EDUCAÇÃO MULTIDISCIPLINAR

Defendemos uma política educacional multidisciplinar integrando os conhecimentos científico, artístico, desportivo e técnico-profissional, capaz de identificar habilidade, talento, potencial e vocação. A Educação é uma bússola que orienta o caminho, minimiza dúvidas, reduz preocupações e fortalece a capacidade de conquistar oportunidades e autonomia, exercer cidadania e civismo e propiciar convivência social com qualidade, dignidade e segurança. O sucesso depende da autoridade da direção, do valor dado ao professor, do comprometimento da comunidade escolar e das condições oferecidas pelos gestores.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O QUE FICOU DE FORA DA REFORMA DO FIES



QUERO EDUCAÇÃO, o maior startup de Educação do País.



 
  Bernardo de Pádua



O Senado Federal aprovou a Medida Provisória (MP) nº 785/2017, que trata da reforma do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), cuja existência anda ameaçada por falta de recursos. A medida, que segue agora para sanção do presidente Michel Temer, propõe a divisão do Fundo em três modalidades já a partir de 2018.

Na primeira, o FIES oferecerá 100 mil vagas por ano, com juros zero para estudantes com renda familiar mensal per capita de até três salários mínimos. Já na segunda e terceira modalidades, o Fundo oferecerá outras 210 mil vagas para estudantes com renda familiar per capita de até cinco salários mínimos, a juros baixos, tendo como fonte de recursos os fundos constitucionais do Centro-Oeste, Nordeste e do Norte e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Com as mudanças, que incluem ainda novos sistemas para a seleção dos candidatos, o governo espera economizar mais de R$ 300 milhões ao ano.

Além de ampliar a faixa de estudantes beneficiados de 1,5 salário mínimo para até cinco salários mínimos, o novo modelo deve garantir a continuidade e a sustentabilidade do programa, fundamental para o desenvolvimento nacional, já que transfere parte dos riscos envolvidos na concessão do crédito para os bancos e torna mais acessíveis as informações sobre o custo total do curso e as formas de pagamento, como em um financiamento comum.

Ficou de fora da reforma, no entanto, propostas que trouxessem mais poder aos estudantes e reforçassem a responsabilidade do setor privado na inclusão de mais alunos no ensino superior. Hoje, os estudantes que são aprovados para o financiamento pelo FIES são, na maioria das vezes, obrigados a pagar o preço cheio da mensalidade e contraem uma dívida bem maior do que poderiam, caso pudessem negociar o valor de sua mensalidade.

Os contratos do Fies atrelam instituição e aluno desde a sua aprovação e, por isso, não permitem uma negociação de preço com a instituição de ensino ou o pedido de bolsa parcial. O sistema atual também não estimula as instituições privadas a assumirem um papel mais atuante na inclusão dos grupos mais desfavorecidos no ensino superior, algo fundamental para que o País avance mais rapidamente nesse campo. Na minha visão, o FIES deveria ser concedido na forma de uma carta de crédito ao aluno, com "portabilidade" entre as instituições habilitadas no programa. Assim as leis da competição e o livre mercado assegurariam a estes alunos um amplo poder de negociação, superior inclusive à dos alunos que pagam o curso à vista, dado que alunos do FIES possuem taxas de evasão e inadimplência bem mais baixas que os demais.

Oferecer bolsa de estudo e financiar estudantes por meios próprios é uma prática recorrente e histórica dentro das maiores universidades do mundo. Em Harvard, Yale, Cambridge, Oxford e em centenas de outras instituições existem alunos que pagam integralmente o custo do ensino enquanto mais da metade dos alunos obtém bolsas parciais ou integrais. O financiamento estudantil é um complemento, sendo sempre aplicado em cima do valor líquido do curso, após a dedução das bolsas com as quais o aluno foi consagrado.

Diante das limitações orçamentárias para o FIES e para a expansão da rede pública de ensino, o setor privado deve ser estimulado a criar soluções que ampliem a inclusão. Hoje, apenas 16% dos brasileiros com idades entre 25 e 34 anos têm nível superior e mais de 16,5 milhões de estudantes estão prontos para ingressar na faculdade.

Já existem modelos de negócios que usam a tecnologia para beneficiar estudantes que não foram atendidos por universidades públicas e programas oficiais como Fies e Prouni. Há, por exemplo, sites de busca que reúnem ofertas de bolsas de estudos e que já ajudaram milhares de estudantes a ingressar em cursos superiores, mas é possível fazer mais.

É preciso lutar em todas as frentes: maior acesso ao nível superior, combate a evasão, e melhora da qualidade do ensino. Só assim promoveremos mudanças profundas em nossa sociedade e construiremos um futuro melhor para o Brasil.

*Bernardo de Pádua é formado em Engenharia da Computação pelo ITA e CEO da Quero Educação


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA -  É preciso SIM lutar em todas as frentes para garantir um ensino básico e fundamental de melhor qualidade que ensine e conscientize, promova uma cultura de respeito, desenvolva talentos e direcione a criança e o jovem para uma profissão futura, criando condições de escolhas certas no acesso ao nível superior, criar condições para evitar a evasão em todos os níveis, e incentivar o civismo e a cidadania como pilares da uma vida em sociedade. "Só assim promoveremos mudanças profundas em nossa sociedade e construiremos um futuro melhor para o Brasil."

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

ROTINA DE TRÁFICO E CONSUMO DE DROGAS ENTRE ALUNOS


Colégio público tem rotina de tráfico e consumo de drogas entre alunos. Reportagem flagrou, em sete dias, alunos do Colégio Estadual Júlio de Castilhos comprando e fumando maconha em horário de aula no pátio

Por: Jeniffer Gularte
ZERO HORA 21/08/2017



Jovem vende maconha para outro estudante no pátio de tradicional escola da Capital Foto: Mário Jr./RBS TV / Agencia RBS

Um homem com capuz se aproxima de um adolescente e entrega a ele uma porção de maconha. O garoto, de boné e mochila nas costas, permanece com a mão estendida, enquanto recebe outras três frações da droga logo depois. Os dois estão cercados por um grupo de 10 adolescentes, que conversa sob a sombra das árvores. O pagamento é feito com duas notas de dinheiro, imediatamente conferidas pelo traficante. Já esmigalhando a erva, o estudante se afasta para unir-se a um segundo grupo, que o espera. Juntos, preparam o cigarro, que é aceso ali mesmo.

O flagrante de venda e consumo de drogas, comum em parques, praças e ruas de Porto Alegre, ocorreu na manhã de 17 de julho, uma segunda-feira, em horário de aula, no pátio do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, mais tradicional escola pública do Rio Grande do Sul. O uso de droga se dava ao lado do refeitório da instituição que formou líderes e intelectuais como Leonel Brizola, Paixão Côrtes e Moacyr Scliar.

Por não serem perturbados, no interior da escola do bairro Santana, a 400 metros do Palácio da Polícia, alunos parecem estar à vontade para a compra e o consumo de entorpecentes no momento em que deveriam estar na sala de aula.


Os registros da reportagem aconteceram em sete ocasiões, nos dias 13, 14, 17, 18 e 19 de julho e 17 e 18 de agosto, entre 7h30min e 11h30min. Estudantes fumavam maconha e traficantes comercializavam entorpecentes nos fundos da instituição que até o final dos anos 1980 era chamada de ¿escola-padrão¿.


O consumo de drogas entre os estudantes se inicia nas primeiras horas da manhã e não se restringe a um momento do dia. Antes das 8h, adolescentes começam a se reunir no pátio dos fundos da escola. Ficam todo o período de aula conversando, trocando mensagens por celular e consumindo drogas. A rotina não condiz com o que prega uma das regras que consta no site da instituição: ¿O aluno deve permanecer na sala de aula, mesmo na troca de períodos.¿


Às 9h, cachimbo de garrafa pet


O comportamento dos estudantes mostra que não há temor de represália. A maioria não se esconde para o consumo. Na manhã de 19 de julho, ao lado da casa de força, quando os termômetros marcavam 5°C na Capital, três gurias e um guri preparavam um cachimbo feito de garrafa pet. Eram 9h.

Todos ajudavam: um esmigalhava a erva, outro fazia o cigarro artesanal, um terceiro preparava a garrafa e o quarto fumava após acender o fogo. Em cinco minutos, a droga estava pronta para consumo. Outros dois estudantes foram atraídos pela movimentação. Mais de uma vez, o cigarro apagou e eles voltaram a acender. Enquanto fumavam, se abraçavam e faziam selfies sem ser incomodados por nenhum professor ou responsável.

Se a droga não ultrapassa os portões da escola, os alunos a recebem pelos muros. Um pula, e na calçada, outro alcança. Isso acontece tanto pela Avenida Piratini, em frente à instituição, quanto na Avenida Laurindo, em uma das vias laterais. Mas não é preciso esforço para ter acesso às dependências do Julinho.

No último dia de aula antes das férias de julho, a reportagem entrou na escola durante o intervalo, circulou pelas dependências e pelo pátio sem ser abordada. No pátio dos fundos, vários grupos fumavam maconha. Próximos a um dos muros, embaixo de uma árvore, jovens dançavam com música alta ao lado de uma garrafa de vodca vazia. Eram 10h30min.


"A memória imediata do aluno vai para o espaço", diz especialista


O consumo de qualquer droga – incluindo o álcool – compromete a aprendizagem do adolescente e está colocando o desenvolvimento de uma geração em xeque. É o que defende a psiquiatra e coordenadora da equipe de dependência química da Fundação Mario Martins, Isabel Suano.

Segundo ela, as áreas do cérebro de fixação e memória estão em amadurecimento até os 19 anos. Com o uso de entorpecentes, o jovem aprende muito menos do que do que poderia:

– Até esta idade, o cérebro ainda não está pronto e o uso de qualquer substância desse tipo interfere no aprendizado. Para poder aprender, tem que fixar e memorizar. Se ele vai para aula sob uso de droga, a memória imediata dele vai para o espaço. O que ele poderia aprender em dez minutos simplesmente não vai ficar na cabeça dele. Isso sem contar que, nesta fase, o adolescente deveria aprender a lidar com os sentimentos, exercitar a frustração, mas, ao contrário disso, temos uma nova geração que está anestesiada.


Realidade ultrapassa portões do colégio


Para o médico psiquiatra e educador Celso Lopes de Souza, da Universidade Federal Paulista (Unifesp), a situação enfrentada pela escola, com consumo e venda de drogas nas suas dependências, deve ser ponto de partida para reinvenção.

– A escola tem de se refundar. É difícil, mas não é impossível. É preciso mostrar riscos, exemplos claros, com muita realidade e sem ficar dourando nem colocando a droga como o pior bicho do mundo. Têm de ser pensadas medidas para quem está usando e para quem ainda não usou – diz Souza.

O desafio, segundo Souza, é formar jovens preparados para entender que as frustrações são passageiras.

