EDUCAÇÃO MULTIDISCIPLINAR

Defendemos uma política educacional multidisciplinar integrando os conhecimentos científico, artístico, desportivo e técnico-profissional, capaz de identificar habilidade, talento, potencial e vocação. A Educação é uma bússola que orienta o caminho, minimiza dúvidas, reduz preocupações e fortalece a capacidade de conquistar oportunidades e autonomia, exercer cidadania e civismo e propiciar convivência social com qualidade, dignidade e segurança. O sucesso depende da autoridade da direção, do valor dado ao professor, do comprometimento da comunidade escolar e das condições oferecidas pelos gestores.

sábado, 15 de março de 2014

UMA NOVA EDUCAÇÃO

REVISTA ISTO É N° Edição: 2312 | 14.Mar.14


ISTOÉ revela projeto do Ministério da Educação, em parceria com o Instituto Ayrton Senna, que prevê inclusão de habilidades socioemocionais na grade curricular. Estudos mostram como elas melhoram o desempenho escolar

Camila Brandalise


A sala de aula é a mesma. Alunos em carteiras enfileiradas se esforçam para prestar atenção ao que diz a professora, estrategicamente posicionada em frente à lousa. Mas no lugar de questões envolvendo temas tradicionais, como raiz quadrada ou uso da crase, o debate entre os estudantes, adolescentes na faixa dos 13 anos, suscita outras discussões. “Como você se vê hoje?” e “O que espera da vida adulta?” são algumas das perguntas feitas durante uma aula de formação social do Colégio Pentágono, em São Paulo. Além de autoconhecimento, os jovens desenvolvem conceitos como respeito e responsabilidade. Apesar de esses não serem temas frequentes no cotidiano do ensino brasileiro, as chamadas competências não cognitivas ou socioemocionais estão no centro do debate de como melhorar a educação no País e devem transformar a forma como o ensino é ministrado nas instituições públicas e privadas do Brasil. Tanto que várias escolas as incluíram em seus projetos – seja com aulas específicas ou com propostas pedagógicas gerais. Em levantamento inédito, o Instituto Ayrton Senna (IAS) concluiu, por meio de uma avaliação aplicada a cerca de 25 mil estudantes da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro em outubro de 2013, que o ensino dessas qualidades impacta direta e positivamente o aprendizado de língua portuguesa e de matemática. A intenção é que a ferramenta, elaborada em parceria com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), seja usada para medir o desenvolvimento dessas competências nas escolas.


CLASSE
Aula de formação social do colégio Pentágono, em São Paulo:
alunos trabalham respeito e responsabilidade

Os resultados parciais desse trabalho, ao qual ISTOÉ teve acesso com exclusividade, serão divulgados no Fórum Internacional de Políticas Públicas, realizado pelo Instituto Ayrton Senna, a OCDE e o MEC nos dias 24 e 25 de março, em São Paulo. A intenção do IAS ao elaborar um sistema de medição das chamadas habilidades socioemocionais foi fomentar o desenvolvimento dessa área, para que possam ser criadas políticas públicas específicas. A esse projeto somam-se ainda esforços do Ministério da Educação para desenvolver novas propostas sobre o tema. Uma delas, que também deve ser anunciada durante o encontro, diz respeito à formação de especialistas brasileiros com foco nessas habilidades socioemocionais. “O governo já se posicionou a favor da criação de um programa em processo de formulação, e não será difícil implementá-lo rapidamente. Pode ser, por exemplo, um braço do Ciência sem Fronteiras”, afirma Mozart Neves Ramos, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), que faz parte do MEC, e diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna, referindo-se ao programa de bolsa de estudos no Exterior para alunos da graduação. “Para nos aprofundarmos no tema, precisamos de profissionais com formação específica na área, o que exige conhecimentos multidisciplinares em educação, economia e psicologia.”

Outro projeto diz respeito à comissão especial do CNE voltada para discutir a importância das habilidades socioemocionais no sucesso escolar. O conselheiro Francisco Cordão afirma que até meados deste ano haverá um parecer, a ser aprovado pelo conselho, com orientações de como trabalhar essas competências na escola. Essas diretrizes, ainda em fase de estudos, serão enviadas às instituições de ensino do País para que sejam formuladas maneiras de trabalhar as habilidades socioemocionais na educação básica (ensino infantil, fundamental e médio). “Já discutimos, por exemplo, recomendações para a formação de professores, que precisam estar alinhados a uma perspectiva mais ampla, mobilizando não apenas o aprendizado de conteúdos das disciplinas, mas habilidades, atitudes e emoções que são importantes no processo de ensino”, diz Cordão.



A ferramenta de avaliação criada pelo Instituto Ayrton Senna visa a orientar o trabalho dos gestores educacionais. A prova consiste em 62 questões para o quinto ano do ensino fundamental e 92 questões para o primeiro e terceiro ano do ensino médio e traz perguntas referentes à percepção do aluno sobre seu próprio comportamento e sobre quem ele é. Com os resultados em mãos, é feito um cruzamento relacionando desempenho escolar e situação socioeconômica. Os dados obtidos no projeto-piloto, aplicado em escolas públicas do Estado do Rio em 2013 e feito em parceria com a secretaria estadual de Educação, mostram que pelo menos três grupos de competências socioemocionais tem um impacto bastante relevante no desempenho dos estudantes em língua portuguesa e em matemática (leia quadro na pág. 54). Entre outros resultados, chama a atenção ainda o impacto negativo da extroversão no ensino de língua portuguesa. “O que notamos é que a escola não está preparada para canalizar a energia dos jovens extrovertidos para o aprendizado”, afirma Tatiana Filgueiras, coordenadora da área de avaliação e desenvolvimento do Instituto Ayrton Senna.



