilene.

Na última década, o ambiente fértil da internet fez prosperar uma forma nova de intimidação, o cyberbullying. “Protegidos pelo anonimato, os jovens fofocam, denigrem e humilham”, diz a psiquiatra Ana. “E as agressões permanecem eternamente no mundo digital, dificultando a cicatrização de feridas.” Pedir reparação na Justiça é uma alternativa que começa a ganhar visibilidade. No ano passado, um juiz de Minas Gerais determinou que os pais de um garoto que insultava a colega pagasse R$ 8 mil a ela por danos morais. Além disso, alguns governos estão tomando providências. Pelo menos quatro cidades brasileiras (Porto Alegre, Novo Hamburgo, Curitiba e Campo Grande) e o Estado de Pernambuco têm leis anti-bullying – São Paulo debate o projeto na Câmara de Vereadores. As escolas dessas localidades são obrigadas a manter um programa de combate ao problema e treinar professores para identificar e lidar com a questão.

A melhor alternativa, porém, é sem­pre prevenir. Orientador educacional do Centro Educacional Pioneiro, de São Paulo, o psicólogo escolar Hornblas foi contratado para desenvolver um projeto anti-bullying. Ele é membro da organização britânica de combate à violência nas escolas United Kingdom Bullying e adaptou no Pioneiro um modelo de sucesso internacional. O primeiro passo é sensibilizar os estudantes para a questão. Em 2010, crianças entre 6 e 13 anos assistiram a filmes, ouviram palestras e debateram o tema. Neste ano, na segunda fase do projeto, os alunos irão participar de concursos de redação e da criação de cartazes sobre a violência nas escolas. Os melhores trabalhos serão distribuídos e espalhados pelas imediações da instituição, como forma de chamar a atenção para o problema. Na Grã-Bretanha, os cartazes feitos pelos alunos são afixados nas estações de metrô no entorno das escolas.

Diferentemente do Brasil, países como Inglaterra, Estados Unidos e Austrália já passaram da fase de reconhecer o problema e estão implementando uma gama de projetos. Muitos têm se mostrado eficazes e podem ser replicados em qualquer escola do mundo, com algumas adaptações. O foco é sempre o lado emocional da criança. Desenvolvido no Canadá e presente na Inglaterra e Nova Zelândia, o programa Raízes da Empatia, por exemplo, promove esse sentimento de solidariedade entre as crianças de 5 a 13 anos na convivência com um bebê. Durante nove meses, uma vez por mês, o neném vai à classe. Eles tentam entender os sentimentos dele, imitam seus movimentos e vivenciam sua dependência. Os resultados logo aparecem. Na presença dos bebês, a criança tímida perde a vergonha, a agitada se acalma e a fechada abre sorrisos. Na província canadense de Manitoba, onde a dinâmica acontece em 300 salas de aula, um estudo constatou que, ao fim do ano letivo, a incidência de bullying caiu quase à metade, de 15% para 8%.

Em São Paulo, o colégio Magister também acredita no poder da empatia para formar crianças mais doces e respeitosas. No sétimo ano do ensino fundamental, os alunos participam de uma dinâmica de grupo cujo objetivo é fazê-los se colocar no lugar do aluno que sofre com gozações, apelidos e agressões. Cada estudante recebe um adesivo com um apelido escrito, que é colado às costas. O aluno em questão não sabe qual é o rótulo, mas passa a ser tratado pelos amigos como tal. Após 15 minutos, todos são chamados a discutir o que vivenciaram. “A maioria relata que se sentiu muito mal, envergonhado, triste”, conta Angela Borges, coordenadora do Magister. “Assim, pensam duas, três vezes antes de praticar alguma agressão contra um colega”, diz.

Na Austrália, a estratégia escolhida foi fortalecer a resiliência, a habilidade de reagir de maneira positiva em situações adversas. Incentivados pelo governo local, que enquadrou o bullying como questão de saúde pública, educadores, psicólogos e neurocientistas desenvolveram projetos para ser aplicados na escola e em casa. Neles, educadores, pais e alunos são treinados para se tornar mais tolerantes às adversidades e para tirar o melhor das piores situações. Para se tornar resiliente, a criança precisa ter autoestima elevada e independência. Para tanto, precisa ser ouvida e respeitada, além de ser desafiada a resolver com criatividade os próprios problemas. No Brasil, o Instituto Glia lançou o Projeto Atenção Brasil – um Retrato Atual da Criança e do Adolescente no Brasil. Trata-se de uma cartilha destinada a educadores sobre bullying, saúde mental e a importância de se educar para a resiliência. O ma­terial traz dicas de como desenvolver a ha­bilidade e pode ser baixado gratuitamente pelo site (http://www.aprendercrianca.com.br/).