– Para o jovem, fazer o que seu colega está fazendo é muito importante. Porém, precisa saber que pode discordar das ideias sem discordar da pessoa. Quando o jovem percebe isso, é mais fácil dizer não às drogas – diz.

O professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) José Vicente Lima Robaina avalia que o cenário reflete a realidade que ultrapassa as portas da escola: a liberdade sem responsabilidade da qual os jovens desfrutam. Robaina acredita que a maioria dos alunos que não consome deve se fortalecer e agir por meio de campanhas, palestras e discussões.


"Adolescente é futuro novo usuário", diz delegado


Após assistir aos vídeos feitos pelo GDI, o diretor de investigações do Departamento Estadual do Narcotráfico (Denarc), delegado Mario Souza, disse que as imagens não deixam dúvida de que ocorre venda de drogas no pátio da escola.

Segundo o policial, o número de alunos fumando é considerável e, aparentemente, o uso se de maconha é feito de formas diferentes: cigarro, cachimbo e narguilé feito com garrafa pet.

– Temos de nos preocupar. As escolas precisam ser blindadas. Os traficantes vão lá porque veem o futuro do seu negócio.O objetivo do traficante é sempre o jovem, por uma questão econômica, considera o delegado. Por isso as escolas precisam de atenção especial.

Desde 2011, a Polícia Civil atua com a Operação Anjos da Lei no combate ao tráfico e consumo de drogas próximo e dentro de escolas. A ação atua na prevenção, com palestras de conscientização, e na repressão, coibindo comercialização. Em seis anos, foram mais de 800 presos. Em 2017, 46 escolas da Capital foram monitoradas, incluindo o Julinho.


Falta de informação



As escolas de Porto Alegre são as únicas do Estado que não têm representante nas Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar (Cipave), que discutem e orientam ações dentro das instituições.

Das 30 coordenadorias regionais de educação no Estado, apenas a 1ª, que representa as escolas da Capital, não participa do Cipave, que começou os trabalhos em julho de 2015 mas nunca conseguiu alinhar ações com educandários da metrópole. Das 2,5 mil escolas do RS, 2,4 mil já aderiram:

– As que faltam são as de Porto Alegre. Não temos dados, informações e nenhum tipo de mapeamento daqui porque as escolas não respondem nem os formulários que enviamos – afirma a coordenadora estadual do Cipave, Luciane Manfro.

Enviado em junho, um questionário sobre casos de tráfico, posse e uso de drogas foi respondido por apenas 38 das 250 escolas estaduais da Capital.

– Nesse universo, foram registrados 42 casos. Mas essa é uma amostra pequena para falar da realidade.

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DENUNCIE

Telefone — 0800 518 518
Site — pc.rs.gov.br
E-mail — denarc-denuncia@pc.rs.gov.br

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CONTRAPONTO

- O que diz a Secretaria Estadual da Educação - Em abril, a direção do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, esteve reunida com membros do Ministério Público para denunciar a venda de drogas nas imediações da escola. No mês seguinte, um contato foi feito com o Denarc, que ministrou palestras preventivas aos alunos — outros dois encontros do tipo vão ocorrer na escola ainda este ano. Sempre que é detectado o consumo e/ou venda de drogas no entorno da escola, é feita a comunicação às autoridades policiais.
O atual quadro de funcionários da Escola Estadual Júlio de Castilhos conta com cinco monitores, e todos têm, entre suas atribuições, a função de observar o pátio e demais dependências. A 1ª Coordenadoria Regional de Educação (1ª CRE) estuda a necessidade de aumentar a quantidade de profissionais atuando no estabelecimento.

 - O que diz a diretora do Colégio Júlio de Castilhos, Fernanda Gaieski - Diretora do Colégio Júlio de Castilhos, Fernanda Gaieski não reconhece a venda de drogas por alunos, mas admite que a escola já teve denúncias de tráfico e que o consumo de entorpecentes é, sim, uma realidade. Falta de professores e monitores para circular pelo pátio, pouco controle de quem entra e sai na escola são, segundo ela, algumas das dificuldades que a escola enfrenta.

A reportagem fez imagens de uso e venda de drogas dentro do pátio do Julinho. A escola tem conhecimento disso, já teve problemas?Não. Isso, para mim, é uma novidade. Tanto é que todas as inferências que fizemos como direção de escola, os alunos foram encaminhados — os menores para a Polícia Civil e os maiores foram feitos boletins de ocorrência e (eles) foram retirados da escola. Não vejo tráfico de drogas dentro da escola. O Denarc esteve aqui fazendo palestras e vai dar continuidade no segundo semestre. Na investigação do Denarc aqui dentro também não foi visualizada venda ou tráfico na escola. O que estava acontecendo era que alunos estavam trazendo e saíam para comprar drogas no Carandiru (condomínio próximo à instituição) e estavam usando dentro da escola. Já identificamos esses alunos e estamos tomando as providências legais que cabem à escola.

Quando isso ocorreu?Em maio, junho e julho, quando o Denarc esteve aqui. Tivemos a denúncia de que tinha alunos traficando aqui dentro, aí fizemos uma investigação como direção, identificamos os alunos e fizemos o encaminhamento. Quando recebi o delegado do Denarc, ele nos deu todas as alternativas e nos colocou a par de que os alunos pulavam o muro do colégio para comprar droga no Carandiru e voltavam pulando muro de novo, o que a gente não tem como controlar porque o Estado não nos manda monitor para o pátio. O que temos visualizado muito é o tráfico de drogas na praça em frente à escola. O tráfico aqui dentro, para mim, é uma novidade. A questão dos traficantes é muito folclore, tu vais me desculpar. Já virou folclore muito grande a imagem pública do Julinho, de que é visado por traficante. Aqui na escola, não. Isso eu garanto.

Então a senhora acredita que é folclore existir traficantes que são alunos da escola e que vendem droga dentro da escola?Não, estou dizendo que aumentam muito a história porque o Júlio de Castilhos já virou folclore. Não estou dizendo que eles não existam. Posso até ter alunos que esteja trazendo droga. Todos os casos de drogas que identificamos aqui dentro, eram alunos novos do primeiro ano que vieram de outros bairros como Restinga, Partenon e Lomba do Pinheiro.

Tendo em vista essa situação, é necessário monitoramento em tempo integral dos alunos?Estamos o tempo inteiro monitorando. A gente sabe dos grupos que têm. Mas fica difícil: ou a gente monitora alunos ou fizemos o trabalho administrativo da escola. Estamos com 2,2 mil alunos.

Os alunos ficam tempo fora da sala de aula e espalhados nos fundos da escola. É possível controlar quem está "matando" aula?Sim, controlamos e mandamos para aula. Temos esse controle, sim. Agora acabei de chegar do pátio do colégio, tu me pegou no telefone por milagre. Estamos o tempo inteiro circulando no pátio da escola. Mas é como te disse: ou eu circulo no pátio da escola ou eu faço atividade administrativa. E os alunos que identificamos em pontos que sejam locais de provável uso de droga, estamos convocando os pais.

Quantos monitores para o pátio a senhora acha que seriam necessários?Pedi um monitor de pátio. Mas eu não tenho. Nosso problema é as pessoas que pulam o muro. Antes de sairmos de férias nós identificávamos que, todos os dias, pessoas de fora pulavam para dentro da escola. Até que ponto é um aluno do Júlio de Castilho que está trazendo droga? Aqui dentro tem muitos alunos (das escolas) do Inácio Montanha, Idelfolso Gomes, Luciana de Abreu, Protásio Alves e Emílio Massot.

O acesso a escola é realmente fácil. Um dia consegui entrar na escola, pela porta da frente e ninguém perguntou quem eu era.Quem abriu a porta para ti?

A porta estava aberta.A porta não deveria estar aberta, começa por aí. Mas é bom saber. Quando entra alguém, o porteiro deve identificar essa pessoa e direcioná-la para onde ela quer ir. Existe essa falha também. Sabe como é: alguns servidores públicos em determinados momentos. Ele (porteiro) deveria ter lhe parado, aberto a porta e perguntar onde a senhora iria. E não ter deixado entrar. Não autorizamos nem que os pais subam e vão na sala de aula dos filhos.

Esse episódio dá a entender que se eu entrei, qualquer outra pessoa entra também.Com certeza.

Os alunos ficam sem um ou dois períodos de aula, não há monitores no pátio, como vocês controlam eles?A gente controla como pode controlar, também não posso fazer milagre. Não posso transformar água em vinho. Não sou Cristo.

Como os alunos reagem quando são flagrados?É muito difícil. Não posso revistar o aluno, não posso tocar nele, não posso fazer nada, senão serei processada. Nem olhar a mochila. A gente vai muito do bom senso do aluno. Os casos que peguei eu vi que eles estavam usando droga porque cheguei na hora do uso da droga e pedi que me acompanhassem até minha sala. Se não menores de idade, comunico os pais.

Vi uma garrafa de vodca sendo consumida por alunos.O que identificamos, pegamos, recolhemos. Quando vejo os alunos com copos de café, peço pra ver e cheirar o que tem dentro. Mas eles podem não me deixar cheirar. O mesmo com garrafa de chimarrão

terça-feira, 1 de agosto de 2017

PEDAGOGIA MILITAR

Resultado de imagem para ação civico social das forças armadas brasileiras nas escolas


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA -
Quem não conhece as ações cívico-sociais implementadas pelas Forças Armadas em época de PAZ, não conhece a força institucional das Forças Armadas quando ela assume seu papel de protagonismo social numa Democracia, num  Estado Democrático de Direito. Mesmo nas guerra, estas ações cívico-sociais determinam vitórias e conquista de coração e mentes pela força solidária que carrega. É falacioso e preconceituoso afirmar que militares representam o horror da guerra e que só pensam em guerra, extermínio e inimigo. Não, os militares pensam, se preparam e se estruturam para a paz de olho nas ameaças à PAZ. A disciplina, o espírito de corpo, a preparação espartana, a virtude da solidariedade, o planejamento, a busca por metas, o civismo e o patriotismo, inerentes aos militares, são matérias importantes para jovens e adultos cidadãos comprometidos com o sucesso pessoal, com a família, com os interesses da comunidade e com a nação.


ZERO HORA 29 de Julho de 2017
 


PROA. HISTORIADOR CONTESTA PROJETO DESENVOLVIDO PELO COMANDO MILITAR DO SUL E PELA SECRETARIA ESTADUAL DA EDUCAÇÃO, QUE PRETENDEM IMPLEMENTAR ATIVIDADES DAS FORÇAS ARMADAS NAS ESCOLAS GAÚCHAS



É preciso aprofundar o debate sobre o projeto Exército Vai às Escolas, lançado pela Secretaria Estadual da Educação (leia mais no quadro abaixo). Para mim, trata-se de questionar o motivo da iniciativa: que tipo de educação os militares querem levar para as escolas neste momento?