Outro dado interessante foi o fato de que alunos de famílias de melhor condição socioeconômica apresentaram graus mais baixos na competência conscienciosidade, que engloba responsabilidade e tem relação com o aprendizado de matemática, segundo Tatiana. Presidente do Instituto Ayrton Senna, Viviane Senna ressalta esse caráter democrático das competências socioemocionais. “Desenvolver foco, persistência, responsabilidade, curiosidade, criatividade e outras características depende mais das atitudes dos adultos que convivem com esses alunos, em casa ou na escola, do que de condições específicas e não replicáveis, como a condição socioeconômica da família”, diz. Essa é uma excelente notícia para uma estratégia de redução das desigualdades intoleráveis, por meio de ações educativas intencionais, segundo Viviane. “E o Brasil de hoje, com o desafio de dar um salto expressivo na qualidade da educação, não pode deixar passar despercebido um acelerador da qualidade tão importante quanto esse.”


MODELO
Vinicius Pereira e Juliana Gomes, ambos de 16 anos, alunos do colégio
Chico Anysio, no Rio, que passou pelo projeto-piloto do IAS

A ideia é que seja estabelecida uma agenda na área das não cognitivas. A partir desses esforços, tanto do terceiro setor quanto do governo, o objetivo é inserir essas questões no projeto pedagógico das escolas com delimitações específicas. Não é necessário criar uma disciplina para passar esses conceitos. As medidas podem ser trabalhadas de maneira transversal, em todas as aulas. Em língua portuguesa, por exemplo, em vez de pedir aos alunos que escrevam sobre as férias, o professor pode solicitar uma redação em que as crianças falem sobre um problema que conseguiram enfrentar. “Há várias possibilidades para o futuro. O primeiro grande desafio era aprender a medir. Agora o tema precisa ser desenvolvido”, afirma Daniel Santos, professor de economia da Universidade de São Paulo e especialista em desenvolvimento infantil e socioemocional na escola. No atual sistema de avaliação tradicional, diz o especialista, se uma escola não atinge bom desempenho, a conclusão é de que não há planejamento ou falta preparo dos professores. “Mas será que não é a parte não cognitiva que está influenciando esse resultado?”



No Pentágono, tanto as aulas de formação social quanto as de tutoria, ambas dadas a partir do sexto ano, trabalham conceitos relacionados às habilidades não cognitivas há cerca de cinco anos. “Não abandonamos o rigor, temos todas as aulas tradicionais. Mas nos preocupamos com a formação do indivíduo, porque a escola é um espaço de socialização”, diz Américo Francisco dos Santos, coordenador-geral do ensino fundamental 2 da rede Pentágono. No Rio de Janeiro, uma das escolas que participaram do piloto do projeto do IAS foi o Colégio Estadual Chico Anysio. “Em nossa grade, temos um projeto chamado Núcleo. Os alunos têm oito encontros de 50 minutos por semana em que trabalham autogestão, projeto de vida, autoconhecimento, entre outros temas”, diz Willmann Costa, diretor da instituição. Colégio que ficou em terceiro lugar no último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o Elite Vale do Aço, em Ipatinga (MG), estuda incluir essas competências no projeto pedagógico. “O objetivo é acrescentar na grade curricular do ano que vem outras habilidades além das cognitivas”, afirma o diretor Átila Zanone.



Alguns educadores, porém, ainda se mostram receosos em relação a essas medidas. “A escola não pode absorver tudo. Acredito que determinada formação é responsabilidade da família”, diz Rosângela Fonseca Napoleão do Rego, coordenadora-geral pedagógica do colégio Lerote, de Teresina. “Se ensinamos conceitos no colégio e em casa a realidade é outra, não tem sentido.” Apesar de ser uma crítica comum, especialistas afirmam que não se trata de ensinar valores ou tomar o lugar dos pais. Essas competências e habilidades podem e devem ser trabalhadas no ambiente educacional. “A escola é a primeira chance de a criança se confrontar com a realidade social, é o lugar onde ela descobre outra maneira de viver com seus semelhantes. Por isso, precisamos incluir essas capacidades socioemocionais”, afirma a psicóloga infantil Ana Olmos. “Ainda existe desconhecimento sobre o tema, e incorporar isso de maneira intencional no ambiente escolar vai exigir que a instituição aprenda a apresentar aos pais como determinados projetos podem contribuir para formar cidadãos”, diz Mozart Neves, do Conselho Nacional de Educação. Uma coisa é certa: se o mundo e os jovens mudaram, o caminho natural e necessário é que a escola também mude.


quinta-feira, 13 de março de 2014

ORELHAS DA POLÊMICA


ZERO HORA 13 de março de 2014 | N° 17731


Cirurgia antibullying. Prefeitura catarinense gera controvérsia ao pagar operações plásticas em crianças hostilizadas pelo formato das orelhas



Uma iniciativa polêmica da prefeitura de São José, na região metropolitana de Florianópolis (SC), reacendeu o debate sobre como combater o bullying nas escolas. O município decidiu oferecer gratuitamente a otoplastia, cirurgia plástica para correção da chamada orelha de abano, a crianças que sofrem provocações no colégio.