Estimular a criatividade é outro caminho para combater o bul­lying. “Os jovens, algozes ou vítimas, precisam de estímulos para direcionar sua agressividade para algo positivo”, diz a psiquiatra Ana. A ideia é auxiliar as crianças a focar em seus talentos e potenciais, em vez de deixá-las extravasar nos colegas ou permanecer isoladas, sem vida social e com tempo de sobra. “Quando faz o que gosta, aquilo no qual é bom, o adolescente melhora a sua autoimagem e a sua autoestima”, diz Silvia Viegas, coordenadora da Escola Viva, de São Paulo. O estímulo também pode ser dado em casa. “Pintem, façam colagens, ouçam músicas, montem uma peça de teatro. Mostrem possibilidades e avaliem os potenciais”, sugere Ana, para quem os pais deveriam dedicar um fim de semana por mês às atividades artísticas com os filhos.

Vencer o bullying implica travar uma longa guerra, com muitas batalhas, na qual educadores e pais devem unir forças, trocando informações e alinhando o discurso, além de acompanhar de perto a criança, seja vítima ou agressora. A conduta de uma diretora de uma escola pública de Campo Grande no Rio de Janeiro, que conseguiu integrar um aluno transexual que assumiu a sua condição e passou a frequentar a escola vestido de mulher, serve de exemplo. Para conseguir esse feito, a diretora convocou os alunos e expôs a situação do garoto, que sofria com o alcoolismo do pai, com a insanidade da mãe e com a pobreza. Ao partilhar informações, conseguiu a empatia dos alunos. O episódio também é um exemplo de resiliência (por parte do aluno) e de criatividade (por parte da diretora). Por isso, é uma história com final feliz.


CHEGA DE EDUCAÇÃO PROGRESSISTA

Fala-se e escreve-se, o tempo todo e em toda parte, que o Brasil está em vias de se tornar uma das potências dominantes do cenário global – mas tais previsões costumam vir acompanhadas de uma condicional: se quisermos chegar lá, teremos de investir em educação.

É aqui que o leitor se pergunta: mas já não estamos investindo em educação? Para onde vão os 25% do orçamento que todo gestor público tem a obrigação legal de destinar a essa área?

Depois de passar sete anos acompanhando, como professor, o cotidiano da escola pública, posso afirmar que o principal problema do nosso ensino não é falta de verbas, mas falta de rumo. E ouso levantar uma questão que tem sido pouco discutida: a educação brasileira só é tão ruim por ser “boa demais”, pelo menos no papel.

Se tomarmos os textos das leis que norteiam o ensino no país ou os regimentos das secretarias municipais e estaduais de Educação, se lermos as ementas das disciplinas dos cursos de Pedagogia ou se ouvirmos o que é debatido em seminários de educadores, choraremos de emoção e teremos a sensação de que nossas escolas são o melhor dos mundos.

Tais textos, geralmente redigidos em prosa poética, estão repletos de belas expressões como “inclusão”, “gestão democrática”, “construção do conhecimento”, “leitura da realidade”, “libertação dos oprimidos”, “formação do ser humano integral”. Os arautos da corrente que hoje domina a intelligentsia educacional brasileira, e que chamam a si mesmos de “progressistas”, defendem esses princípios com fervor quase religioso e travam uma luta de vida e morte contra o paradigma anterior, que rotulam como “educação tradicional”.

A educação tradicional, aquela em que a maioria dos brasileiros com mais de 25 anos foi alfabetizada, foi demonizada. “Tradicional” tornou-se um xingamento. Ao assumir o comando dos órgãos que cuidam da educação no país, lá pelo fim da década de 80, os novos timoneiros identificaram o paradigma então vigente com o autoritarismo da ditadura e trataram de exorcizar as escolas das práticas tidas como “tradicionais” e “autoritárias”: a transmissão de conhecimento de um professor que sabe para um aluno que não sabe, a reprovação dos alunos que não aprendem, a memorização pela repetição, o bê-á-bá, a exaltação dos que tiram boas notas.

Desde então, evita-se ao máximo reprovar, pois isso “traumatiza” o aluno. A repetição da tabuada e os ditados para fixar a grafia das palavras também são evitados, pois “deformam a consciência”. Os currículos escolares foram permeados de atividades lúdicas e recreativas, destinadas a estimular a aceitação e a “inclusão”.

O resultado, duas décadas depois, é que milhões de analfabetos funcionais saem das escolas públicas, todos os anos, com certificados de conclusão embaixo do braço. No seu afã de conscientizar e libertar os oprimidos, a educação progressista os condenou à escravidão da falta de qualificação. Vivendo num mundo de faz de conta onde a interação social é mais importante que o conteúdo, os “libertadores” não percebem que a verdadeira libertação é ter condições de ser selecionado para um bom emprego, de ser aprovado no vestibular, de passar em um concurso público, e isso é negado à maioria dos alunos das escolas públicas.

O avanço de que necessitamos para abraçar o nosso destino de potência global se assemelha mais, por paradoxal que seja, a um retrocesso, uma volta ao tempo em que o conhecimento era medido e aplicado, os professores eram respeitados e valorizados e os alunos só eram aprovados se aprendessem.

EDUARDO NUNES,FILÓSOFO E JORNALISTA - ZERO HORA 03/04/2011