O Exército já vinha dando pistas de que algo está ocorrendo. No blog do Exército (sim, há um), o coronel Alessandro Visacro afirma que ?transformações na conduta da guerra são, antes de tudo, decorrentes de transformações sociais? e defende um ?ambiente estratégico do futuro? que permita às instituições militares ?expandir seu repertório de missões para fazer frente a complexas e difusas ameaças?. A que ameaças ele se refere?

O que ocorre é que o Exército está abandonando a concepção de guerra como conflito entre países para substituí-la pela ideia de enfrentamento das ?pequenas guerras?, contra atores armados não estatais, ?como, por exemplo, bandoleiros, salteadores, guerrilheiros, insurretos e terroristas (que) sempre fizeram parte da história?. Frente às situações de conflito interno, a entrada dos militares na escola sugere a tentativa de inculcar a mentalidade de defesa na juventude. Por essa razão, o Exército vem promovendo a criação de fóruns de debate para professores, alunos, servidores e servidores públicos sobre temas como a defesa e a segurança nacional. E fala, desde 2015, na criação de uma Universidade de Defesa Nacional.

Se a logística é o início da economia de guerra, o projeto Exército Vai às Escolas é sua pedagogia ? uma nova forma de comunicação entre civis e militares. Se, na instalação da economia de guerra, o discurso político e a economia dissolvem-se, suplantados pela estratégia, na instalação da pedagogia de guerra o discurso pedagógico se dissolve na estratégia militar.

Se logística, segundo Eisenhower, é ?o procedimento segundo o qual o potencial de uma nação é transferido para as suas forças armadas, tanto em tempos de paz como de guerra?, qual o potencial maior de uma nação do que os jovens? ?Sem o saber, já somos todos soldados civis. E alguns de nós sabem disso. O golpe de sorte, para o terrorismo da classe militar, é que ninguém o reconhece. As pessoas não reconhecem a parte militarizada de sua identidade, de sua consciência?, diz o filósofo Paul Virilio. É esse o projeto: militarizar a consciência dos jovens.

Mas isso tem um efeito colateral: o de considerar a racionalidade unicamente a partir de sua eficiência, espécie de ?inteligência desenfreada cuja ausência de limites provém da tecnologia, da ciência?, conforme Virilio. Ou seja, trata-se de outra forma de reforçar a instalação de uma mentalidade neoliberal na juventude.

Agora, a guerra não é mais a política por outros meios ? é a pedagogia por outros meios. O que é novo? O exército já enfrenta situações de guerra sem guerra com sua participação nas grandes cidades. Agora, volta sua atenção aos movimentos sociais. A impressão que dá é que os militares estão indo às escolas para evitar a guerra política, antecipar-se a ela, prevenir-se antes do surgimento de conflitos. Ainda que possam dar aulas, o problema é que, se permitirmos que os militares interfiram na escola, eles poderão fazer isso em qualquer lugar.

A iniciativa é lançada no mesmo momento em que impera a lei antiterrorismo, que dá amplo poder ao Estado na repressão dos movimentos sociais. Se muitos desses movimentos são protagonizados por jovens, é de se perguntar que tipo de Corte superior poderá impedir que o Estado faça atos de guerra sem guerra contra a juventude. Ao que parece, o acesso dos militares às salas de aula serve para colocar as novas regras do jogo para os jovens.

A colaboração do Exército com as escolas nunca é inocente. Ela expressa a mutação das condições de exercício do poder pelo Estado sobre suas instituições de guerra em situações de paz. Não são as palestras sobre a pátria que me assustam; é, isso sim, a possibilidade de nossos novos professores militares insistirem com os alunos em certa pedagogia, de que devem manter um olhar constante sobre um suposto inimigo a partir da sala de aula. Ensinaremos nossas crianças a ?ver tudo o tempo todo?? Ensinaremos o princípio do arquivamento total com a sugestão de uso de celulares para a gravação de tudo o que for considerado suspeito? Temo que a inclusão da escola responda a um processo de substituição de uma ?guerra global contra o terror? por uma ?guerra local contra o terror? ? não a guerra para sempre, mas a guerra por toda a parte, que transforma o mundo inteiro num campo de batalha, lembrando o raciocínio de Bertrand Chamayou.

Não é o que ocorre com a iniciativa do Comando Militar do Sul, de que as salas de aula são também parte da estratégia militar, e que isso só pode ser feito exercendo um poder invasivo, que a classe militar se arroga para si, de ir onde queira, passando, inclusive, por cima da soberania da escola?

Já vemos as escolas de periferia como zonas de conflito armado. Amanhã, drones estarão nessas escolas exercendo vigilância. Por que essas instituições se tornaram alvos militares? Porque as zonas de combate, para os militares, são extensíveis ao infinito. A visão oculta no projeto é de que a escola é um campo de batalha, e o futuro imaginado pelos militares é aquele no qual alunos denunciam a existência de atividades subversivas ? no grêmio estudantil, entre os professores etc. ? visando a autorizar o uso da força militar baseada na lei antiterrorismo, agora, na escola. Estudantes cooptados pela direita já não filmam aulas de professores de esquerda para denunciá-los junto ao movimento Escola Sem Partido? Não precisa ir tão longe: é só mostrar ao militar de plantão.

Os militares dizem falar em nome da paz, mas sua farda está ali para lembrar-nos do horror da guerra. Os tanques exercem sedução sobre os jovens: apresentam o militar de forma suave, como se fosse algo lúdico, alimentando-se do desejo de invulnerabilidade juvenil. Mas a escola é justamente o lugar de ensinar a esse jovem que ele precisa... ter limites.

Os militares deixaram de ir à escola para difundir o ethos militar tradicional; agora seu desejo secreto é ir à escola para exercer controle numa eventual situação de guerra interna. Não podemos esquecer que, desde 2013, são os jovens que têm ido às ruas, ocupado as avenidas e, de certa forma, constituindo-se como força subversiva. O projeto Exército Vai às Escolas é mais do que uma forma de conquista das suas consciências pelos militares: é sua luta para estabelecer as bases para um novo campo de batalha.


JORGE BARCELLOS

OS GOVERNOS ESTÃO AUSENTES NA QUESTÃO DA VIOLÊNCIA?

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ZERO HORA 29 de Julho de 2017 . CAPA


LAURO ALVES


ENTREVISTA: Marlova Jovchelovitch Noleto, coordenadora da área de ciências humanas e sociais e representante interina do escritório da Unesco no Brasil


A Unesco tem acompanhado as situações de violência em escolas do Rio Grande do Sul?

Vi ações em governos anteriores (entre 2003 e 2011), quando tinha um comitê estadual de prevenção da violência. Fizemos o Escola Aberta, tivemos alguns programas com a prefeitura de Porto Alegre, e agora a Unesco voltou a falar com o prefeito Nelson Marchezan.

O que a Unesco entende por violência na escola?

Vai desde o entorno até a escola propriamente dita e engloba não só a violência física, mas também a psicológica, o abuso verbal, a violência sexual, o assédio, o bullying e o cyberbullying. É um tema complexo para não ser abordado nas suas múltiplas facetas. Noto ausência completa dos governos na questão da violência na escola.

Três casos recentes chamaram a atenção. Quando uma aluna de 15 anos foi assassinada, professores de uma escola de Porto Alegre disseram que nada tinham a ver com a vida dela e que os alunos estão acostumados à violência. O segundo episódio foi em escola vandalizada por alunos após episódios de violência no entorno. Professores queriam resolver o problema com cerca elétrica e vigilância. O último caso foi a morte de Marta. Como avalia o posicionamento das escolas?

Não resta dúvida, pelos três casos que acabaste de me descrever, que é fundamental trabalhar ações de políticas de prevenção à violência. Nós estamos falando de uma menina assassinada, aliás, de duas. Se tu olhares para o Brasil, esse cenário se repete em todos os Estados. Isso que estás descrevendo, que os professores parecem inertes, representa também uma banalização das situações de violência. Ninguém deve se acostumar com a violência. A escola precisa ser um lugar seguro e protegido para que a educação prospere.

Os professores estão despreparados para lidar com a violência?


Eu acho que não podemos generalizar. O que se vê é pouco investimento na capacitação. Em alguns programas que a Unesco desenvolveu em parceria com o MEC, houve investimento, inclusive em Porto Alegre. Mas não teve continuidade, e sabemos que esses programas precisam ser permanentes. Estamos trabalhando com a Secretaria de Educação Continuada (órgão ligado ao MEC) para desenhar um novo programa de prevenção, que será lançado até o final do ano.

O bullying mata. Apenas dois dias de aula no início do ano letivo bastaram para a intriga entre duas adolescentes terminar em uma tragédia que marcou a comunidade de Cachoeirinha, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Marta Avelhaneda Gonçalves, 14 anos, nova na Escola Estadual de Ensino Básico Luiz de Camões, morreu após se envolver em uma briga com outra colega mais jovem, de apenas 12 anos, dentro da sala de aula. A agressão física foi consequência das provocações verbais iniciadas na véspera.

Intimidações, humilhações e ridicularizações entre alunos são frequentes em colégios, sejam públicos ou privados. Na falta de dados recentes e detalhados sobre bullying escolar, o que serve de termômetro, nas unidades estaduais, é o trabalho da Comissão Interna de Prevenção a Acidentes e Violência Escolar (Cipave). A comissão foi criada por lei em 2012, mas só saiu do papel em 2015, quando uma professora e policial civil de carreira vislumbrou o potencial do projeto e decidiu colocá-lo em prática. Luciane Manfro implantou o programa em 2,3 mil das 2,5 mil escolas. Nomeou comissões regionais, conquistou a parceria de 30 instituições, como a Polícia Civil, o Conselho Tutelar e o Ministério Público, cujos especialistas compartilham conhecimento com os alunos, lançou um site (cipave.rs.gov.br) e desenvolveu apostilas de suporte. Um software projetado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) será aplicado por uma empresa especializada em pesquisa até o final do ano, para qualificar a coleta de dados. Até um mascote foi criado para auxiliar na divulgação: uma centopeia que representa a união de esforços.

? Eu acredito no que faço e que é possível mudar a realidade de uma escola. Para isso, é preciso envolvimento da equipe diretiva, dos professores, dos pais e da comunidade. A escola é de todo mundo, não só de quem trabalha nela. Mas o diretor é a alma da escola, ele tem de saber a parte de pedagogia, entender de recursos humanos, financeiros e precisa de inteligência emocional para saber lidar com as diferenças, coisa que os cursos de licenciatura não estão dando. O que é preocupante ? sublinha Luciane.

Ela instituiu o levantamento de dados no ano passado. Um questionário foi respondido pelas diretoras no início de cada semestre. A pesquisa sinalizou que o bullying é a violência mais difícil de combater. Se as provocações verbais não forem interrompidas, alerta Luciane, podem culminar em agressões físicas, como ocorreu com Marta na escola de Cachoeirinha.

? Não tem como prevenir a morte em uma agressão física, o que a gente tem que fazer é evitar que se chegue na agressão. Quando a escola aprende a trabalhar isso por meio do diálogo, diminui esse tipo de conflito ? afirma.