Com a medida, tomada pela prefeita Adeliana Dal Pont, estudantes que apresentam atraso no rendimento escolar ou algum tipo de problema emocional causado por agressões psicológicas dos colegas podem ter a operação custeada pelo município. A prefeitura informou ter destinado verbas de saúde para realização de 14 otoplastias em 2013, mas nem todas teriam sido em crianças.

Para especialistas, resolver a questão por meio de um procedimento cirúrgico tira o foco da discussão sobre o bullying e pode até reforçar o preconceito. Débora Dalbosco Dell’Aglio, professora do Instituto de Psicologia da UFRGS, afirma que a medida não contribuirá de forma efetiva para combater a agressão e pode, em lugar disso, chamar mais atenção para esse tipo de situação.

– Há pessoas que têm problemas físicos, convivem bem com isso e não precisam de cirurgias reparadoras. Esse parece ser um projeto que não vem das necessidades do público envolvido, mas sim de uma ideia preconcebida de alguém que não tem ideia do fenômeno maior. O foco deve ser trabalhar a aceitação do diferente.

Raquel Maria de Lima, mãe de um menino de 11 anos que passou por uma otoplastia custeada pela prefeitura de São José, conta que o filho parou de sofrer com as agressões dos colegas de escola. O garoto chegava chorando em casa e dizia que os amigos o provocavam.

– Ele me diz que não faria de novo. Sofreu muito no pós-operatório. Por um lado, ele parou de sofrer na escola, mas, por outro, sofreu muito pela cirurgia – diz Raquel.

Projeto de lei prevê oferta do procedimento pelo SUS

Uma proposta para oferecer a otoplastia no Sistema Único de Saúde tramita na Câmara dos Deputados. Para o deputado federal Guilherme Campos (PSD-SP), autor do projeto de lei, não se trata de uma cirurgia estética, mas sim reparadora:

– Fui procurado sobre isso em função do bullying e do impacto psicológico na vida das crianças. O custo em clínica particular é alto (entre R$ 3 mil e R$ 6 mil), então colocamos a possibilidade de o SUS implantar essa cirurgia, que não é estética.

O texto está na Comissão Social e da Família e deve passar ainda pelas comissões de Finanças e Constituição e Justiça antes de ir ao Senado. O deputado minimiza as críticas:

– Isso é procurar chifre em cabeça de cavalo. Sempre vai ter alguma argumentação. Quem for contrário, que se manifeste. E se o Congresso entender assim, que não aprove a lei.

Dados

- 7,2% dos brasileiros de 13 a 15 anos sofrem bullying, segundo o IBGE.

- 42% dos casos relatados em oito escolas de SC são motivados por aspectos físicos.


ENTREVISTAS


“A criança precisa se sentir bem”

Entrevista com Adeliana Dal Pont, prefeita de São José (SC)


Responsável por oferecer otoplastias a vítimas de bullying, a prefeita de São José (SC), Adeliana Dal Pont, defende que a medida contribui no desempenho escolar.

Por que a senhora resolveu tomar essa iniciativa?

Adeliana Dal Pont – Na escola, a criança, além de ter um espaço com professor bem qualificado, precisa estar bem, e isso (orelhas de abano) é algo que as incomoda. Há histórias de crianças que só andavam de boné por causa da orelha, então temos de buscar alguma coisa, mesmo que seja um ato pequeno.

Especialistas defendem que incentivar o contato com as diferenças e mostrar a partir do ensino que é possível essa convivência com a diversidade seria uma solução melhor.

Adeliana – Como estive muito próxima de uma pessoa que tinha essa dificuldade, coloco o serviço à disposição. Tem de ver o que acham a criança e a família envolvidas. A prioridade quem dita é o número de casos.

Essas cirurgias são pagas com recursos do município. Não há outros procedimentos que poderiam ser considerados prioridade na saúde de São José?

Adeliana – Trata-se de algo que incomoda as crianças, mas não é só esse procedimento que fazemos. Temos também convênios para atender a outras necessidades. Não é para causar polêmica. É para dizer que o poder público tem preocupação, que a saúde e a educação no sistema público podem ter qualidade se tivermos essa vontade. Na posição de gestora, de mulher pública, eu tenho a obrigação de disponibilizar os serviços.


“Pode ser ruim e perigoso”

Entrevista com Carolina Lisboa, psicóloga



A psicóloga Carolina Lisboa, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS) e especialista no tema, afirma que a cirurgia não acaba com o bullying e não deve ser incentivada.

Zero Hora – Como a senhora avalia essa iniciativa?

Carolina Lisboa – Se há um movimento de cima para baixo dizendo que a criança tem de se submeter à cirurgia, isso dá a ideia de que ela está errada e existe um jeito certo de ser. Isso pode ser ruim e perigoso. Pode provocar uma necessidade e supervalorizar a questão da estética. E isso a gente não quer, principalmente entre crianças e adolescentes, que estão construindo a identidade e o autoconceito. Se ela está sofrendo, não vejo problema em fazer a cirurgia, mas não é isso que vai solucionar o bullying.

ZH – Como se pode agir para prevenir o bullying?

Carolina – Há outras formas de agir, favorecendo comportamentos como o de se colocar no lugar do outro, incentivar a solidariedade e o respeito às diferenças individuais, e não a “correção” para que todas as pessoas fiquem iguais.

ZH – Qual o papel dos pais?

