EDUCAÇÃO MULTIDISCIPLINAR

Defendemos uma política educacional multidisciplinar integrando os conhecimentos científico, artístico, desportivo e técnico-profissional, capaz de identificar habilidade, talento, potencial e vocação. A Educação é uma bússola que orienta o caminho, minimiza dúvidas, reduz preocupações e fortalece a capacidade de conquistar oportunidades e autonomia, exercer cidadania e civismo e propiciar convivência social com qualidade, dignidade e segurança. O sucesso depende da autoridade da direção, do valor dado ao professor, do comprometimento da comunidade escolar e das condições oferecidas pelos gestores.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

BAIXA ESCOLARIDADE E MÁ ESCOLARIDADE

EDUARDO NUNES, FILÓSOFO E JORNALISTA - ZERO HORA 12/08/2011

A baixa escolaridade dos aspirantes ao mercado de trabalho é apontada como um entrave ao desenvolvimento do país, mas a falta desses anos a mais de estudo está longe de ser o principal problema a retardar nosso crescimento. Muito pior que a baixa escolaridade é a má escolaridade.

A má escolaridade é tão nociva porque incapacita até os que atingem, pelo menos no papel, uma alta escolaridade. Um exemplo significativo é a tragédia dos exames da OAB, em que a imensa maioria dos postulantes, todos bacharéis, é reprovada. E a “culpa” não é apenas das faculdades de Direito. As raízes do problema só serão desenterradas se retrocedermos no histórico escolar dos candidatos até o Ensino Fundamental, quando eles certamente deixaram de aprender muitas coisas que deviam ter aprendido.

O jornalista Fausto Wolff, homem de erudição e argúcia notáveis, costumava dizer que devia quase tudo que sabia a suas professoras do primário, com quem aprendeu a ler, escrever e pensar, na Porto Alegre dos anos 40. Ele estava certo. As fundações sobre as quais edificamos todo o nosso conhecimento são estabelecidas nos primeiros anos de escola, com a alfabetização, com as quatro operações matemáticas, com o desenvolvimento do raciocínio lógico. Se bem trabalhados, esses alicerces garantem aprendizado efetivo e maduro pelo resto da vida. Se mal trabalhados, fazem com que todo o aprendizado posterior seja carente e incompleto.

Em sete anos lecionando na rede pública, testemunhei o gritante despreparo com que as crianças saem dos anos iniciais. Eu não podia usar a maior parte dos livros didáticos enviados pelo MEC porque os alunos eram, quase todos, incapazes de entender o que estava escrito. A capacidade de interpretação e de escrita vem decaindo ano após ano. As professoras de matemática da quinta série também não podiam trabalhar os conteúdos próprios da etapa, porque eram obrigadas a ensinar as quatro operações básicas, que seus alunos deveriam ter aprendido três anos antes. E o que fazíamos com esses estudantes? Éramos pressionados, pela Secretaria de Educação e pelos pais, a aprovar o maior número possível, independentemente do desempenho. Aprender, para eles, não é importante. O importante é o avanço.

Uma das causas da disseminação da praga da má escolaridade, além do sucateamento da rede escolar, é o nível dos professores, cada vez mais baixo. Em parte, porque a carreira no magistério, tão mal remunerada, atrai principalmente os que não conseguem colocação melhor, em parte pela proliferação de cursos de licenciatura caça-níqueis sem qualquer excelência, em parte porque o ciclo da má escolaridade se fechou: empurrado pela aprovação quase automática, aquele aluno que saiu da escola sem aprender já concluiu seu curso superior, voltou à escola como professor e hoje é (mal) pago para não ensinar.

Além disso, há docentes que ensinam mal por opção, fundamentados em teorias pedagógicas messiânicas de gurus que pregam que ministrar “conteúdos” é “obedecer à lógica tecnicista do mercado”. Ouvi, em um seminário de educação, um palestrante dizer que, na sala de aula, o con-teúdo é o menos importante. Para ele, o importante é “ensinar o aluno a se fazer a pergunta que liberta”. Com isso, queria dizer que a formação crítica e política deve preceder o ensino dos conhecimentos básicos. Com ideias assim sendo (mal) implementadas nas escolas, é fácil saber por que diplomamos, ano após ano, tantos analfabetos funcionais.