Como nem todas as escolas responderam ao questionário nos dois semestres e a estatística é feita manualmente por Luciane, a coordenadora optou por limitar-se a uma amostragem de cem escolas aleatórias do Interior. O relatório constatou que as ocorrências de bullying cresceram 40% de um semestre para o outro (de 74 para 104). Em Porto Alegre, onde, segundo Luciane, a resistência dos diretores em participar do programa é acentuada, principalmente nas escolas mais vulneráveis, o índice aumentou 150% (de 30 para 75). O dado da Capital é um recorte de 20 das 91 unidades que estão no projeto. Não significa necessariamente um aumento nos relatos, mas, talvez, reflita o aprimoramento dos profissionais em identificar as ocorrências.

Como o bullying costuma acontecer no horário do recreio, quando as crianças e os adolescentes estão sem a supervisão de um adulto, algumas escolas já estão desenvolvendo atividades que chamem a atenção dos alunos com brincadeiras, músicas e peças de teatro. Falar sobre o assunto e mostrar que o bullying pode estar atrelado a crimes como racismo, homofobia, ameaça e difamação é outra forma de conscientizá-los.

? Professores e monitores não percebem o bullying porque os alunos, já sabendo que aquilo não é legal, o praticam de forma velada ? comenta Luciane.

A morte de Marta foi a consequência mais grave registrada recentemente em escolas do Estado. No dia em que a adolescente completaria 15 anos, em 21 de junho, uma manifestação marcada para ocorrer diante do colégio foi substituída por uma visita ao túmulo. Foi a primeira vez que a mãe, Teresinha Avelhaneda, 43 anos, voltou ao cemitério. Em seu perfil do Facebook, ela deixou uma mensagem: ?Foi dos dias mais tristes da minha vida. Poderia estar comemorando os 15 anos da minha princesa. Só que ao invés de dar o anel (de aniversário) para ela, levei flores no cemitério. Será que existe coisa mais triste do que isso para uma mãe??.

 

terça-feira, 14 de março de 2017

CULTURA DE PAZ



ZERO HORA - 14 de março de 2017 | N° 18792



EDITORIAIS





Aabsurda morte de uma adolescente no interior de uma escola de Cachoeirinha, decorrente de uma briga com colegas, torna impositiva e inadiável a implantação de uma cultura de paz nas redes de ensino do Estado. Não é possível que crianças e adolescentes estejam expostos a tais riscos no horário escolar, quando as famílias os consideram em segurança. Brigas entre estudantes no interior das escolas são inadmissíveis, não podem ser toleradas.

As direções das escolas têm o dever de envolver as comunidades nas quais as instituições de ensino estão localizadas para colocar em prática projetos de cultura de paz e sistemas preventivos que evitem riscos de qualquer espécie para os alunos. O ambiente escolar precisa ser visto como um lugar de convívio não apenas com vistas ao futuro profissional dos alunos, mas também para a sua formação como cidadãos.

Mas é preciso ficar claro que a responsabilidade maior não é da escola. O problema central, revelado por esse caso específico, são a degradação de valores e a perda de referências na educação familiar. Num cenário de crise como o enfrentado pelo país, com famílias desestruturadas e seus integrantes mais preocupados com a sobrevivência financeira, essa é uma questão que precisa ser mais debatida no ambiente de aprendizado, envolvendo tanto educadores quanto alunos e familiares.

O diálogo franco e a incorporação do tema da violência como parte dos conteúdos ministrados em classe precisam ser intensificados como prevenção contra agressões entre alunos. As escolas não podem permitir que a violência em torno delas contamine um espaço nobre como o do saber.

domingo, 29 de janeiro de 2017

EDUCAÇÃO DESPORTIVA, DESCASO E IGNORANCIA









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Jorge Bengochea

















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Resultado de imagem para CRIANÇAS POBRES JOGANDO TENIS


Lula diz que tênis é 'esporte de burguês' e irrita ex-atletas. Declaração do presidente foi divulgada em um vídeo no You Tube. Para Meligeni, presidente deve desculpas

Por GLOBOESPORTE.COM Rio de Janeiro 08/08/2010



Uma declaração dada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva revoltou ex-tenistas como Fernando Meligeni e Vanessa Menga. Durante a inauguração de um projeto social na Favela da Maré, no Rio, um garoto da comunidade disse ao presidente que gostaria de praticar tênis. Lula respondeu dizendo que ele deveria tentar a natação e que tênis era um "esporte de burguês". O vídeo com a conversa do garoto com o presidente parou no YouTube.

No twitter, Fernando Meligeni foi o primeiro a criticar o presidente.

- Sei que vai repercutir. Mas que baita declaração infeliz do nosso presidente. Tenis é de burguesia? Deprimente declaração. Depois, quando os burgueses vencem torneios, eles politicos não acham isso e querem sair na foto do lado. Alem não deixar um menino ir atrás da sua vontade e sonho, ele diz para mudar de esporte. DEPRIMENTE exemplo. Deixe o menino sonhar. Muitos meninos que não são burgueses venceram no tenis. Guga não era rico. O pai do Oncins era cabelereiro. Querem mais? Acho que ele deve um pedido de desculpas aos tenistas. Sei que é nosso presidente e lhe devo o maior respeito. Mas ele pisou na bola.

Vanessa Menga, que tem um projeto social de tênis em Santa Catarina, também mostrou irritação.

- Olha que absurdo! Aí quando a gente ganha uma medalha eles colocam a gente pra andar de carro de bombeiro. É para deixar qualquer um de mal humor com essa declaração! Será que ele quer que eu enterre meu instituto e pare com os projetos sociais? Só pode ser isso que ele quer! Se ele soubesse quantos meninos e meninas temos jogando tão bem e alcançando seus sonhos! Me irritei!

Até o levantador Bruninho, da seleção brasileira de vôlei, apoiou os tenistas.

- Fininho mandou bem no desabafo! O presidente mandou malzão! É uma pena mesmo! Conheço projetos no Rio (na Lagoa) com criancas da favela. Vários que acabam jogando o circuito lá no rio. Mas ele mostrou muita ignorância! O que Guga, você (Meligeni) e o Oncins fizeram pra crescer o esporte e despertaram o sonho de tantas criancas de um dia serem tenistas! Qualquer tipo de crianca! Seja pobre ou rica!




quarta-feira, 27 de julho de 2016

QUEM VALE MAIS, DEPUTADO OU PROFESSOR?



ZERO HORA 27 de julho de 2016 | N° 18592


GILBERTO SCHWARTSMANN*




O bom político merece remuneração condizente. Mas quem assiste às sessões da Câmara dos Deputados não tem dúvida quanto à má qualidade de muitos deles. Falta-lhes preparo para o exercício do cargo. Têm baixa escolaridade. Pouca cultura. Alguns são réus ou condenados em processos por fraude ou corrupção.

Posso errar o cálculo, mas será por pouco. Cada um dos nobres deputados federais custa ao erário cerca de R$ 170 mil por mês. Isto mesmo. Façamos a conta. São R$ 34 mil por mês de salário, uns R$ 90 mil para cargos em comissão e R$ 45 mil para auxílio-moradia, alimentação, aluguel de carro etc.

Em resumo: o Brasil gasta mais de R$ 1 bilhão por ano com os 513 deputados federais. E cada deputado tem ainda direito ao ressarcimento de gastos médicos e outros serviços. Há ainda despesas com carros oficiais, em número de 11, para presidente, vice, presidente do conselho de ética, ouvidor e outros.

Os senadores da República custam até mais. Somados, deputados federais e senadores consomem mais de R$ 2 bilhões por ano de nosso dinheiro. Congresso caro, não? A título de comparação, tomemos apenas (apenas?) os R$ 34 mil que os deputados federais recebem de salário. Como esses valores se comparam aos salários dos professores?

Por que os professores? Muito simples. Os professores desempenham uma função essencial ao país. Sem ensino de qualidade, nunca teremos um país justo e desenvolvido. Na maioria das capitais brasileiras, o governo paga ao professor do Ensino Médio entre R$ 2 mil e R$ 3 mil mensais. No topo da pirâmide do Ensino Superior, o professor universitário titular de instituições federais, com dedicação exclusiva, recebe entre R$ 6 mil e R$ 17 mil.

Portanto, os deputados federais recebem salário 11 a 17 vezes maior do que o de um professor do Ensino Médio e duas a seis vezes maior do que o do professor universitário no ponto máximo da carreira.

Na comparação de custos totais ao erário, ou seja, salário mais extras, individualmente, é abismal a diferença no investimento público com professores e políticos. O professor do Ensino Médio custa 56 a 85 vezes menos ao Estado do que o deputado federal. E o professor titular, no ponto máximo da carreira universitária, 10 a 28 vezes menos.

No Brasil de Temer, não há o menor sinal de corte nos privilégios da classe política. Tampouco há evidência de uma maior valorização dos professores, por mais modesta que seja. Pelo andar da carruagem, o Congresso continuará incompetente e recebendo a peso de ouro. E o professor continuará mal pago e sem o menor reconhecimento. Mas não deixará de ensinar.

*Médico e professor

sexta-feira, 24 de junho de 2016

DESORDEIROS PRECOCES OU MILITANTE JUVENIL




ZERO HORA 24 de junho de 2016 | N° 18564. 
ARTIGOS


POR LUIZ CARLOS DA CUNHA*


DESORDEIROS PRECOCES OU AUTORIDADES INFANTIS


Assistimos nestes tempos tumultuados à irracionalidade avassaladora estrangular o bom senso. Escolas são invadidas por garotos, bloqueando colegas dispostos a frequentar as salas de aprendizado, desassistidos por seus pais, responsáveis legais por seus filhos, sob a inépcia das autoridades. Tanto as autoridades adstritas a educação e ensino, como as jurídicas focadas na infância. A tibieza das autoridades vem de longe, passo a passo, palmilhando a rota descensional da tolerância ao erro e ao crime. O secretário da Educação, ao invés de chamar os rebelados para debaterem pleitos em seu gabinete – o átrio legal de sua autoridade –, vai ao encontro dos invasores, parolar na escola violentada, dilapidada, agredida na postura acovardada de um refém. Consolida assim sua fragilidade perante a lei, ao mesmo tempo que alimenta os jovens na crença do desrespeito à ordem, à disciplina, aos princípios formadores da democracia. Constroem na atmosfera delinquente a inversão tolerada e estimulada dos valores legais e democráticos no rumo catastrófico da falta de limites.

Cabe aos adultos instruir as crianças, igual a outras espécies, na prática educativa e protetora dos limites necessariamente impostos aos filhotes em defesa da vida e integridade física; o Homo sapiens inclui os limites de ação prejudicial ao semelhante, à coletividade, na expressão peculiar e humana da moral. A consciência social. Impõe-se ao poder público e educacional a convocação dos pais e responsáveis pelos menores invasores da propriedade comunitária, esteada no juizado da infância e da juventude e no dever administrativo imposto pela Constituição.