Carolina– São fundamentais para evitar que as crianças façam bullying e para ajudá-las a lidar com essas situações. Eles precisam fazer uma autorreflexão: o meu filho está infeliz com a orelha de abano ou sou eu que estou? E manter o diálogo, colocar-se no lugar deles, e não fomentar em casa o preconceito que já existe na rua. O bullying não deve ser subestimado.


segunda-feira, 10 de março de 2014

SITUAÇÃO PRECÁRIA DE ESCOLAS PÚBLICAS NO BRASIL

TV GLOBO, FANTÁSTICO 10/03/2014 12h00

Fantástico mostra situação precária de escolas públicas em Alagoas, em Pernambuco e no Maranhão São escolas sem água potável, sem banheiro e até sem sala de aula. O que não falta é a força de vontade de alunos, professores e pais.



Um retrato do abandono do ensino público no Brasil. São escolas sem água potável, sem banheiro e até sem sala de aula.

Durante dois meses, os repórteres Eduardo Faustini e Luiz Cláudio Azevedo percorreram escolas públicas dos estados que tiveram as médias mais baixas no Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa).

“O percurso deles é em torno de 20, 30 quilômetros. Muitos acordam duas, três horas da manhã, para pegar um caminhão, para que esse caminhão leve até a rodovia, para da rodovia vir de um transporte fornecido pela prefeitura do município: o ônibus escolar”, conta um morador de Joaquim Gomes, em Alagoas.



“A rua é assim desse jeito. Os meninos, a gente atravessa eles no braço, porque não quer ver eles molhado. Caderno, eles não dão”, conta uma moradora de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco.

“Essa água não é ideal para ser tomada e, principalmente dar ela para as crianças. Isso aí tem um germe total. Eu trabalho aqui, mas dela eu também não bebo”, revela um homem.

“Tem aluno que até cai da carteira, principalmente os menores, da educação infantil”, diz uma moradora de Codó, no Maranhão.

“Quando temos a necessidade de irmos para o banheiro, nós vamos para o mato. Os alunos e a professora”, afirma uma mulher.

O que a reportagem mostra são escolas em que falta tudo, escolas que nem de longe lembram uma escola. O que não falta é a força de vontade de alunos, professores e pais que sofrem com as péssimas condições de ensino. Sofrem e ficam indignados.

“Ei, quatro anos sem receber farda, aqui, ó”, conta uma mãe. “Sem receber farda, sem ninguém dar atenção para gente”, afirma uma outra mãe. “As crianças da gente são desprezada aqui dentro”, reclama.

O Fantástico mostra a situação da entrada de uma escola municipal, em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco.

“Quando chove, a água invade, e chegam molhados, tudo sujo. Aí a situação. Aí não tem. Um bebedor bom não tem. Papel higiênico não tem”, afirma a mãe de aluno Maria Betânia dos Santos.

Revoltada, ela diz que as professoras pedem aos pais até material de limpeza: “Elas pedem à gente uma vassoura, pedem detergente. É o que for para botar aqui. Para ajudar aqui. E tem vez que as pobrezinhas passam quase um mês sem receber. Aí como é isso?”.

Isso é a realidade de escolas públicas em Alagoas, em Pernambuco e no Maranhão.

Na mais recente pesquisa brasileira do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), esses estados estão entre os que tiveram as notas médias mais baixas. Os repórteres do Fantástico passaram dois meses registrando as condições de escolas nesses estados.

Fantástico: Que horas você sai de casa?
Williana Soares (aluna): Quatro horas.
Everton Guedes Cavalcante (aluno): A hora que eu saio de casa, o máximo é 4h10, mas me acordo 3h50.

Só tem um jeito para o Everton e para a Williana irem à escola: de caminhão.

“Tem uma base de uns 55 alunos que nós vai (sic) nesse caminhão. Só que tem a dificuldade da estrada”, explica o motorista José Fernandes de Melo.

É uma estrada de terra. Depois dessa viagem, em Joaquim Gomes, em Alagoas, é que eles pegam o ônibus escolar da prefeitura. Mas e quando chove?

“Com dia de sol, nós consegue (sic). Quando choveu, não consegue chegar aqui”, conta o motorista.

O jeito então é ir... “Andando. Fora a ladeira que tem para subir”, conta Williana.

Ou então... “É ficar em casa mesmo, sem poder ir para a escola”, admite Everton.

Já em Lagoa Grande, em Pernambuco, quem não tem caminhão vai de charrete. Seu Francisco diz que a filha, a Rosileide, se queixa quando a escola não pode funcionar.

Em Codó, no Maranhão, o André e o primo dele, o Eduardo, são vaqueiros de manhã. De tarde, caminham 35 minutos até a escola.

Por lá, falta quase tudo. Não falta carinho. “Vocês são guardado no lado esquerdo do meu coração. Então, sejam bem-vindos mais este ano que nós temos aqui para trabalhar, para melhorar, para ver os nossos acertos”, anuncia a professora.

Em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, se chegar a uma escola assim não é fácil, entrar também pode ser bem difícil, como foi visto no início da reportagem.

Na frente de outro colégio da mesma cidade, a situação é pior ainda: o esgoto está aberto. E ainda uma terceira escola enfrenta o mesmo problema, no mesmo município.

“Está há seis anos assim. Agora, é o que a gente diz para as mães: nós como funcionários vamos entrar. Nós somos funcionários, precisamos preservar a escola aberta para o aluno”, diz a secretária escolar Maria Vieira de Araújo.