Enquanto isso, os secretários de Educação e a sociedade comemoram o progressivo aumento da escolaridade média e a redução da evasão escolar, mas poucos parecem notar que as crianças e jovens que estão na escola não estão aprendendo.


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

ENSINO TÉCNICO, LONGE DOS ERROS DO PASSADO

Está em tramitação no Congresso Nacional um projeto de lei (o PL 1.209/ 2011) criando o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), que pretende organizar e ampliar a oferta de cursos técnicos. Ao propor tal programa, o Executivo federal reconhece as deficiências na formação de quadros técnicos, tanto para o setor produtivo como em profissões associadas ao bem estar das pessoas, em particular nas áreas de saúde, educação e meio ambiente.

Entretanto, apesar de serem necessários incentivos a uma adequada formação de técnicos, tanto no aspecto do número insuficiente desses profissionais quanto na qualidade de sua educação, dependendo da forma que o programa vier a ter, pouco ou nada contribuirá para as suas finalidades, em especial se repetir os passos do ProUni e do Fies. Para prevenir que esse novo programa incorra em erros passados deveríamos evitar alguns aspectos do ProUni e do Fies, que financiam matrículas em instituições privadas.

Uma das características da educação superior brasileira é a sua privatização: estamos entre os três ou quatro países com a menor participação do setor público. Essa privatização faz o Brasil apresentar uma distribuição de estudantes pelas várias áreas do conhecimento bastante diferente da dos demais países. A nossa porcentagem de estudantes em cursos básicos de ciências, engenharias ou agropecuária, por exemplo, é significativamente menor do que nos demais países, enquanto a porcentagem de estudantes nas áreas de negócios e administração é significativamente maior. Essa distorção é provocada basicamente pelas instituições privadas, uma vez que a distribuição de estudantes nas instituições públicas obedece à regra mundial. Assim, subsídios ao setor privado acirram essa distorção.

Outra característica do ensino superior brasileiro diz respeito à qualidade dos cursos em instituições privadas. Como decorrência do fato de estas se preocuparem, necessariamente, com os seus balanços financeiros, muitas vezes em detrimento da qualidade dos seus cursos e das necessidades do País, quer sob o aspecto regional, quer em relação às diferentes áreas de conhecimento, subsídios ao setor privado acabam por incentivar maus cursos e más instituições.

O retorno social de grande parte dos cursos oferecidos pelas instituições privadas é muito baixo, tanto para a sociedade em geral quanto para os próprios estudantes, no que diz respeito às chances de trabalho nas áreas em que se graduaram, às possibilidades de acompanharem as mudanças tecnológicas e sociais e à remuneração que receberão. O ensino na maioria das instituições privadas pode ser classificado muito mais como uma revisão de algumas ferramentas - de matemática, interpretação de textos e de leis científicas - que deveriam ter sido fornecidas ao longo da educação básica, aliada a um treinamento em alguma área momentaneamente em voga e de baixo custo. Não é à toa que são abertas vagas ao sabor de modismos e fechadas tão logo esses modismos ou o "mercado de trabalho" (ou uma ilusão dele) se esgotem. Os exemplos mais recentes talvez sejam os cursos de Fisioterapia e de Educação Física. Assim, incentivos a uma expansão adicional das matrículas em instituições privadas são um desserviço à Nação.

Considerando a qualidade dos cursos, o próprio Tribunal de Contas da União (Relatório de Auditoria Operacional - Programa Universidade para Todos (ProUni) e Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies), 2009) alertou para o fato de que, com o ProUni, "corre-se o risco de formar uma massa de profissionais com escassa qualificação para o mercado de trabalho". Além disso, "tem-se "pago" - indiretamente - um preço maior pelas vagas nas instituições privadas de ensino superior do que o montante que elas efetivamente valem".