Ou incute-se o império da lei, ou destrambelha-se o país pela dissolução social. Não há meios-termos a decidir. Flagramos um paradoxo irreprimível: uma infância precocemente revigorada no desrespeito à convivência social, por aqueles adultos, pais ou eleitos para o exercício da autoridade, anestesiados pelo infantilismo, irmanados na construção do desastre nacional.

*Escritor



POR FERNANDO FONTOURA*


OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER

O movimento estudantil protagonizou páginas heroicas ao longo da história de nosso povo. Inclusive, pode-se afirmar que a história do movimento estudantil confunde-se com a própria história das lutas populares no Brasil. E, obviamente, neste cenário de crise econômica e política, em tempo de golpe contra o Brasil, a estudantada se levanta, principalmente porque o golpe é também contra a educação.

E, no Rio Grande do Sul, a galera não fez feio! Ocupamos nossas escolas, fizemos diversas aulas e atividades, consertamos os problemas de nossos colégios abandonados, pintamos, arrumamos tudo, e ainda tivemos que resistir contra a voracidade reacionária daqueles estúpidos que quiseram nos expulsar à força, curiosamente os mesmos que querem uma escola que não tenha aula de história, geografia e demais ciências sociais, pois é isso mesmo que querem os que defendem o fascista projeto da “escola sem partido” (PL 190), que também são os mesmos que defendem a privatização da educação e demais serviços públicos (PL 44).

Porém, para choro deles, a gente venceu a surdez do governo Sartori quando tivemos a coragem de ocupar a Assembleia Legislativa do RS. E essa ocupação histórica garantiu R$ 40 milhões em repasse às escolas (antes o governo dizia não ter dinheiro), uma comissão estudantil fiscalizadora, a suspensão da tramitação do PL 44 neste ano e a configuração da vitória sobre o fascista PL 190, já que o mesmo está ridicularizado entre os deputados estaduais. Agora, é retomar as grandes mobilizações nas ruas para garantir o cumprimento da negociação feita com o governo Sartori, pois ele não costuma honrar o fio de seu volumoso bigode.

O comandante Carlos Marighella nos ensinou que é preciso ousar lutar, que é preciso ousar vencer. Hoje, a gurizada de luta aprendeu que, além da ousadia tão necessária, é preciso saber lutar e saber vencer também. Afinal, a guerra é feita de batalhas. E vencemos uma importante batalha contra o “sartorão”, agora precisamos avançar nas ruas pela vitória final. Porque ainda acreditamos que um dia a educação será realmente uma educação necessária ao Brasil e seu povo, será realmente uma educação popular.

*Estudante que ocupou sua escola (Escola Técnica Estadual Irmão Pedro), diretor da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes)

sexta-feira, 20 de maio de 2016

ESCOLAS: OCUPAI!




ZERO HORA 20 de maio de 2016 | N° 18530


DELMAR BERTUOL*



Os grandes feitos da humanidade, artística, tecnológica e cientificamente, foram conquistados com transgressões. Nicolau Copérnico teve que enfrentar a ira de Deus, representada pela tardia Inquisição, pra provar que a Terra é redonda e que, por isso, não pode haver um único centro nela, tirando protagonismo divino. As melhores composições musicais e teatrais foram construídas a partir duma crítica social que, não raro, sofria perseguições e censuras dos governos respectivos. Construção, de Chico Buarque, faz parte de seu álbum O Político, censurado no Brasil pela ditadura militar – a mesma que alguns nostálgicos desvivenciados querem trazer de volta.

A transgressão é um pré- requisito pro sucesso. Só transpondo o estabelecido, os paradigmas, é que se consegue êxito em algo. Os limites existem pra serem transpassados. O status quo vigente só tem uma função, a de ser ininterruptamente desobedecido. Aliás, o status quo é tão obsoleto, que ainda se escreve em latim. Algo que ainda é escrito em latim, definitivamente, não deve ser obedecido.

Não defendo que todos têm que saber de cor o Código Civil, o Código Penal e a Constituição, só pra fazerem exatamente ao contrário. Mas um pouco de transgressão é salutar.

Leio que estudantes da rede estadual de ensino básico estão invadindo escolas. Eles acamparam e impedem o prosseguimento das aulas. Obrigam os professores a aderirem à greve. Colam cartazes no muro e gritam palavras de ordem. Um absurdo. Invasão de propriedade. Delito grave. Uma transgressão.

Os alunos fizeram suas as reivindicações dos professores. Os delinquentezinhos alegam que não é justo os professores ganharem tão pouco pra lhes aguentar a indisciplina cada vez mais frequente e ainda lhes ensinar. Alguns grupos mais ousados reclamam que não há papel higiênico nos banheiros e que as salas estão em péssimas condições. Os atrevidos resolveram pintar e limpar o pátio dos educandários, em regime de mutirão. Um horror antipedagógico. Os jovens devem saber sobre o Complexo de Golgi, e não sobre cooperativismo comunitário.

Fosse na época da ditadura, eles teriam seis meses de aula de Educação Moral e Cívica – tão útil – e cantariam o Hino Nacional em posição de sentido antes de dar o sinal, só pra aprenderem a ter amor à pátria.

Eu não sei o que meus colegas da rede estadual estão ensinando aos nossos alunos. Será que já não se decora a tabuada e se elenca o nome dos Estados e suas respectivas capitais pra ser cobrado na prova? Esses alunos estão contestando o status quo, que eles nem sabem o que é, pois se aprende diversidade linguística em detrimento do latim, pelo visto.

Esses transgressores são perigosos. Pensam demais. Não demora, quererão ser artistas. Era só o que faltava.

*Professor

OCUPAR OU INVADIR?




ZERO HORA - 20 de maio de 2016 | N° 18530


GILBERTO STÜRMER*



Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. A velha lei de Newton é um dos primeiros tópicos que as crianças estudam nas aulas de Física, no colégio. Claro que se trata de uma figuração, não se discutindo aqui questões científicas sobre a matéria e o tema. Neste contexto, e por outro lado, propriedade é o direito real que dá a uma pessoa a posse de uma coisa. Posse, por sua vez, é o fato de possuir ou reter alguma coisa. Os conceitos aqui referidos, em função do espaço reduzido, são básicos. Por que as referências sobre ocupação, propriedade e posse? Explico. É que já faz algum tempo, a expressão “ocupação” ganhou de parte da mídia e de algumas pessoas públicas uma definição imprópria e infeliz. Se tornou lugar-comum chamar de “ocupação” atos em que desordeiros, baderneiros, desocupados e até facínoras de toda espécie, muitos autodenominados “movimentos sociais”, invadem propriedades, escolas, ou quaisquer outros bens que já têm proprietários, posseiros e ocupantes. Os criminosos bloqueios de ruas e estradas se enquadram nesse infeliz contexto. Ninguém ocupa o que já está ocupado. Na verdade, esta é uma figuração infeliz para amenizar o grave ato de desobediência constitucional e civil, não raro instigados por pessoas públicas que deveriam estar focadas em questões como a paz social, a violência que assola nossos dias, a saúde, a educação, a ordem e a segurança jurídica.

O poder público, especialmente o Executivo em todas as suas esferas (federal, estadual e municipal), que jurou defender a Constituição e a lei, deve reprimir com rigor esta barbárie que infelizmente está se tornando comum e corriqueira em um país onde, também por essas razões, os direitos, especialmente o de propriedade, são constantemente desrespeitados. A sociedade ordeira e trabalhadora espera que os novos ares de liberdade e respeito que o país respira levem as autoridades a agir com rigor para que esses atos sejam, de uma vez por todas, expurgados da nossa vida. Definitivamente, bloqueio de propriedades privadas, escolas, repartições e vias públicas não é ocupação. É invasão!

*Advogado e professor universitário

quinta-feira, 3 de março de 2016

AVANÇA A PÁTRIA DESEDUCADORA



ZERO HORA 03 de março de 2016 | N° 18463


JOCELIN AZAMBUJA*




Temos visto tristemente que o Brasil só vai bem na educação em programas de publicidade governamental. Como utilizar o slogan “Pátria Educadora” quando o quadro educacional brasileiro só se agrava?

O último levantamento internacional apontou que o Brasil está entre os 10 piores do ranking na avaliação da educação em conhecimento de matemática, ciências e leitura. A toda hora, novos dados revelam essa triste realidade.

Para completar, neste ano, mais uma vez o governo federal faz cortes no orçamento da educação, em R$ 1,5 bilhão. Assim, todos os programas educacionais ficam comprometidos. Nos Estados e municípios, com honrosas exceções, não é diferente.

Essa posição internacional vergonhosa tem a contribuição de todos os entes. O RS não é diferente, poderíamos até dizer que avançamos nos ensinos Fundamental e Médio em termos de permanência e conclusão dos estudos aos 16 e 19 anos, respectivamente, mas sabemos que isto tem mais a ver com a progressão continuada (não reprovação) do que com a melhora da qualidade. Mesmo assim, nosso Estado é o último da Região Sul.

O governo federal e alguns estaduais que compõem sua base partidária defendem o slogan mesmo sabendo que é só marketing, pois a educação não avançará sem gestão eficiente, salários dignos aos professores, escolas qualificadas. Enfim, uma série de atributos fundamentais.

A repercussão dessa realidade se dá especialmente no ensino básico, como se viu no último estudo divulgado sobre alfabetização: entre analfabetos e analfabetos funcionais, temos cerca de 31% dos brasileiros (60 milhões) e, dos restantes 69%, apenas 8% com condições de ler e interpretar qualquer texto.

Por essas e outras razões, é que temos na verdade uma Pátria Deseducadora, que não ama e não sabe cuidar de suas crianças e adolescentes. São gerações prejudicadas e o futuro dos jovens totalmente comprometido.

Precisamos de uma vez tomar consciência dessa realidade, sair do marketing político educacional para a prática de investimentos, gestão e pedagogia necessárias à transformação da educação.

*Advogado

domingo, 17 de janeiro de 2016

TOTALITARISMO ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO,


ZERO HORA 17 de janeiro de 2016 | N° 18417


PERCIVAL PUGGINA*



A burocracia do MEC está com pé no estribo para cavalgar de vez a educação brasileira. Refiro-me ao uso extensivo e abusivo daquilo que a Constituição determina: fixação de “conteúdos mínimos” para o Ensino Fundamental. No recentemente aprovado Plano Nacional de Educação (2014-2024), foi inserido um negócio chamado Base Nacional Comum Curricular (BNC) e, obviamente, coube ao MEC, povoado de companheiros, realizar a frutuosa tarefa. O ministério reuniu 116 especialistas de 35 universidades e produziu um calhamaço que, neste momento, está “aberto” a sugestões da sociedade. Ora, a sociedade nem sabe o que está acontecendo. E o que está acontecendo é gravíssimo! Aquilo que, na perspectiva do constituinte de 1988, deveria ser um conjunto de conteúdos, converteu-se num manual para homogeneizar cabeças e tornar hegemônica, no ambiente escolar, a ideologia que, há tempos, grassa e desgraça a educação brasileira.

