Reféns do medo. Oito escolas fecharam por violência em Porto
Alegre neste ano. Levantamento do DG mostra que aulas foram suspensas ou
interrompidas em 20 dias, afetando cerca de 2 mil estudantes
Por: Eduardo Rosa
ZERO HORA 01/07/2015 - 07h08min
Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS
A
guerra do tráfico e os crimes contra o patrimônio não perdoam nem
aqueles espaços voltados ao aprendizado e ao crescimento. Neste ano,
pelo menos oito escolas da Capital e cerca de 2 mil alunos tiveram aulas
suspensas ou interrompidas pela violência.
O levantamento foi
feito pelo DG em 41 colégios localizados em regiões de grande
vulnerabilidade social: Arquipélago, Bom Jesus, Mario Quintana,
Restinga, Rubem Berta e Santa Teresa. No total, foram 20 dias em que
algum dos locais mudou sua rotina por toque de recolher, informação de
tiroteio, arrombamento ou incêndio. A questão extrapola o "ficar sem
aula": a insegurança toma parte do cotidiano.
Um dos
exemplos vem da Escola Estadual de Ensino Médio Santa Rosa. Localizada
na Avenida Bernardino Oliveira Paim, no Rubem Berta, a instituição
suspendeu as aulas por três noites.
— Alguém estava ligando e
avisando para não abrir. Alunos perderam aula, vão ter de recuperar
durante final de semana ou férias. Isso que prejudicou, a falta de aulas
por uma coisa que não estaria acontecendo na escola, mas no bairro —
relata o estudante Willian Vargas, 19 anos.
Uma professora, que pede para não ser identificada, afirma que a sensação é de impotência:
— Não sabemos o que fazer com as crianças menores. Alguns pais vêm buscar antes.
No
lado oposto da cidade, na Restinga, a Escola Municipal de Educação
Infantil Dom Luiz de Nadal não chegou a cerrar os portões em 2015 por
situação semelhante. Mas não significa que sua rotina não tenha sido
alterada por conflitos.
— O que acontece fora dos muros da
escola nos afeta, como as crianças não poderem ir para o pátio. A gente
fica tensa, abala a parte psicológica. Os pais ligam e perguntam se
podem vir buscar — relata a diretora Maria do Carmo Souza.
Quando
chega a notícia de que pode haver tiroteio em determinada região, pais e
alunos lançam mão dos telefones. A pergunta é: buscar ou não as
crianças? As decisões dependem de cada escola. Alunos podem ir embora
mais cedo ou mais tarde. Nesses territórios, o colégio abraça uma função
que não é sua — cuidar dos alunos longe de seus muros.
Colégio Paraná, na Zona Sul, sofreu incêndio criminoso | Foto: Carlos Macedo
"Problema é muito mais complexo", afirma sociólogo
O
sociólogo e professor da Unisinos Carlos Gadea analisa que fechar as
portas por questões de violência é reflexo do que acontece onde está o
colégio.
— A escola é a instituição onde mais repercutem as
coisas que acontecem ao seu redor. Depende muito do contexto do bairro.
Não é problema tanto da escola enquanto local, é muito mais geral e
complexo — afirma.
O pesquisador cita Medellín, na Colômbia,
como exemplo de mudança na segurança. Ele aponta como positivas ações
como proporcionar bibliotecas, esporte, lazer e acesso à internet para
as populações:
— Muitos jovens que poderiam entrar no
narcotráfico, quando crianças começaram a ir a esses lugares. Aos 14, 15
anos, já tinham passado anos lá aprendendo alguma coisa.
Estado aposta na prevenção A
Secretaria da Educação do Estado elegeu como um dos programas
prioritários para a área a criação de Comissões Internas de Prevenção de
Acidentes e Violência Escolar (Cipaves) — a meta é instalar pelo menos
cem nas regiões com maiores índices de violência. O desdobramento, conta
o titular da pasta, Vieira da Cunha, é a participação de outras
secretarias, sob a coordenação da Secretaria da Justiça e dos Direitos
Humanos.
— A escola pode estar isenta do problema de violência,
mas a comunidade está inserida nessa situação. Então, os problemas
sempre acabam refletindo na educação — afirma a gerente do projeto,
Luciane Manfro.
Vieira vê no ensino de tempo integral uma medida
capaz de mudar a realidade de comunidades conflagradas. O secretário
quer terminar a gestão com 300 instituições nessa modalidade:
— É
uma importante ferramenta. A criança fica o dia inteiro em atividades
educativas e prazerosas. É retirada daquele ambiente, fazemos um resgate
social.
Na Santa Rosa, aulas foram suspensas em três noites | Foto: Luiz Armando Vaz
Município busca a integração
Integrante
da Assessoria Técnica e Articulação em Rede (Atar), da Secretaria
Municipal da Educação (Smed), a assistente social Joice Lopes da Silva
explica que fechar ou não uma escola depende da tensão na qual a
comunidade vive. Isso é avaliado por diretores e secretaria. Depois, as
horas têm de ser recuperadas.
— O trabalho da escola passa muito
por ter vínculo com alunos e famílias e conseguir entender as questões
do território. Se a escola entrasse num enfrentamento, não conseguiria
se manter — conta.
Para ela, os momentos mais tensos precisam
ser usados para se fazer uma reflexão da violência com alunos e pais e, a
partir daí, repensar algumas escolhas e valores.
— Conflitos
fazem parte de uma realidade social. Tem se tentado conviver e lidar com
essas questões. Não tem como ir contra, a escola aprende a lidar — diz
Joice.
A Smed trabalha em rede integrada, com assistência
social, Conselho Tutelar e saúde, na qual é discutida a situação do
território e de cada aluno.