Fantástico: Como que a senhora chegou hoje para dar aula? Qual foi a situação que a senhora encontrou na sala de aula?
Auriele Galvão (professora): A escola toda estava alagada. Não é goteira, é chuva mesmo. Eu afasto todas as cadeiras, boto todo mundo pro canto, e coloca baldes aqui. A água desce todinha pela parede. Inclusive eu já perdi trabalhos que a gente realiza trabalhos com os alunos, coloca nas paredes em exposição, mas aí desce tudo, molha tudo.

Você pode pensar que é uma cidade muito longe dos grandes centros, mas não é: Jaboatão dos Guararapes fica a cerca de seis quilômetros do metro quadrado mais caro de Recife, na praia de Boa Viagem.

Finalmente, a aula começa, inclusive na escola indígena Pajé Miguel Selestino da Silva, em Palmeira dos Índios, em Alagoas. O que falta é a própria sala de aula.

Fantástico: Há quantos anos o senhor dá aula nessa situação aqui?
Jecinaldo Xucuru Cariri (professor): Há mais de dois anos que eu venho ministrando aula debaixo da mangueira. É bastante complicado, até porque de repente vem uma chuva, então tem que todo mundo correr e abandonar a aula.

Em uma galpão, funciona outra sala. É uma situação de improviso, porque a sede original da escola não tem mais condições de uso e está interditada. No galpão, os alunos ficam espremidos. Além do desconforto, tem o perigo.

A escola municipal em Codó, no Maranhão, se chama Divina Providência e espera providências há muito tempo.

Fantástico: Há quanto tempo essa escola está assim? Do jeito que está assim hoje.
Deusdet Oliveira Matos (comerciante): Está com mais de 15 anos.

O Deusdet é um comerciante que construiu a escola há 50 anos e, do jeito que pode, continua tomando conta dela.

Deusdet Oliveira Matos: Quando está gotejando, eu vou, tiro a goteira. Agora, esse ano eu ia fazer essa parede de tijolo, mas ainda não fiz.
Fantástico: O que leva o senhor a cuidar dessa escola?
Deusdet Oliveira Matos: O espírito de humanidade, para poder auxiliar os filhos dos moradores a não se criarem analfabeto.

“A situação, como vocês estão vendo, desde o ano passado que a gente está desse jeito. A falta de cadeira, sentam e não tem o braço da cadeira. Eles estão com dificuldade para escrever. E eu estou utilizando a minha mesa, para que eles fiquem mais à vontade. O que eu posso fazer eu estou fazendo”, diz Juciara de Souza, professora em Petrolina, Pernambuco.

Em uma das cadeiras é possível ver parafuso para fora.

“Eu gostaria que tivesse cadeiras boas e que não fossem quebradas”, afirma uma aluna.

“Já teve caso de criança perder aula, porque não tinha cadeira”, conta a mãe de aluno Edineide Helena da Costa.

“O piso da escola não é adequado para o tipo de carteira, porque as carteiras, como é você pode ver, é um cano. Então, elas afundam no chão. E aí tem aluno que até cai. Aí chora, devido ao chão batido, que aqui não sabe se aqui é uma subida, ou ali é uma descida. É um desnível total. Porque aqui era uma casa de moradia. Era uma pessoa que morava aqui. Aí montou essa escola aqui para eles”, conta Rosa Maria Pereira Cunha, professora em Codó, no Maranhão.

As escolas visitadas pelo repórter Eduardo Faustini ficam em regiões bem quentes. Nas salas, todo mundo se queixa do calor. “É quente. No calor não tem quem suporte”, reclama a aluna Mayara Nunes de Alencar, em Petrolina, Pernambuco.

“Tem um ventilador, mas na outra sala. Um ventilador não é suficiente para os aluno. É muito aluno”, diz a zeladora Josiane Barbosa da Silva, de Lagoa Grande, Pernambuco.

Em outras escolas, um, dois ou um monte de ventiladores, nada resolveria, porque elas não têm energia elétrica.

Rosa Maria Pereira Cunha (professora em Codó, no Maranhão): Quando chove, fica escuro.
Fantástico: Não tem luz.
Rosa Maria Pereira Cunha: Tem não. Não tem luz.

Como beber água nessas condições? E como fazer a merenda?

“Para beber água, a gente pega água com a dona da terra. Pega uma garrafa de água e trago para cá, porque também está faltando filtro”, conta a professora Eliete de Araújo Lobes.

“Eu trabalho aqui, mas dela eu também não bebo, porque a gente vê a situação da água. Isso aí tem um germe total. Até lá em cima tem um pisador de cavalo e um pisador de boi. Tem uns bois que ficam aí atrás que bebem dessa água aí em cima da barragem”, José Dionísio Justino, professor em Joaquim Gomes, em Alagoas.

Celso Selestino (agente de saneamento em Palmeira dos Índios, em Alagoas): Não tem tratamento. Do jeito que ela passa aqui, ela abastece a cidade e não tem tratamento nenhum.
Fantástico: Agora tem algum sistema de filtro para proteger essa água?
Celso Selestino: Não. O filtro que tem aqui só isso aqui, não tem filtro nenhum. O pessoal é que coa a água ali e dá para as criança beber.

“A fossa é dentro da cozinha, e o suspiro é dentro da cozinha. Aonde a merenda já chega pronta e a gente tem que servir a merenda neste setor”, revela um funcionário de Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco.