O MEC informa que a BNC englobará 60% dos objetivos impostos aos ensinos Fundamental e Médio. E adverte: ela dialoga com o Enem. Sim, e como! Se o currículo obrigatório “dialoga” com o Enem (petistas adoram essa metonímia), escola alguma, pública ou privada, vai ensinar diferente, ou sob perspectiva diversa. Se o fizer, seus alunos desconhecerão as respostas que o Estado brasileiro quer ouvir para lhes abrir as portas das universidades públicas. Eis o totalitarismo através da educação.

Quando algum pedagogo fala em problematizar algo, ele está afirmando que vai reduzir esse algo a coisa nenhuma. E o fará usando sua permissão para porte dessa arma de grosso calibre que é a barra de giz. Saiba então: o verbo “problematizar”, com seus derivados, pode ser encontrado 55 vezes na BNC! Lembram-se da ideologia de gênero, barrada no Congresso Nacional? E da posterior pressão do MEC, tentando obrigar Estados e municípios a adotá-la? Pois retorna, agora, pela BNC. O conceito gênero aparece 12 vezes no texto. Sexo, apenas duas. É a renitente problematização da genitália.

Quase nada há, ali, que não seja problematizado: sentido da vida; percepções do corpo; relações sociais e de poder; papel e função das instituições sociais, políticas, econômicas e religiosas; seleção das datas comemorativas (!); cronologia histórica nacional e mundial; narrativas eurocêntricas; relação de “saberes e poderes” de caráter religioso e suas tradições; divisão de classes no modo de produção capitalista (e só no capitalista) e, por fim, fenômenos sociais de modo a “desnaturalizar (!) modos de vida, valores e condutas”. É a morte, por asfixia, do livre pensar.

Escritor*

puggina@puggina.org

sábado, 9 de janeiro de 2016

DÉFICIT DE 1,5 MIL PROFESSORES NO RS


ZERO HORA 09 de janeiro de 2016 | N° 18409


CLEIDI PEREIRA

Déficit de 1,5 mil professores na rede estadual


AUMENTO DE 37% NAS APOSENTADORIAS em 2015 no magistério é uma das razões para a escassez. Secretaria planeja levar para sala de aula servidores em cargos administrativos


Se o ano letivo começasse hoje, o Rio Grande do Sul teria um déficit de 1,5 mil professores. Conforme dados da Secretaria da Educação (Seduc), dos 75 mil profissionais que estão na ativa atualmente – entre concursados e contratados em caráter emergencial –, 51,4 mil estão em sala de aula. Em dezembro de 2014, esse número era de 52,9 mil – ou seja, houve um recuo no quadro de quase 3%.

Os números acenderam a luz amarela para o risco de falta de professores na rede pública estadual em 2016. Na tentativa de evitar que isso aconteça, a Seduc está fazendo um pente-fino nas cedências de servidores, como revelou o colunista Tulio Milman ontem. Hoje, 1,3 mil docentes estão atuando na rede municipal (em regime de permuta), na Assembleia Legislativa, em órgãos federais, em secretarias municipais e estaduais e em Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes).

A expectativa da secretaria é de que pelo menos 500 servidores retornem para suas atividades originais, após a avaliação de cada um dos casos. A triagem está sendo feita pelas Coordenadorias Regionais de Educação (CREs) e deve ser concluída até o fim do mês. De acordo com o secretário-adjunto, Luís Antônio Alcoba de Freitas, a medida é necessária, pois “a situação das finanças do Estado não permite contratações”.

– Temos de fazer o dever de casa e atender, em primeiro lugar, o aluno em sala de aula. Certamente, mesmo com todo esse esforço, vamos ter carência (de professores). Estamos concluindo um levantamento das necessidades, que será apresentado para o governo – disse Freitas, lembrando que, em 2015, o Piratini abriu exceção e autorizou a contratação de 540 docentes.

DESESTÍMULO PELO BAIXO VALOR DO ABONO-PERMANÊNCIA

Uma das razões para o déficit de educadores é o aumento na quantidade de pedidos de aposentadoria. No ano passado, 3,3 mil se aposentaram – um número 37% superior ao de 2014. Freitas reconheceu que há desestímulo, em razão do baixo valor do abono-permanência:

– As pessoas completam o tempo de serviço e optam por outras atividades.

Com o menor vencimento básico do país, os professores no Estado estão abandonando as salas de aula. No ano passado, a Seduc registrou, em média, 17 afastamentos por dia (aposentadoria, exoneração ou óbito), o que representa uma baixa de 6,3 mil docentes. Em contrapartida, apenas 540 concursados foram chamados e 1.141 contratados em caráter emergencial.

De acordo com a presidente do Centro dos Professores (Cpers-Sindicato), Helenir Aguiar Schürer, “2016 será um ano muito difícil” para a educação e, principalmente, para os alunos, que, mais uma vez, sofrerão com a falta de professores:

– Essa debandada ocorre porque as pessoas precisam comer, se vestir, pagar aluguel. Os professores podem amar a profissão, mas a necessidade faz com que acabem abandonando a atividade.

A dirigente também questionou a estratégia do governo de realocar docentes que hoje estão em funções administrativas. Como estão afastados das salas de aula há tempo, ela avalia que pode ocorrer “perda pedagógica importante”. Helenir defende a convocação dos mais de 5 mil aprovados em concurso em 2013, que aguardam nomeação.


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

TRAFICANTES ALICIAVAM ESTUDANTES PARA VENDER DROGAS AOS COLEGAS

DIÁRIO GAÚCHO 20/11/2015 | 06h51


Polícia prende traficantes que aliciavam estudantes a vender drogas para colegas. Pontos de tráfico de drogas estavam localizados próximos de 17 escolas de Canoas



Foto: Ronaldo Bernardi / Agência RBS



Leandro Rodrigues



A Polícia Civil realiza, desde a manhã desta sexta-feira, uma operação contra o tráfico de drogas no entorno de pelo menos 17 escolas nos bairros Niterói e Nossa Senhora das Graças, em Canoas, na Região Metropolitana. Ao todo foram presas 15 pessoas na Operação Apolo – cinco em flagrante na noite de quinta-feira e outros dez mandados de prisão temporária cumpridos na manhã desta sexta. Também foram cumpridos 17 mandados de busca e apreensão.

De acordo com a delegada Marina Goltz, titular da 2ª Delegacia de Polícia de Canoas, os traficantes se aproveitavam da proximidade com as escolas para fornecer drogas aos estudantes e fazer com que ela chegasse dentro das instituições de ensino pública e privada. A droga mais vendida era a maconha e, em seguida, o crack.

— Em alguns colégios, os estudantes eram aliciados a oferecer e vender drogas aos colegas — explica a delegada.

Outra consequência da proximidade dos pontos de tráfico com as escolas foi o aumento da violência na região. Pais e professores eram constantemente vítimas de assaltos e furtos cometidos por usuários em busca de recursos para compra de drogas.

A ação, que envolve aproximadamente 80 policiais civis, é resultado de cinco meses de investigação

terça-feira, 17 de novembro de 2015

MÁQUINAS SUPERFATURADAS E INÚTEIS



ZERO HORA 16 de novembro de 2015 | N° 18357


EDUCAÇÃO. Escolas técnicas no RS recebem máquinas superfaturadas e inúteis. INICIATIVA DO MEC de ensino profissionalizante é suspeita de esquema de fraudes em pregões



Uma geladeira, que nas lojas custa R$ 1,4 mil, mas pela qual foi desembolsado quase R$ 6 mil. Uma afiadora de ferramenta, de R$ 4 mil por R$ 72 mil. Uma caldeira de R$ 30 mil, que ninguém pediu, chega de surpresa em uma escola. Esses são exemplos de descontrole num programa bilionário de incentivo ao ensino profissionalizante e, também, de um esquema de fraudes nos pregões eletrônicos do governo federal. O caso foi mostrado ontem pelo programa Fantástico, da Rede Globo, em reportagem de Giovani Grizotti, da RBS TV.

O superfaturamento ocorre em compras do programa Brasil Profissionalizado, criado pelo Ministério da Educação em 2007 para estimular o ensino técnico no Brasil. O objetivo era construir escolas, equipá-las, garantir aulas práticas e preparar os jovens para o mercado de trabalho.

Um dos casos atinge a Escola Técnica Parobé, em Porto Alegre, a maior do Rio Grande do Sul. O curso de mecânica é pródigo em máquinas velhas, algumas com mais de 60 anos de idade. O problema é que o Ministério da Educação (MEC) enviou ao colégio uma caldeira de vapor novinha, comprada por R$ 30.880, mas inútil.

– Não temos o curso de caldeireiro aqui. Com o dinheiro, poderíamos equipar as aulas de soldagem – reclama Fernando Alves da Silva, professor de mecânica.

Uma furadeira industrial, comprada por R$ 40 mil, chegou sem as brocas. O mesmo colégio recebeu uma afiadora de ferramentas, avaliada em R$ 4 mil, que custou ao governo R$ 72 mil. E carrinhos de mão avaliados em R$ 70 comprados por até R$ 700.

Na Escola Técnica 25 de Julho, em Ijuí, na região das Missões, uma afiadora de ferramentas, por exemplo, custou 1.100% a mais aos cofres públicos do que o preço de mercado – em vez de R$ 6 mil, foram R$ 72 mil.

– (Desse valor) na época a gente podia ter comprado, no mínimo, três tornos convencionais – avalia José Alfredo Vagner, coordenador do curso de mecânica da escola.

PROCURADOR INVESTIGA COMPRAS DO GOVERNO

Há máquinas que a escola não sabe para que servem, que não foram pedidas e vieram sem manual de instrução. As compras feitas pelo governo federal são investigadas por Osmar Veronese, procurador da República em Santo Ângelo:

– Vai além da ideia da má gestão. Eu acho que aqui nós temos indicativos de corrupção, sim.

Em Campo Erê, em Santa Catarina, o problema foi outro. O manual de instruções de uma máquina complexa chegou, mas está escrito em mandarim. Em Estrela, uma escola recebeu computadores ultrapassados, que não conseguem abrir os programas usados pelos alunos.

Nesses equipamentos, distribuídos para 18 Estados, o governo gastou mais de R$ 450 milhões.

O resultado, mostrou a reportagbem, é a formação de profissionais despreparados. Para evitar isso, professores e alunos usam da criatividade para recauchutar equipamentos. Eles utilizam muitas peças de lixo eletrônico que recebem, mais componentes doados, e fazem adaptações.

O secretário-executivo do Ministério da Educação, Luiz Cláudio Costa, prometeu agir com rigor.

– Recurso público, principalmente em educação, tem de ser aplicado com toda a transparência. Vamos abrir uma sindicância para apurar todos os fatos apontados – afirmou Costa.