Nesse contexto, antes de repetirem no ensino técnico os mesmos passos do ProUni e do Fies, seria necessário avaliar muito cuidadosamente os resultados desses programas. Além dos aspectos já salientados - que se devem repetir no ensino técnico -, há que atentar para taxas de evasão mais altas e considerar os custos econômicos para os governos e para as pessoas. Vale lembrar que os investimentos necessários para manter um estudante de graduação numa instituição pública são equivalentes aos custos do setor privado (veja-se, por exemplo, Jornal da USP, 18/11/2010, página 2, acessível pela internet). Em cursos de igual qualidade, os investimentos públicos podem ser significativamente inferiores aos de instituições privadas.

É necessário lembrar, ainda, que o ProUni coloca bons estudantes - afinal, são estudantes economicamente desfavorecidos e que, apesar disso, apresentam bom desempenho - em maus cursos. Em instituições públicas esses mesmos estudantes estariam frequentando cursos de melhor qualidade e em áreas de conhecimento mais adequadas para o País, seriam mais bem atendidos, encontrariam moradia, assistência médica e alimentação subsidiadas, poderiam envolver-se em bons programas de iniciação científica, teriam professores acessíveis, boas bibliotecas e amplas possibilidades de pós-graduação.

Melhor teria sido, em vez de criar um novo programa de subsídio ao setor privado, rever os resultados do ProUni e do Fies. O Pronatec deveria restringir-se a incentivar os setores públicos do ensino técnico, os quais deveriam trabalhar em rede para uma cobertura adequada do território nacional e considerando as necessidades das diferentes atividades profissionais e regiões do País.


OTAVIANO HELENE E LIGHIA HORODYNSKI-MATSUSHIQUE - PROFESSOR NO INSTITUTO DE FÍSICA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP), FOI PRESIDENTE DO INEP E DA ADUSP PROFESSORA APOSENTADA DO INSTITUTO DE FÍSICA DA USP, FOI VICE-PRESIDENTE DA REGIONAL SÃO PAULO DO ANDES-SN - O Estado de S.Paulo - 10/08/2011

terça-feira, 9 de agosto de 2011

ATAQUE DE VÂNDALOS DEIXA CRIANÇAS SEM AULAS

Crianças ficam sem aulas após ataque de vândalos. Quase nada sobrou de escola improvisada em uma igreja em Eldorado do Sul - EDUARDO TORRES - ZERO HORA 09/08/2011

As 120 crianças da Escola Estadual Sergipe, na comunidade de Bom Retiro, na zona rural de Eldorado do Sul, não puderam ter aula, ontem, nem sabem quando voltarão à escola. O motivo foi o ataque de vândalos, que incendiaram as instalações já precárias no salão da igreja local.

Oincêndio criminoso ocorreu na madrugada de domingo, mas, na madrugada de ontem, os invasores voltaram ao local e espalharam pratos e utensílios de cozinha pelo descampado ao lado da igreja.

Anita da Silva Santos, 10 anos, do quinto ano do Ensino Fundamental quase não acreditava no que via, na manhã de ontem.

– Queimaram todos os livros novos que a gente tinha ganhado. Como vamos ficar agora? – lamentava.

O incêndio destruiu completamente a biblioteca e a secretaria com todos os arquivos dos mais de 60 anos da instituição, além de parte da sala de aula de Anita.

Ainda não há suspeitos do crime, e a polícia aguarda os resultados da perícia. Há a possibilidade de o fogo ter se alastrado por acidente.

De acordo com o delegado Daniel Ordahi, é provável que a intenção dos invasores fosse cometer mais um furto à escola. No escuro, eles teriam usado velas e as deixado dentro das salas.

– Com o vento, o forro em PVC e a grande quantidade de papel, é possível que o fogo tenha se alastrado rapidamente. Mas, é claro, isso não exime os responsáveis de crime – disse Ordahi.

Neste ano, local já foi alvo de quatro ataques

De acordo com a diretora Claudete Silva de Oliveira, só neste ano foram quatro invasões e, nos últimos dois anos, uma dezena de casos.

A comunidade escolar chegou a pedir mais segurança à Brigada Militar e à 12ª Coordenadoria da Educação.