“Geralmente a merenda só aparece de maio a junho. Geralmente é nesse período que a merenda aparece”, diz uma funcionária de uma escola na cidade de Codó, no Maranhão.

“Custa a chegar. E quando vem, a gente se junta lá com a vizinha aqui, que me ajuda demais, e aí a gente faz a merenda para essas criança. E, quando não, eles comem fruta da estação. Desse jeito”, conta a professora Maria do Amparo dos Anjos.

Professora de Lagoa Grande, em Pernambuco: Às vezes não tem aula porque não tem a merenda.
Fantástico: Difícil, não é?
Professora: É complicado.
Fantástico: Como é que você se sente, assim, cuidando dessas crianças nessa situação?
Professora: Assim, eu me sinto... pequena, né? Que seus alunos não tá crescendo. Você sente como se tivesse diminuindo, não tá aumentando.

E aí, se o aluno tem o que comer e faz sua refeição, é hora de escovar os dentes. Mas em que banheiro?

“A água que a gente tem para botar nas descargas. Ontem, quem fez a limpeza fomos nós, os professores. Ó, aqui não tem a torneira”, denuncia a professora Marilucia Gomes de Sá, professora em Petrolina, Pernambuco.

“O ano passado eles estudaram sem banheiro, não tinha banheiro”, conta Francisco da Silva, pai de um aluno em Lagoa Grande, Pernambuco.

Josiane Barbosa (zeladora em Lagoa Grande, Pernambuco): Ó, tem esse banheiro aqui. Não tem luz, todo esculhambado. Tão fazendo um ali fora, mas começaram e não terminaram ainda.
Fantástico: A descarga funciona?
Josiane Barbosa: Não.

Fantástico: Como é que faz o aluno quando precisa ir ao banheiro?
Funcionária: Os meninos vão para detrás da escola, e as meninas, do outro lado, assim como a professora também. Que nós não temos banheiro.
Fantástico: A senhora usa o mato quando...
Funcionária: Também.

Fim das aulas, hora de voltar para casa. Lama, viagem longa e perigosa, em mais um dia do ano letivo.

Essas escolas passam por inúmeras dificuldades. Para muitos professores, a situação é mais difícil ainda, porque eles têm que dar aulas para várias turmas ao mesmo tempo. É o chamado ensino multisseriado, bastante comum no Brasil.

Fantástico: Enquanto a senhora está dando aula para uma turma, a outra aguarda, é assim que é feito?
Professora: É. Sempre eu começo pela educação infantil, já tá aprendendo a coordenação motora. Eu passo primeiro. Aí vou para o outro que já está lá no quarto, quinto ano.

Algumas das escolas mostradas na reportagem oferecem aos alunos menos do que o mínimo do mínimo. Uma escola com infraestrutura elementar tem que ter água, banheiro, esgoto, energia elétrica e cozinha. Quase metade das escolas brasileiras é assim.

São 87 mil ou 44,5% do total de escolas no país, segundo estudo feito por pesquisadores da Universidade de Brasília e da Federal de Santa Catarina.

“Escolas com estrutura precária em geral são escolas municipais e muitas dessas escolas são rurais. Se nós pegarmos escolas que atendem alunos com um nível socioeconômico equivalente, as que têm melhor estrutura tendem a oferecer melhor resultado”, diz José Joaquim Soares Neto, pesquisador da UnB.

A escola com a infraestrutura adequada tem sala dos professores, biblioteca, laboratório de informática, quadra esportiva e parque infantil. Conta também com acesso à internet e máquina de cópias.

E a escola com infraestrutura avançada tem tudo isso e ainda laboratório de ciências e instalações para estudantes com necessidades especiais.

Das 195 mil escolas brasileiras, pouco mais de mil são avançadas. Isso representa 0.6% do total. “Em geral, essas escolas estão em regiões como Sul e Sudeste”, completa o pesquisador.

Diante disso tudo, o que é que leva todos esses brasileiros, alunos, professores e também os pais, a seguir em frente?

O professor Elias Ferreira da Silva passou por algumas dessas situações que você acabou de ver, chegou à universidade e hoje dá aula na Escola São José, em Alagoas, aquela dos alunos que precisam do caminhão para ir à aula.

“É justamente essa vontade que eles têm de um futuro melhor que fazem ele ter essa força de sair 30 quilômetros, 20 quilômetros, 15 quilômetros, para chegar até a escola”, destaca Elias Ferreira da Silva.

“Ano passado, quando cheguei aqui, estava tudo caído, aí eu me sentei e, sinceramente, eu chorei”, revela uma professora.

“Eu queria que ela fosse grande, que tivesse vários professores, apesar que eu gosto de todos os meus professores, eles me ensinam muito bem”, comenta uma aluna.

“Eu sempre digo isso, que eu acho que a gente que trabalha na Zona Rural, nós somos realmente heroínas”, afirma uma mulher.

“Apesar desses lugares mais longínquos possível, vocês são o futuro dessa nação, construindo a sua própria história, ajudando a erguer mais esse país tão grande”, afirma uma professora.

A Prefeitura de Codó, no Maranhão, diz em nota que vem melhorando a infraestrutura das escolas rurais. Afirma que, nos últimos cinco anos, foram construídas e equipadas 150 novas salas de aula. E que está prevista a construção de mais 28 escolas nos próximos 2 anos.