COMBINAÇÃO DE LANCES
-Escutas feitas com autorização judicial mostraram representantes de empresas combinando dividir licitações em Caxias do Sul. Eles falam em “dividir a cidade no meio, metade tu, metade eu”. Dois empresários combinam os lances no pregão:
-Empresário 1: “Tá. Vou bem alto. Pode ser?”.
-Empresário 2: ”Tá. Pode ser. Acima de vinte”.
-Empresário 1: “Tá. Vou a trinta”.
-Empresário 2: “Então tá”.
A AVALIAÇÃO
-Segundo o promotor de Justiça Flávio Duarte, “eles loteavam os órgãos públicos, determinando previamente qual seria o vencedor da licitação em cada órgão, estadual ou municipal. E entendiam como se eles fossem mesmo os proprietários desses órgãos”.
COMO FUNCIONA
- O pregão eletrônico estipulado pelo governo federal para compras de equipamentos é uma espécie de leilão ao contrário, em que os concorrentes dão lances pela internet.
-Tudo é feito pelo computador. Quem oferece um bem ou serviço pelo menor preço, vence a disputa.

domingo, 25 de outubro de 2015

ESCUTAR OS PROBLEMAS DOS PROFESSORES



ZERO HORA 25 de outubro de 2015 | N° 18335


ENTREVISTA: FERNANDO SAVATER

POR CARLOS ANDRÉ MOREIRA E ITAMAR MELO


“É importante escutar os problemas dos professores”


Espanhol, de origem basca, Fernando Savater é filósofo por formação, mas não se considera propriamente um pensador, e sim um professor de filosofia. É no ensino, não apenas como profissão, mas como militância, que Savater vem desenvolvendo a maior parte de sua atividade intelectual desde 1970: é autor de oito dezenas de livros, alguns traduzidos para mais de 20 idiomas, muitos deles dedicados a provocar leitores jovens sobre questões cruciais da ética e da filosofia. Savater já teve vários de seus livros lançados no Brasil, entre eles O Valor de Educar, Política para Meu Filho e A Importância da Escolha (pela Editora Planeta) e Ética Urgente (pela Editora do Sesc). Seus lançamentos mais recentes no país estão saindo na próxima semana pela L&PM, A Aventura do Pensamento e Lugares Mágicos: os Escritores e Suas Cidades (leia mais na página ao lado).

Savater é o convidado desta segunda, dia 26, no ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento. Por e-mail, ele concedeu a seguinte entrevista ao PrOA, na qual discorreu sobre focos de crise na gestão da educação, a falta de atenção aos problemas dos professores, a diferença entre problemas éticos individuais e problemas políticos sociais, a promoção da leitura e os desafios da educação no ambiente virtual, um espaço ao mesmo tempo desafiador, perigoso e libertário.

Como filósofo, um de seus temas recorrentes é a ética. O Brasil atravessa hoje o que muitos observadores interpretam como uma grave crise ética, marcada por escândalos de corrupção nos mais altos cargos da república e em praticamente todo o espectro partidário. O que um quadro como esse revela sobre o estado da ética na sociedade como um todo? O que se pode fazer para superar uma crise desse tipo?

Fui professor de ética por mais de 30 anos e dei aulas sobre o assunto em muitos países. Bem, durante todo esse tempo e em todos os lugares que visitei, as pessoas sempre me disseram que seu país estava em uma crise moral terrível. Aparentemente, a ética foi sempre um problema dos outros (políticos, banqueiros, militares etc.) e vivia-se em uma perpétua situação de crise. Lembrei-me do início de um conto de Borges, em que, falando sobre um antepassado seu, ele diz: “Couberam-lhe, como a todos os homens, maus tempos para viver”. A corrupção dos políticos e dos governantes é um problema ético somente para cada um deles, pessoalmente (se um ministro gasta o dinheiro destinado a um hospital infantil em uma viagem de lazer para o Caribe com uma amiga, certamente tem um problema moral), mas, nessa mesma hipótese, os cidadãos têm um problema político, não moral. A corrupção, presente no Brasil, na Espanha e em muitos outros lugares, que afeta aos políticos e a esses outros políticos que são os cidadãos, levanta a questão de como podemos tornar a impunidade dos crimes impossível e impedir as más práticas públicas, mas não de como fazer com que todos os homens empreguem bem sua liberdade.

O senhor tem escrito livros de filosofia para os jovens. Entende que a filosofia tem sido negligenciada para as novas gerações? O que espera alcançar com essas obras?

Eu não me considero um filósofo, com maiúscula, como Spinoza ou Kant, e sim um simples professor de filosofia. Acho que se os jovens aprenderem a prática da filosofia (e não apenas de dados, datas e nomes dos movimentos intelectuais, é claro), poderão dar mais profundidade humana para suas vidas e talvez pensar melhor sobre as questões que os cercam. Meus livros são destinados a ajudar os recém-chegados a conhecer essa tradição emancipadora, com base em dúvidas estimulantes e não em certezas rotineiras.

No Brasil, a escola funciona como um mecanismo de reprodução da desigualdade social. Crianças pobres vão para escolas públicas de qualidade deficiente, enquanto crianças de posses estudam em colégios privados em que a qualidade, muitas vezes, corresponde àquilo que a família pode pagar. Que mensagem um sistema assim passa à sociedade?

Envia a mensagem de um país mal governado, onde as pessoas não se importam o suficiente com a educação ao votar ou ao exigir dos eleitos que cumpram suas obrigações neste campo (e esse não é um problema exclusivo do Brasil, é claro, na Espanha acontece o mesmo). Os governos não se preocupam muito com a educação, porque os seus efeitos só são sentidos no longo prazo, e os políticos só planejam o futuro a algumas semanas de distância; de modo que são os cidadãos que devem insistir na importância desta questão. Uma boa educação pública é um elemento mais revolucionário de equiparação social do que qualquer sublevação violenta.

O Brasil também tem enfrentado outro problema: a carreira de professor não parece atraente para muitos jovens, e a procura por faculdades na área vem diminuindo. O ex-ministro da Educação do Brasil, Renato Janine Ribeiro, recentemente se referiu ao risco de um “apagão” de professores no sistema de educação. Que riscos uma situação dessas pode trazer para um país em desenvolvimento?

Riscos gravíssimos. Os professores são o fundamento da democracia, e eu diria que também da civilização. Sem eles, há apenas a barbárie da elite tecnológica e a arrogância brutal dos plutocratas latifundiários ou financeiros. É uma obrigação racional de todos tornar a carreira de professor atraente, dotá-la de uma boa preparação e de uma remuneração adequada. Acima de tudo, é importante que a cidadania escute os problemas e as advertências dos professores, converta-os em protagonistas sociais, limpe as suas fileiras de sindicalistas corruptos. Só então poderá exigir deles as responsabilidades de sua alta função, que não consiste em orientar meninos e adolescentes para que sejam revolucionários ou conservadores, e sim para que conheçam os requisitos da cidadania democrática e a exerçam como acharem melhor.

A promoção da leitura na escola tem sido muito discutida em termos duais: para alguns, as aulas de literatura devem apresentar ao aluno os clássicos que formam um cânone; para outros, deve ser encorajada a leitura com livros contemporâneos que os adolescentes e as crianças podem desfrutar com prazer. Qual sua opinião neste debate?

Em minha opinião, o importante é contagiar os jovens com o amor pela leitura, e não com a veneração aos clássicos. Esta última virá depois, se vier, e se não vier, o mundo não vai afundar por isso. Assim, os jovens devem ler o que eles gostam, não o que a maioria de seus professores de literatura aprecia. Que leiam Harry Potter e mais tarde, como tema acadêmico, conheçam Machado de Assis.

O senhor se posicionou contra o nacionalismo do País Basco, sua região de origem, tendo inclusive de receber proteção por causa de ameaças. Nesse contexto, que consequências para a Espanha e a Europa antevê na atual situação catalã, em que partidos separatistas saíram vitoriosos na última eleição?

A situação atual é muito grave, porque os separatismos nacionalistas ameaçam a unidade da cidadania. Um cidadão não é alguém que faz parte de um território ou de uma etnia, mas sim de um pacto constitucional a partir do qual cada um pode orientar sua identidade e sua opção de vida como melhor escolher. Nada é mais reacionário e antidemocrático que despedaçar um Estado de Direito e transformá-lo em um arquipélago de tribos étnicas.

Do ponto de vista ético, como o senhor analisa as posições de diferentes populações e governos diante da atual crise de refugiados na Europa?

Não se trata de um problema meramente ético, ou seja, de pessoas, e sim político, quer dizer, das autoridades europeias. Os refugiados políticos e os imigrantes econômicos devem ser acolhidos não apenas por humanidade, mas também porque podem ser imprescindíveis para o desenvolvimento de países com taxas de natalidade mais baixa. Mas é preciso dar-lhes condições dignas de vida e trabalho, assim como tentar ajudá-los em seus países de origem para que não precisem fazer os deslocamentos forçados que impõem tantos sacrifícios vitais. Não é apenas uma questão de boa vontade, e sim de uma reflexão inteligente sobre a melhor forma de organizar este fluxo agora tão caótico.

Muitas subculturas da atual sociedade de informação servem-se frequentemente do anonimato e do efeito manada em redes sociais para orquestrar perseguições em grupo e bullying, não importando a idade. Que desafios este contexto oferece ao ensino da ética?

O sentimento de impunidade oriundo do anonimato é uma das piores ameaças enfrentadas pela rede. Onde não há responsabilidade pessoal, a moral desaparece. Portanto, devemos garantir que não haja, nas redes sociais, nem impunidade, nem assédio, nem abusos contra pessoas ou roubos de propriedade intelectual. Lá onde os humanos exercemos nossa liberdade, deve haver leis, caso contrário, o que se favorece não é a liberdade, e sim a tirania dos piores.


domingo, 18 de outubro de 2015

PROFISSÃO PERSISTÊNCIA


 

 ZERO HORA 18 de outubro de 2015 | N° 18328


LUÍSA MARTINS


EDUCAÇÃO


HÁ 10 ANOS, eles foram aprovados em um concurso estadual para serem professores do Ensino Médio em Porto Alegre. Uma realização ou o começo de uma decepção? ZH mostra o que aconteceu com os 48 que foram nomeados. A estatística reflete a realidade de uma categoria valorizada nos discursos, mas não nos salários e nas condições de trabalho

A professora de química Paula Brust, quando precisa usar o laboratório, se vê entre a precária vidraria e substâncias químicas cujos prazos de validade expiraram no século passado. Da mesma disciplina, Graciela Cechin limpa o quadro negro com papel higiênico, porque não há apagador. Para Cláudia de Oliveira, professora de história e geografia, os problemas não são de infraestrutura – o desafio diário é ser ouvida por estudantes, em geral, desinteressados. As três, você já deve ter intuído, ensinam em escolas da rede estadual.