Anita e os seus colegas não poderão voltar à sala de aula pelo menos até sexta. Uma semana foi o tempo pedido pela 12ª Coordenadoria da Educação para recuperar a estrutura destruída pelo fogo. Ontem, um engenheiro da prefeitura de Eldorado do Sul fazia a avaliação do estrago e a Defesa Civil local já havia se comprometido a ajudar na reconstrução.

Outra alternativa seria organizar o transporte dos 120 alunos para alguma escola de Guaíba. Essa possibilidade será apresentada hoje à Secretaria da Educação.

O vandalismo foi mais uma das dificuldades enfrentadas pelas crianças.Em 2009, o antigo local que abrigava a escola foi condenado. Desde então, salas de aula foram improvisadas no salão da igreja.

A promessa da Secretaria Estadual da Educação é de que em outubro módulos provisórios serão instalados lá. A expectativa é de que a reforma entre no orçamento do ano que vem.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

INOVAÇÃO NA ESCOLA - EXEMPLOS E INSPIRAÇÃO

INOVAÇÃO NA ESCOLA, EDITORIAL ZERO HORA 08/08/2011


Duas escolas gaúchas oferecem exemplos e inspiração a educadores que não se apegam à desculpa da falta de recursos e, mesmo com carências, investem em ideias criativas. A Escola Municipal de Ensino Fundamental Borges de Medeiros, de Campo Bom, e o Instituto Estadual de Educação Vasconcelos Jardim, de General Câmara, venceram a etapa brasileira do Prêmio Microsoft e estão habilitados a participar da final, em Washington, com educandários de outros países. Um aspecto deve ser ressaltado, antes da exaltação dos méritos dos projetos vencedores. As duas escolas são públicas, o setor da educação mais questionado por não acompanhar o ritmo de atualização de instituições privadas, que geralmente dispõem de melhores estruturas.

Os colégios premiados, pela capacidade de iniciativa de professores e alunos, afastam o estigma de que a escola pública será sempre retardatária nas ações que atualizem seus métodos de aprendizagem. Nos dois casos, há uma preocupação com a conexão da escola à realidade dos estudantes. Na Borges de Medeiros, os alunos do 9º ano do Ensino Fundamental criaram uma TV transmitida pela internet. A escola potencializou o uso das ferramentas disponíveis, fazendo com que os estudantes aprendam se divertindo, num meio que eles dominam, via Messenger, blogs e redes sociais. No Instituto Vasconcelos Jardim, o folclore foi abordado em vídeos produzidos por câmeras e celulares, com um detalhe que particulariza a ideia: tudo o que fizeram não valia nota.

Os projetos reconhecidos nacionalmente indicam que a escola pode, sim, ser um ambiente sedutor, se não for imobilizado por métodos pouco atraentes a crianças e adolescentes. Não há como ignorar as novas mídias e as novas tecnologias, que aos poucos frequentam também as instituições públicas, algumas vezes por iniciativa, ainda tímida, dos governos. Os colégios citados devem inspirar outras ações, para que a ousadia cúmplice – de quem ensina e de quem aprende – supere a acomodação.

domingo, 7 de agosto de 2011

POR QUE NÃO ACEITEI O PRÊMIO DA PNBE


Lembram da professora que silenciou deputados em audiência pública no Rio Grande do Norte? - BLOG AMANTES DO DIREITO. sexta-feira, 29 de julho de 2011

Oi,

Nesta segunda, o Pensamento Nacional de Bases Empresariais (PNBE) vai entregar o prêmio “Brasileiros de Valor 2011″. O júri me escolheu, mas, depois de analisar um pouco, decidi recusar o prêmio. Mandei essa carta aí embaixo para a organização, agradecendo e expondo os motivos pelos quais não iria receber a premiação. Minha luta é outra. Espero que a carta sirva para debatermos a privatização do ensino e o papel de organizações e campanhas que se dizem “amigas da escola”. Amanda

Natal, 02 de julho de 2011

Prezado júri do 19º Prêmio PNBE,

Recebi comunicado notificando que este júri decidiu conferir-me o prêmio de 2011 na categoria Educador de Valor, “pela relevante posição a favor da dignidade humana e o amor a educação”. A premiação é importante reconhecimento do movimento reivindicativo dos professores, de seu papel central no processo educativo e na vida de nosso país.