Veja o que os outros órgãos públicos têm a dizer:

A prefeitura de Jaboatão dos Guararapes informou na sexta-feira (7) que o trabalho de recuperação está em andamento.

“Já recuperamos 51 escolas e temos um cronograma de execução até o final do ano. As três escolas visitadas, desde a produção das imagens até o presente o momento, já resolvemos mais de 90% do que vocês filmaram”, afirma secretário de Educação de Guararapes, Francisco Amorim.

A Secretaria de Educação de Joaquim Gomes, em Alagoas, informa que tem projetos junto ao Ministério da Educação para obter recursos federais para recuperar escolas rurais e também urbanas. Novas cadeiras já estão sendo compradas e reparos estão sendo feitos nas escolas.

O secretário de Educação de Lagoa Grande, em Pernambuco, diz que o município está trabalhando na recuperação das escolas em regime de urgência.

“Encontramos o município totalmente sucateado. Fizemos um levantamento emergencial onde a gente poderia intervir de imediato”, afirma o secretário de Educação de Lagoa Grande, Daniel Torre.

A Secretaria de Educação de Alagoas afirma que a ordem de serviço para recuperação da Escola Estadual Pajé Miguel Selestino já foi assinada. Serão instalados um laboratório de informática e uma biblioteca.

As cadeiras da escola Joaquim Francisco da Costa, em Petrolina, Pernambuco, foram substituídas cinco dias depois de o Fantástico visitar a escola.

TRANSPORTE TEMERÁRIO


ZERO HORA 10 de março de 2014 | N° 17728


EDITORIAIS



Levantamento do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS) aponta irregularidades preocupantes na área de transporte escolar no Rio Grande do Sul, que precisam ser enfrentadas de imediato. Os problemas não se restringem apenas à frota, que registrou uma redução importante na idade média em circulação, mas ainda oferece riscos inquietantes, como o fato de alguns veículos circularem sem cinto de segurança. Há também falhas na formação dos condutores, muito dos quais trabalham sem habilitação específica e tem até registros de infrações gravíssimas na carteira de motorista.

Certamente, o objetivo do relatório do TCE não é alarmar os pais ou os próprios estudantes transportados – do Ensino Infantil ao Superior, passando pela educação especial. É óbvio, porém, que um sistema responsável pelo deslocamento de 400 mil usuários por todo o Estado não pode dar margem a qualquer tipo de risco previsível, nem esperar que um problema aconteça para agir. Por isso, é preciso que o estudo contribua para ações efetivas sob o ponto de vista da prevenção, que garantam mais segurança para os usuários.

O importante é que, a cada levantamento desse tipo, fique claro que as falhas estão sendo corrigidas. A manutenção de ônibus e vans com tempo excessivo em circulação, por exemplo, acaba na prática tornando o serviço ainda mais caro para o poder público. E é preciso que as falhas, quando existentes, sejam expostas com franqueza para os munícipes, que assim poderão controlar ou mesmo pressionar para que sejam corrigidas logo.



ESCUELAS DE TIEMPO COMPLETO


ZERO HORA 10 de março de 2014 | N° 17728

ARTIGOS

JULIANA BRIZOLA

Muitos argumentam e defendem teses sobre a educação pública em nosso país. Poucos radicalizam sobre o essencial: educação é prioridade. Nos países desenvolvidos, como Finlândia, Coreia do Sul e Irlanda, para citar alguns, os estudantes passam em média nove horas na escola. Aqui, o tempo de permanência na escola pública não supera cinco horas diárias. No Uruguai, seguindo o modelo criado por Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, o presidente Pepe Mujica adotou a proposta pedagógica denominada Escuelas de Tiempo Completo. Lá, o modelo foi implantado buscando reduzir as disparidades sociais. O projeto, iniciado em 2005, em cinco anos avançou em 14% das escolas de educação básica.

Enquanto nosso vizinho investe na educação pública enfrentando os desafios do século 21 e “asumiendo el desafío de avanzar em una educación inclusiva y de calidad para todos”, conforme as orientações de políticas educacionais do Conselho de Educação Inicial e Primária da Administração Nacional de Educação Pública, aqui patinamos em propostas e contrapropostas. O projeto inclusivo da Escola de Tempo Integral idealizado por Brizola e Darcy, há mais de três décadas, responde às expectativas sociais. E não avançou porque, ao contrário dos valentes uruguaios, projetos de igualdade social nunca foram nossa prioridade.

Embora a realidade apresentada, acredito que é através do compromisso que conseguimos avançar. Assim, depois da aprovação constitucional pela Assembleia Legislativa, em 2011, que torna a educação de tempo integral uma obrigação do Estado, abri duas frentes de trabalho: uma, para auxiliar os agentes públicos nessa tarefa que, conforme a lei regulamentadora, prevê a implantação do sistema integral em até 10 anos para 50% dos escolares gaúchos, com adaptação física das escolas, dos currículos e também a preparação dos professores; a outra, através da comissão especial direcionada ao estudo do projeto original com as necessidades de atualizações e de um diagnóstico de outros países, com nossa proposta.

Todo esse trabalho servirá de fio condutor com a história que se iniciou em 1961, quando no Ano da Escolarização foram construídas 6 mil escolas, erradicando o analfabetismo e transformando o Estado gaúcho em modelo nacional de educação. Se a educação é mesmo prioridade e não somente discurso de campanhas políticas, temos que radicalizar!