ZH analisou a lista dos 48 professores nomeados no concurso de 2005 do magistério estadual para o Ensino Médio em Porto Alegre. Dez anos depois, a reportagem constatou que apenas 14 estão trabalhando para o Estado – o equivalente a 29%. Salários baixos, falta de estrutura nas escolas, desinteresse dos alunos e pouca perspectiva de evoluir na carreira são os motivos elencados pelos que assumiram, mas exoneraram-se tempos depois. Pelo menos 19 nem chegaram a tomar posse, frente a propostas melhores que surgiram entre o resultado do concurso e a nomeação (quase dois anos, em alguns casos). Outros 10 abandonaram a profissão – viraram analistas, bancários, policiais. Apenas duas pessoas da lista não foram localizadas.

É fácil encontrar justificativa para o resultado deste mapeamento. Pesquisa realizada pelo Ibope Inteligência e divulgada este ano pela Fundação Lemann mostrou que, para professores da rede pública brasileira, a contribuição para a formação dos alunos e a responsabilidade social trazem satisfação, mas entram em conflito com a indisciplina dos estudantes e a defasagem do aprendizado (quando alunos são aprovados em um ano mesmo sem estarem preparados para o próximo). O desgosto que mais mobiliza a categoria é a remuneração. O RS é o Estado que paga o menor vencimento básico inicial para os professores estaduais: R$ 1.260 por 40 horas semanais. O piso nacional é de R$ 1.917,78.

– Uma coisa leva à outra: com más condições de trabalho, o professor não consegue garantir o aprendizado dos alunos. E quando o aprendizado não se conclui, ele perde a crença de que pode fazer diferença – diz o economista Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann, ONG que apoia iniciativas inovadoras em educação e realiza pesquisas para embasar políticas públicas no setor.

Quem fica trava uma luta diária entre o sonho de protagonizar uma mudança social e os obstáculos para realizá-lo. O professor, em geral, sente-se impotente, enquanto a sociedade cobra dele a responsabilidade que assumiu ao escolher a carreira. Aliás, uma opção que, hoje, não tem o apelo do passado: menos de 2% dos adolescentes que terminam o Ensino Médio pretendem cursar, na faculdade, Pedagogia ou alguma licenciatura. O dado é do estudo Atratividade da Carreira Docente no Brasil, encomendado pela Fundação Victor Civita à Fundação Carlos Chagas (FCC). Ser professor é bonito, nobre, até gratificante, mas passar todo esse trabalho e ainda ganhar pouco? Não, dizem os adolescentes.

– Os jovens de Ensino Médio reconhecem o professor como uma pessoa de referência, mas acham que seria muito complicado seguir essa profissão. Eles enfatizam a dificuldade de lidar com adolescentes e as más estruturas físicas das escolas: relataram à pesquisa ambientes sujos, depredados e, em alguns casos, até semelhantes a presídios. Também falta perspectiva de progressão profissional – comenta a supervisora da pesquisa, Bernadete Gatti, pedagoga, doutora em Psicologia e vice-presidente da FCC.

Em entrevista recente à ZH, o ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro disse temer um “apagão” de professores. Na medida em que eles vão se aproximando da idade de aposentadoria, corre-se o risco de haver um grande vazio nos próximos anos:

– O Brasil vai ter de gastar mais dinheiro em educação. Uma das metas do PNE (Plano Nacional de Educação) é que o professor da rede básica ganhe a média do que ganha uma pessoa com a mesma escolaridade. Hoje, ele ganha uns 30% a menos do que se tivesse gasto esses quatro anos fazendo outro curso. E o ambiente nas salas de aula não tem sido convidativo. É uma carreira complicada para atrair pessoas.

O interesse nos concursos do magistério estadual caiu 17% desde 2005, quando 80.356 se inscreveram. Em 2011, foram 69.150. Em 2013, 66.296.

No levantamento junto à lista de nomeados, ZH observou que muitos professores, durante anos, desdobraram-se para atender às redes estadual, municipal e privada, ao mesmo tempo.

– Ninguém consegue sobreviver trabalhando só no Estado – justifica a professora de inglês Maira da Silva Gomes, que assumiu em 2007, mas exonerou-se em 2010 para tomar posse no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), onde a remuneração é 10 vezes maior para a mesma carga horária.

A sobrecarga de trabalho, diz a coordenadora de Educação da Unesco no Brasil, Rebeca Otero, é um dos fatores que reduzem a qualidade do ensino:

– Ao ter de dar conta de várias coisas simultaneamente, não dá tempo de se aprimorar, ler, estudar, coisas absolutamente necessárias para este profissional. E é difícil que o interesse do aluno não seja afetado quando ele vê o professor passando dificuldades, sem salário, doente, cansado e desmotivado.

Recentemente, a revista americana Child Development comprovou esta influência ao publicar um estudo sobre depressão em professores – “uma das profissões mais estressantes”. Os pesquisadores concluíram que as doenças dos professores trazem implicações negativas também para os alunos, que têm seu aprendizado comprometido.

Para mudar essa realidade, o primeiro passo é valorizar a profissão. Mas o caminho é longo.

– Se a gente for interpretar a situação atual de forma clara e sem rodeios, é o seguinte: o Estado não dá importância para a educação. E nem a sociedade, que se exime de pressionar as autoridades – diz o professor Fernando Becker, mestre em Educação, doutor em Psicologia Escolar e professor da UFRGS.

Presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, Roberto Leão almeja o reconhecimento para além dos anos de eleição:

– Não estou dizendo que o professor tenha de pairar sobre tudo, mas que seja valorizado sempre, não só em época de eleição, quando se fala que professor é uma figura exponencial, ou em 15 de outubro, quando todo mundo lembra da professorinha da infância. É bonito, claro, mas precisamos mais.

domingo, 27 de setembro de 2015

PERGUNTAS CONSTRANGEDORAS



ZERO HORA 27 de setembro de 2015 | N° 18307


DIANA LICHTENSTEIN CORSO*



Responda rápido: o que temos no meio das pernas? Se você pensou nos órgãos sexuais, errou. Essa pegadinha infantil vem lembrar que às vezes supomos as perguntas mais constrangedoras do que elas realmente são. Isso é porque nossos pensamentos é que são meio travessos. A resposta certa é: os joelhos.

A brincadeira ilustra bem o que ocorre quando as crianças perguntam sobre sexo a seus pais. É uma situação em que elas sabem que os estão colocando em uma posição constrangedora e divertem- se ao vê-los balbuciar. Por isso, antes de começar labirínticas explicações sobre sementinhas, convém descobrir o que exatamente é que elas estão perguntando, pode ser só um joelho.

Elas gostariam de compreender muita coisa, mas somente interrogam sobre aquilo que estão prontas para escutar. Perguntar já é em si um ato de coragem, em geral as explicações são menos assustadoras do que as fantasias que surgem espontaneamente. As fantasias sexuais infantis são compostas a partir de fragmentos de conversas, imagens, enfim, um acervo que a criança está sempre coletando e que a leva, acredite, às conclusões mais disparatadas.

Por esses dias, uma mãe paulista ficou horrorizada quando seu filho de 11 anos, cursando a sexta série, lhe perguntou o que era uma prostituta. A indagação veio a partir de uma leitura recomendada pela escola: uma versão em quadrinhos do clássico Oliver Twist, na qual se recorria a uma linguagem mais contemporânea e própria do gênero. Junto a várias outras famílias, essa senhora participou de um movimento que questionava a direção da escola sobre o tipo condenável de valores que estavam transmitindo.

Mas, afinal, quando devemos falar para uma criança sobre temas que consideramos embaraçosos? A resposta é simples: quando ela perguntar, pois questionar é um signo de confiança em si mesmo e na sinceridade dos pais. Além disso, por que deveríamos lhes negar um desejo de crescer?

Um púbere que tenta falar em casa sobre prostituição está curioso das relações entre amor e sexo e quer saber da posição de sua família a respeito. Ele está entrando em contato com seus próprios desejos, intriga-o como é que isso poderia envolver dinheiro e por que esse é um xingamento tão grave. Mesmo depois de grandes, nossa própria sexualidade persiste enquanto um enigma que morremos sem decifrar. A surdez para a perspicácia dos filhos visa preservar uma fantasia de inocência que é preciosa só para os pais. Manter os filhos numa bolha é o propósito de famílias que tentam viver dentro dela.

A escola está certa. Com Oliver Twist, propõe um debate sobre um menino abandonado frente a uma sociedade hostil, em nada inconveniente para uma sexta série. Já esses pais, talvez não tenham amadurecido para acompanhar o crescimento dos seus filhos.



*Psicanalista dianamcorso@gmail.com

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

EDUCAÇÃO, PIOR DA REGIÃO SUL



ZERO HORA 18 de setembro de 2015 | N° 18298


GUILHERME JUSTINO


RS fica em “recuperação”


PESQUISA APONTA que parte dos alunos gaúchos tem problemas para ler, escrever e fazer cálculos


Para muitas crianças na fase final do ciclo de alfabetização, ainda é difícil entender o sentido de um conto infantil, redigir uma narrativa compreensível e ler as horas em um relógio analógico. Isso porque, entre os alunos do 3º ano do Ensino Fundamental na rede pública, a capacidade de ler, escrever e fazer cálculos matemáticos está longe da ideal em boa parte do Brasil. E, no Estado, o quadro também é desalentador.

Mais da metade desses estudantes tem um nível considerado inadequado em matemática, apresentando dificuldades em operações simples de multiplicação e divisão. Quanto à escrita, uma em cada quatro crianças, apesar de saber escrever, comete erros que comprometem a compreensão da mensagem. É o que aponta a Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) 2014, divulgada ontem pelo Ministério da Educação (MEC).

– Os dados são muito preocupantes. A alfabetização é a base de tudo, só com ela a criança adquire autonomia suficiente para seguir nos estudos – entende Ricardo Falzetta, gerente de conteúdo do movimento Todos Pela Educação.

Para a pedagoga Denise Arina Francisco, não atingir os níveis adequados de alfabetização e letramento na idade adequada significa um prejuízo dificilmente reversível, que pode comprometer toda a formação de um estudante.

– A criança que não domina a leitura e a escrita não consegue acompanhar os conteúdos tratados em sala de aula. Isso acaba retraindo ela e até levando a casos de indisciplina. É preciso resolver isso ainda nos primeiros anos – afirma.

SECRETÁRIO FALA EM CONSTRANGIMENTO

O secretário estadual de Educação, Vieira da Cunha, afirma ter recebido com preocupação mais um indicador demonstrando que o Rio Grande do Sul não tem os melhores níveis de ensino. Para ele, o Estado tem involuído, ficando cada vez mais distante do nível de excelência que seria desejável. Em todas as áreas avaliadas, Santa Catarina e Paraná tiveram resultados melhores.

– É constrangedor estar na lanterna da Região Sul. Esses resultados são preocupantes, e mostram o tamanho do desafio que temos pela frente para reverter esse quadro. O lado positivo é que isso acende um alerta, e vai servir de base para novas intervenções pedagógicas – garante o secretário.