A dramática situação na qual se encontra hoje a escola brasileira tem acarretado uma inédita desvalorização do trabalho docente. Os salários aviltantes, as péssimas condições de trabalho, as absurdas exigências por parte das secretarias e do Ministério da Educação fazem com que seja cada vez maior o número de professores talentosos que após um curto e angustiante período de exercício da docência exonera-se em busca de melhores condições de vida e trabalho.

Embora exista desde 1994 esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora comprometida com o movimento reivindicativo de sua categoria. Evidenciando suas prioridades, esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Banco Itaú, Embraer, Natura Cosméticos, McDonald’s, Brasil Telecon e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva.

A minha luta é muito diferente dessas instituições, empresas e personalidades. Minha luta é igual a de milhares de professores da rede pública. É um combate pelo ensino público, gratuito e de qualidade, pela valorização do trabalho docente e para que 10% do Produto Interno Bruto seja destinado imediatamente para a educação. Os pressupostos dessa luta são diametralmente diferentes daqueles que norteiam o PNBE.

Entidade empresarial fundada no final da década de 1980, esta manteve sempre seu compromisso com a economia de mercado. Assim como o movimento dos professores sou contrária à mercantilização do ensino e ao modelo empreendedorista defendido pelo PNBE. A educação não é uma mercadoria, mas um direito inalienável de todo ser humano. Ela não é uma atividade que possa ser gerenciada por meio de um modelo empresarial, mas um bem público que deve ser administrado de modo eficiente e sem perder de vista sua finalidade.

Oponho-me à privatização da educação, às parcerias empresa-escola e às chamadas “organizações da sociedade civil de interesse público” (Oscips), utilizadas para desobrigar o Estado de seu dever para com o ensino público. Defendo que 10% do PIB seja destinado exclusivamente para instituições educacionais estatais e gratuitas.

Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal.

Por essa razão, não posso aceitar esse Prêmio. Aceitá-lo significaria renunciar a tudo por que tenho lutado desde 2001, quando ingressei em uma Universidade pública, que era gradativamente privatizada, muito embora somente dez anos depois, por força da internet, a minha voz tenha sido ouvida, ecoando a voz de milhões de trabalhadores e estudantes do Brasil inteiro que hoje compartilham comigo suas angústias históricas. Prefiro, então, recusá-lo e ficar com meus ideais, ao lado de meus companheiros e longe dos empresários da educação.

Saudações,

Professora Amanda Gurgel

QUESTÃO DE JUSTIÇA

PÁGINA 10 | ROSANE DE OLIVEIRA - ZERO HORA 07/08/2011

Cobrar de quem pode pagar para estudar nas universidades federais não está na pauta do governo, mas o resultado da pesquisa divulgada durante a semana sobre o perfil econômico dos estudantes deveria, no mínimo, abrir um debate sobre o financiamento do Ensino Superior. A pesquisa realizada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) mostra que, no Brasil, cerca de 56% das vagas nas universidades públicas são destinadas a estudantes das classes A e B.

Na Região Sul, a diferença é ainda maior: 66% dos alunos das universidades federais vêm do estrato que abriga os 10% mais ricos da população. Apesar das políticas de inclusão social e do aumento de quase 100% na oferta de vagas entre 2002 e 2010, a classe C pouco avançou nos últimos 15 anos em matéria de conquista de espaço nas universidades federais: o crescimento foi de apenas 3%.

Se o Brasil nadasse em dinheiro, os professores de todos os níveis fossem bem remunerados e 100% dos estudantes tivessem direito ao ensino público e gratuito na universidade, tudo bem, mas não é o caso. Como falta dinheiro na educação, seria razoável discutir uma forma de os alunos de maior poder aquisitivo pagarem pelo menos uma parte do custo da graduação. Esse dinheiro poderia ser usado para equipar as próprias universidades, liberando os cofres públicos para ampliar os investimentos na educação básica, ou mesmo na concessão de bolsas para alunos carentes que estudam em universidades privadas ou comunitárias.