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Uma grande ideia de difícil aplicação no Brasil por falta vontade politica em investir na estrutura e nos educadores, e pela ingerência do "politicamente correto" que impede a a disciplina e o civismo na formação dos alunos. Nas escolas, defendo um ensino multidisciplinar envolvendo os conhecimentos científico, artístico, desportivo e técnico para identificar talentos, desenvolver potencial e promover uma cultura  de respeito e de disciplina para uma melhor qualidade de vida, relação social proativa e sobrevivência no mercado de trabalho

sexta-feira, 7 de março de 2014

AS FALHAS DO TRANSPORTE ESCOLAR GAÚCHO


ZERO HORA 07 de março de 2014 | N° 17725

LARA ELY


NO CAMINHO DA AULA. Relatório do TCE aponta problemas na formação de motoristas e veículos sem cintos de segurança


O transporte escolar no Rio Grande do Sul ainda tem condutores com idade avançada, infrações graves, sem cursos de formação e psicotécnicos específicos, além de apresentar veículos sem cintos de segurança. As informações foram apontadas em levantamento da situação do transporte escolar municipal no Rio Grande do Sul, realizado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS) e divulgado na manhã de ontem.

De acordo com a pesquisa, a maior parte da frota apresenta condições adequadas de transporte, mas ainda registra veículos com mais de 10 anos, condutores sem habilitação específica e motoristas com infrações graves e gravíssimas. Diretor de controle e fiscalização do TCE, Leo Richter destaca que, embora tenha caído de 13,5 para 11,4 anos a idade média dos veículos e zerado a quantidade de carteiras vencidas em relação a 2011, ainda há transportes que trafegam com grande ociosidade de vagas.

– Outros transportam alunos acima da capacidade – acrescenta.

A qualificação dos condutores e a falta de cinto, segundo ele, são problemas adicionais para a segurança:

– O número dos veículos sem cinto pode ser baixo, mas um único acidente pode ser fatal, por isso notamos que há coisas que precisam ser melhoradas para aprimorar a qualidade da prestação do serviço.

Os resultados do estudo subsidiarão os gestores públicos e as auditorias realizadas pelo tribunal. Segundo Richter, o objetivo é melhorar o serviço para os cerca de 400 mil usuários do serviço, 25% dos alunos matriculados na rede básica do ensino público:

– O estudo ajuda os gestores a melhor adequarem a estruturação orçamentária, a qualidade do transporte e a segurança dos transportados.

Recentemente, o TCE-RS enviou ofício aos prefeitos e aos presidentes de câmaras de vereadores, orientando sobre o correto registro, no orçamento de cada município, das despesas realizadas na área do transporte escolar.


terça-feira, 4 de março de 2014

O NÓ DA EDUCAÇÃO



ZERO HORA 04 de março de 2014 | N° 17722


EDITORIAIS



Recém divulgado, o Censo da Educação Básica revela alguns aspectos promissores para o país, como o aumento do número de crianças em creches e pré-escolas e uma maior quantidade de alunos em instituições de tempo integral e na educação profissional. Ao mesmo tempo, aponta uma evasão de proporções inquietantes no Ensino Médio, motivada principalmente pelo fato de muitos alunos continuarem nesse nível numa faixa de idade em que já deveriam estar na universidade. Em consequência, a estimativa mais recente, de 2012, é que o Brasil tinha 1,5 milhão de jovens entre 15 e 17 anos fora da escola, o equivalente a toda a população de Porto Alegre. O país já demonstrou que é possível universalizar o acesso ao ensino no nível fundamental. Precisa agora estender o avanço ao Ensino Médio, evitando que um contingente tão expressivo de alunos acabe deixando a sala de aula antes do tempo.

Menos mal que, nessa faixa de idade, cada vez mais adolescentes estejam se encaminhando para a Educação de Jovens Adultos (EJA) e para a educação profissional, que na mais recente edição do Censo registrou uma expansão de 6% sobre o ano anterior. Ainda assim, essa é uma etapa do ensino que precisa ser acompanhada muito de perto, pois é responsável pela formação de jovens prestes a ingressar no mercado de trabalho ou na universidade. A qualidade do ensino ministrado nessa etapa tem relação direta com o padrão dos futuros universitários e com o nível de excelência da mão de obra das empresas, mostrando-se decisiva para os ganhos de competitividade. E é preciso considerar que essas alternativas não podem ser vistas simplesmente como substitutas do Ensino Médio.

Os dados do Censo, de 2012, demonstram que 98% das crianças entre seis e 14 anos cursavam o ensino formal. Na faixa de 15 a 17 anos, porém, 15,8% não estudavam, o que exige uma ação firme da parte do poder público. Se foi possível atrair e reter a quase totalidade dos alunos do nível fundamental, o mesmo deve ocorrer na etapa posterior. O país tem que se mostrar capaz de motivar os jovens no Ensino Médio, a ponto de fazê-los se interessar pelos conteúdos e se manter em sala de aula. Nessa idade, os futuros profissionais precisam ser devidamente orientados sobre a importância de assegurarem mais qualificação para disputar o mercado de trabalho.

Alternativas como o turno integral, em ascensão no país, podem colaborar no esforço de retenção e qualificação de alunos, desde que alicerçadas em projetos pedagógicos coerentes. O nó da educação no Ensino Médio, porém, só será desfeito quando a escola contar com professores, condições materiais e conteúdos sintonizados com o que os alunos buscam nessa fase da vida.