O ensino público e gratuito universal, em todos os níveis, é uma bela utopia. Na vida real, entram nos cursos mais disputados os que podem pagar uma escola privada de qualidade ou cursinho preparatório para o vestibular. É verdade que as classes A e B pagam (ou deveriam pagar) impostos suficientes para lhes garantir a faculdade dos filhos numa instituição pública, mas quem disse que os pobres alijados do Ensino Superior ou obrigados a buscar financiamento para estudar em universidades privadas não pagam impostos?

sábado, 6 de agosto de 2011

PRESENÇA NAS UNIVERSIDADES

EDITORIAL ZERO HORA 04/08/2011


Pesquisa divulgada ontem pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) chama a atenção para o fato de que, por si só, as chamadas políticas afirmativas e a expansão do número de vagas não têm sido suficientes para facilitar um ingresso considerável de estudantes de menor renda nas universidades federais. A situação é particularmente preocupante na Região Sul, onde apenas 33% de quem estuda nessas instituições provém das classes C, D e E. Ainda que a situação pudesse ser considerada pior sem algumas mudanças colocadas em prática nos últimos anos, o fato é que a questão deveria suscitar algumas providências num país e num Estado que precisam ampliar o número de anos de estudo da população.

Um dos aspectos apontados pelo levantamento é que nada menos de 12% das matrículas nas universidades federais são trancadas pelos alunos por razões geralmente associadas à questão financeira. O problema é comum em famílias com renda familiar de até cinco salários mínimos, o equivalente a R$ 2.550, e se amplia ainda mais nos casos em que há três ou quatro dependentes. Mesmo quem consegue ingressar numa instituição de nível superior acaba esbarrando em tantas dificuldades, que nem sempre chega ao final do curso.

A questão, como adverte a Andifes, é que não basta apenas facilitar o acesso à universidade: é preciso ter condições de se manter durante o período em que o universitário cursa uma faculdade. Por isso, o setor público precisa levar mais em conta a importância de políticas adequadas de assistência estudantil, que permitam aos universitários de menor renda arcar com custos financeiros inevitáveis até garantirem o diploma. Em contrapartida, cabe ao governo, como ocorre em países desenvolvidos, instituir um sistema de retorno por parte dos profissionais beneficiados pela formação subsidiada pela sociedade.

Em qualquer país, são os universitários, em grande parte, que têm a responsabilidade de formar outros profissionais, dos quais o Brasil e o Estado precisam para qualificar melhor sua mão de obra. Daí a importância de que o acesso à universidade passe a depender cada vez mais de habilitação para cursá-la do que de condições financeiras.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA- Como defendo a política educacional ambientada nos conhecimentos científico, técnico, desportivo e artístico a partir do ensino médio visando identificar potencial e talentos dos adolescentes e encaminhá-los para um futuro escolhido por ele a partir de descobertas das habilidades e vocações, os resultados positivos desta política se refletiriam nas universidades, inclusive públicas se...

- O sistema de ingresso deveria ser através de vestibulares com pontuações diferenciadas, mais um teste de requisitos técnicos e vocacionais, para cada faculdade.

- Durante o curso, o aluno de universidade pública terá que cumprir requisitos como nota mínima, mudanças de faculdade e trancamento plenamente justificado em critérios definidos, e tempo limite para encerramento de curso, sob pena de perda da vaga.

- Os formandos de universidades públicas que receberam o conhecimento profissional utilizando recursos públicos e sem pagar por eles, deveriam, como obrigação contratual, devolverem estes recursos em serviços comunitários por um certo período de anos nas suas áreas de conhecimento, após estarem aptos para desenvolver a capacidade aprendida.

Assim, estes três fatores irão contribuir para que os estudantes com poder financeiro passem a renegar o público, abrindo oportunidades para que uma grande massa de estudantes pobres possa cursar uma universidade pública.

Posso até estar falando bobagem, mas é o que penso.